Museum - Hildegard von Bingen

Durante a Idade Média as mulheres frequentaram escolas e dedicaram-se ao estudo? Sabe-se que na idade antiga, as mulheres no Oriente existiam exclusivamente para o prazer e a alegria do homem, exceto entre os judeus que não as tomavam apenas como objetos. Na Grécia, segundo o historiador Xenofonte, em seu tratado de economia doméstica, a menina devia receber instrução a ser completada posteriormente pelo marido, a fim de se tornar uma boa dona de casa, educadora dos filhos e das servas. Quanto aos estudos superiores, as galas das letras e as sutilezas da filosofia ficavam reservadas, como se sabe, para as heteras que deviam somar seus encantos para o deleite e gáudio dos amigos. Todavia, no fim do primeiro século de nossa era, Musônio Rufo advogava a causa da instrução feminina, asseverando que as mulheres deviam receber a mesma educação que os homens, uma vez que são dotadas de capacidades idênticas às masculinas e por deverem capacidades idênticas às masculinas e por deverem ser virtuosas como eles. Donde a conveniência de se ministrar formação filosófica às mocas, sendo apenas de esperar que não venham a perder-se nas tricas das discussões lógicas, o que não é apreciável ou desejável até mesmo para os rapazes.

Entre os romanos as mulheres recebiam instrução suficiente para se poderem desincumbir dos seus deveres de mães, e Quintiliano, logo no início de seu tratado sobre a Educação do Orador, afirma desejar que os pais sejam tão instruídos quanto possível, citando o exemplo de Cornelia, mãe dos Gracos, que contribuiu enormemente para a eloquência deles. Quintiliano lembra, ainda, uma das filhas de Lélio, casada com Múcio Cevola, que revelava em suas conversas a elegância que assinalava o pai, assim como Hortênsia, filha do orador Quinto Hortensio, que discursava com a mesma eloquência de seu progenitor.

Mas depois que as migrações germânicas desfizeram a estrutura imperial romana e desorganizaram a rede escolar; após o ocaso do mundo antigo, quando a coruja de Minerva bateu asas e voou, continuaram as mulheres a receber formação literária?

A respeito dessa questão, é preciso evitar e refutar duas respostas por serem igualmente erróneas. A primeira é aquela cómica asserção de que as mulheres não poderiam ter estudado durante o período medieval, uma vez que até em concílios se discutia .se elas possuíam alma, o que seria, pelo menos, reduzi-las ao nível dos escravos que, segundo Cícero, não passavam de instrumentos falantes. A segunda resposta pecaria pelo exagero oposto, ao imaginar-se que as mulheres da Idade Média tomavam de assalto as escolas paroquiais e monásticas, como hoje ocorre com as chusmas femininas que disputam vagas em todos os tipos de escolas.

A história do concílio que teria discutido a questão da alma das mulheres, não passa de burla, que revela, no mínimo, jovial ignorância. Com relação ao fato que deu origem a esse rumor, só existem duas possíveis fontes de documentação. Uma, as atas do II Concílio de Macon, que nada registram a respeito de tal questão. A outra é o relato feito por Gregório de Tours sobre um problema linguístico que fora levantado num intervalo das sessões do concílio. Conforme Gregório, em sua História dos francos, um dos bispos afirmou a seus pares que o termo homo (homem) não podia ser aplicado às mulheres, tal como a fazemos, ao afirmar que a mulher também é um ser humano, incluindo-as na designação genérica de “homens”. Os colegas do bispo acudiram à sua angústia semântica, explicando-lhe que, de acordo com o Génesis, o livro sagrado do Antigo Testamento, quando Deus criou o homo, “criou um macho e uma fêmea e lhes deu o nome de Adão” (1). Com isso, diz Gregório, o bispo se acalmou.

