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Na quaresma de 2007, Papa Bento XVI convidou o Arcebispo emérito de Bolonha, Cardeal Giacomo Biffi, para dirigir os exercícios espirituais que o Pontífice faria com os membros da Cúria Romana (organismo central que administra da Igreja Católica, com suas secretarias, congregações, dicastérios, ofícios, conselhos e comissões pontifícias etc. Sua primeira conferência foi sobre o senhorio de Cristo sobre o cosmos e a história, e, como porta de entrada, foi analisado um conto longo “Breve relato sobre o Anticristo”, do filósofo russo Vladimir Soloviev (1853-1900), sobre algumas das questões mais sérias da humanidade: o problema do Mal e seu combate, o sentido da História, a opção entre o Cristo e o Anticristo.

Em “Breve relato sobre o Anticristo”, Soloviev imagina um mundo marcado por grandes guerras e revoluções, apesar do desenvolvimento jamais visto da ciência. Nele as pessoas, mesmo afastadas do cristianismo e vivendo numa espécie de vácuo espiritual, continuariam de algum modo necessitando de algo semelhante a religião. Nesse ponto de extrema vacuidade espiritual é que, por fim, surgiu como remédio um governo planetário, prometendo a paz universal e a harmonia das nações e das religiões, exercido por um homem muito poderoso, cujo nome é omitido (o autor chama-o de Super-Homem).

O Super-homem não era um ateu, como Nietzsche ou Marx, mas um convicto espiritualista que dizia crer no bem e em Deus, ainda que no fundo a nada mais amasse que a si mesmo. Cultivava as virtudes e o estudo; a filantropia era um de seus esportes prediletos. Sua fama mundial veio de um livro que publicou, O caminho aberto para a paz e a prosperidade universal, que se transformou um best-seller mundial, onde se revelava um espírito ao mesmo tempo respeitoso do antigo e do moderno, do mais individual e do mais social, do mais teórico e do mais prático.

O Super-homem não mencionava o Cristo uma só vez em sua obra, embora alguns princípios cristãos ali se manifestassem, como a necessidade do amor ativo e a benevolência universal. Considerava-o só um genial precursor dele próprio, o imperador do planeta, o salvador perfeito e definitivo, que purificou a mensagem cristã daquilo que seria inaceitável ao homem moderno, sobretudo o fato escandaloso da Cruz e da Ressurreição.

O personagem de Soloviev era um pacifista (à diferença de Cristo, que trouxe espada para dividir o bem e o mal, o Anticristo vangloriava-se de ter trazido ao mundo a paz); um ecologista (era vegetariano e amigo dos animais); e um ecumenista (desejava unir consensualmente todos os cristãos do mundo).

Com tantos atributos, aparentemente tão positivos, onde estava o problema desse “anticristo”? O cardeal Biffi responde com acerto: o problema do Super-homem era o de pretender criar um mundo perfeito sem o senhorio de Cristo, único  Senhor da história e do universo. Não há maior astúcia demoníaca do que utilizar os valores evangélicos para a instauração do Reino de Deus neste mundo. Muitas vezes, Jesus Cristo era só uma desculpa para falar de outra coisa. Ou, o que é ainda mais trágico: uma desculpa para falar contra o próprio Jesus Cristo, o Deus que se fez homem, e que agora deve ceder a vez ao homem que pretende ser Deus.

Observava o cardeal que coisas ótimas, como a solidariedade, o amor à paz, o respeito pela natureza, a disposição ao diálogo, etc., descambam facilmente para a idolatria, quando se dissociam do Cristo verdadeiro, transformando-se nos “ídolos” da classe proletária, da Mãe-Terra deificada, do pacifismo (paz a qualquer preço), da sexualidade self-service.

Esse novo e falso evangelho de um cristianismo sem Cristo, sem horizonte sobrenatural, sem esperança de ressurreição pessoal, integrado ao mundo e seduzido por uma liberdade sem limites, é para o Cardeal Biffi é a maior tragédia do nosso tempo, pois fora de Cristo e da esperança cristã só há o “vazio” do homem e o seu desespero, incapaz de encontrar a sua plenitude.

O Anticristo não é teoria conspiratória, mas personagem obrigatório da história da salvação, mencionado várias vezes, direta ou indiretamente, no Novo Testamento (nos Evangelhos de São Marcos e São Mateus, em cartas de São João e São Paulo, no Apocalipse), e já prefigurado no Velho Testamento, nos livros de Ezequiel e Daniel. É, portanto, algo revelado por Deus. Ele virá um dia, inevitavelmente, preparado por uma sucessão imensa de anticristos preparatórios.