Quanto à segunda resposta, está claro que não existiu na Idade Média a marcha das mulheres em direção às escolas, como viria a ocorrer no século XX. Mas não resta dúvida de que o caminho da instrução permanecia aberto para elas. A tal respeito, podemos citar, antes de tudo, dois testemunhos separados por muitos séculos. Primeiramente, temos um passo da Vida de Santa Radegunda escrita pelo poeta Venâncio Fortunato no século VI. Logo de início, ao correr da pena, Venâncio diz da menina Radegunda, raptada por Clotário dos confins da Turíngia, que “entre os trabalhos convenientes ao seu sexo, recebeu educação literária” (2). No século XII, conforme confissão de Abelardo em sua Historia Calamitatum, a mocinha Heloísa, por quem o árdego dialeta se apaixonou, recebeu boa educação de seu tio, o cónego Fulberto, de modo que era a mulher mais notável pela excelência da sua formação literária (3). Entre esses testemunhos muitos outros podem citar-se de mulheres instruídas, especialmente a propósito das “irmãs de Hildegarda”, para nos valermos do título da obra editada por Karl Koch, e na qual se apresentam as mais antigas biografias de Radegunda, Batilda, Liutbirga, Wiborada, todas monjas, que não só receberam instrução nas letras, imprescindível para o seu próprio aperfeiçoamento monástico, mas, também, como muitas outras, se aprofundaram no estudo dos livros sagrados, compuseram poesias e, como Hildegarda, escreveram obras científicas; como Herrad de Landsberg, enciclopédias, e como Hhoswitha, peças teatrais.

No regulamento para monjas de Waldeberto de Luxeuil, do século VII, há um capítulo consagrado à educação das jovens monjas. Entre outras coisas, aí se diz que “elas devem adquirir o hábito da leitura” (4).

No século IX, ao que informa Eginhardo em sua biografia de Carlos Magno, este tratou de proporcionar às suas filhas o estudo das artes liberais, que nelas devia andar de par com as habilidades femininas usuais.

As filhas do conde Eberhard tiveram sua parte na herança dos livros do pai. Dodana, duquesa de Septimania, recomendava a seus filhos que formassem bibliotecas. Venâncio Fortunato ficou siderado pelo brilho do espírito, além do esplendor das virtudes, de Radegunda e da jovem abadessa Agnes (5).

Adélia, filha de Guilherme, o Conquistador, recebia dos bispos Hildeberto de Mans e Ivo de Chartres cartas e versos em latim. No século XI são numerosas as mulheres ilustres que se dedicam à leitura ou escrevem o latim com elegância (6).

Entretanto, pode objetar-se: mas, então, só as mulheres nobres podiam estudar e possuíam prendas literárias? Sobre tal assunto pode dizer-se o mesmo que a respeito da instrução dos leigos em geral. Em princípio, a instrução estava aberta a quem quer que demonstrasse interesse e aptidão. Como diz Montalembert, na obra Les moines de d’Occident, cada comunidade de mulheres era ao mesmo tempo uma escola e uma oficina”, onde, tendo sempre em vista o serviço divino e a salvação da própria alma, as monjas, em determinados momentos, conforme a Regra, se aplicavam ao estudo ou ao bordado, de acordo com as suas aptidões (7).

Houve quem falasse, a propósito dos monges, em tipos de monaquismo: o “Kulturmonchtum” (monaquismo cultural), e o “Kultmonchtum” (monaquismo de culto). O primeiro seria o de mosteiros como Saint-Gall, Fulda, Corvey e Reichenau, enquanto o segundo caracterizaria os de Cluny, Fleury e outros, que seriam avessos à cultura. Ora, aplicar-se-ia tal distinção aos mosteiros femininos? Antes de tudo, convém esclarecer que o erudito Dom Jean Leclercq pôs uma pá de cal sobre essa questão, mostrando que não há motivo para tal distinção, que os mosteiros sempre acolheram os estudos, mas que alguns, como o de Cluny, não eram favoráveis ao desenvolvimento das escolas monásticas internas abertas aos estudantes seculares, como ocorria em Fulda e Reichenau (8), uma vez que a quantidade de alunos e a azáfama dos escolares trazia perturbações para a vida regular e para o recolhimento contemplativo. Mas o mesmo ocorreu, também, com os mosteiros femininos. Em geral, suas escolas internas atendiam às famílias da vizinhança. Todavia, houve quem, como São Cesário de Aries, antecipasse, de séculos, a prevenção de Cluny contra o barulho da meninada. Assim, em sua Regula ad virgines, diz ele: “Não se recebam, de modo algum, filhas de nobres ou de plebeus, para ensinar e alimentar” (9). Excelente afirmação, apesar do azedume, a desse bom santo. Pois, de um golpe, São Cesário dá a entender que era costume receber filhas de nobres e de plebeus nos mosteiros femininos, onde se lhes dava aprimorada instrução. Por conseguinte, conforme o texto de uma regra monástica feminina, era costume que nobiles e ignobiles, levadas pelo desejo de estudar, fossem orientadas pelas monjas nos trabalhos da agulha ou na leitura dos Salmos e de Vergilio.

O senso da hierarquia social entre as monjas estava no sangue e era muito mais agudo em terras alemãs. É o que se infere de uma carta de Santa Hildegarda de Bingen a uma abadessa que a consultava sobre a admissão de candidatas à vida monástica, «sobre a conveniência de receber moças de procedência obscura, pois, como diz a interlocutora de Santa Hildegarda, o próprio Senhor escolheu pescadores pobres como discípulos. A santa, depois de aludir às vestes cândidas das monjas, e afirmando no fim da carta que seu pensamento procede da “viva luz” e não de criatura humana, ensina que as nobres devem ser separadas das plebeias, as ignobiles, para que não venham a ser presa do ódio, devido aos hábitos contraídos anteriormente. Santa Hilde garda temia que as nobres acabassem por dar vazão ao orgulho, e as plebeias ao despeito e à raiva, e, por isso, reforça seu pensamento com afirmar que Deus divide os povos da terra como separa no céu os Anjos, os Arcanjos, os Tronos, as Dominações, os Querubins e os Serafins. Todos são amados por Deus, mas não têm nomes iguais (10). Bem diferente era o modo de pensar de Pedro, o Venerável, o virtuoso e sábio beneditino, contemporâneo de Santa Hildegarda. Diz ele que certos homens já não devem ser considerados como servos, mas como Irmãos (11). Aliás, outro mentor de monjas, um autor anónimo do século XII, no vale do Reno, ao contrário de Santa Hildegarda, insistia na igualdade dos membros do mosteiro em seu Speculum virginum: “Do ponto de vista de nossa ascendência, só temos um pai na terra, Adão, e um só no céu, o Cristo” (12).

A partir do século XII, parece que os próprios estudos das monjas ganham em consistência, em função do renascimento cultural que se processa nesse tempo. Assim, quando Fulberto confiou sua sobrinha a Abelardo, desejava que o célebre professor de lógica a conduzisse pelos difíceis caminhos da dialética. Logo, porém, o mestre, com aquiescência da aluna, transformou completamente o tom de suas lições.

A culta abadessa de Hohenburgo, Herrad de Landsberg, redigiu sua enciclopédia O jardim das delícias, para que as Cônegas da Ordem regular de Santo Agostinho pudessem dispor de bom instrumento para o estudo das artes liberais.

No século XIII, por indicação de São Domingos, as monjas de São Sixto em Roma, conforme as Constituições, devem aplicar-se não só à oração, à leitura da Sagrada Escritura e à preparação do Ofício divino, como, também, ao canto, à aprendizagem das letras (eruditione litterarum) ou aos trabalhos manuais (13). Tal como os frades Pregadores, que inauguravam na mesma época um novo estilo de vida religiosa em que o estudo era tomado como dever de ofício, obrigação da Regra.

Notas

  1. São Gregório de Tours, Historia francorum, Lib. VIII. cap. 20. PL. 71. cl. 462 C.
  2. Venâncio Fortunato. Vita S. Radegundis Reginae cap. 2, PL 88, cl. 462 C.
  3. Abelardo. Historia calamitatum. Paris, Vrim, 1959, p. 71, 1. 285.
  4. 4. Regula ad virgines, cap. 24. PL 88, cl. 1070. C.
  5. Raby, A history of secular latin poetry in the Middle Ages. 2ª ed. Oxford. The Clarendom Press, vol. I, pág. 135-136.
  6. Leon Maître. Les écoles épiscopales et monastique en Occident. Paris, Picard, 1924, cap. VI (“Instruction des femmes”, p. 173).
  7. Montalembert, Les moines de Occident depuis Saint Benoit jusqu’a Saint Bernard. Paris, Victor Lecoffre, tomo V, p. 311-312.
  8. Dom Jean Leclercq. Aux source de la spiritualitè occidentale. Paris. Cerf, 1964, p. 281.
  9. São Cesário de Arles. Regula ad virginis. PL 67, cl. 1108 D.
  10. Santa Hildegarda. Epistola CXVI, PL 67, cl. 338 A-B.
  11. Pedro, o Venerável. Epistola 28, PL 189, cl. 146 D.
  12. Leclercq-Vandenbroucke-Bouyer. La spiritualité du Moyen-Age. Paris, Aubier, 1961, p. 219.
  13. Santo Domingo de Guzmán. Su vida, su orden, sus escritos. Madrid, BAC, 1947, p. 924.

(Em “Suplemento Literário” do jornal O Estado de São Paulo. 5/9/1970, ano 14, nº 686)