Pio XII

Há cinquenta anos, 9 de outubro de 1958, falecia, em Castel Gandolfo, o Papa Pio XII. Este aniversário, diz o Santo Padre Bento XVI, “oferece uma importante oportunidade de conhecer mais plenamente o que Pio XII realizou em prol dos judeus perseguidos pelo regime nazista e fascista”.

Ao morrer, Pio XII recebeu extraordinárias homenagens do mundo inteiro. Recordo-me, presente em Roma para suas exéquias. O Presidente Eisenhower declarou: “O mundo tornou-se mais pobre depois de morto Pio XII”. E Golda Meir, Ministra do Exterior do Estado de Israel: “Nós choramos um grande servidor da paz”. Na mesma oportunidade, ela proclamou que, por ocasião do “terrível martírio que se abateu sobre nosso povo, a voz do Papa se elevou em favor de suas vítimas”. O historiador E. Pinchas Lapide, que foi cônsul em Milão, ao surgirem incriminações contra Pio XII, em sua obra Three Popes and Jews (Londres, 1967), afirma que “Pio XII, a Santa Sé, os núncios do Vaticano e toda a Igreja Católica salvaram de 700.000 a 850.000 hebreus da morte certa, no regime nazista”.

As acusações de omissão nasceram com o drama O Vigário, de R. Hochhuth, em 1963, e com a obra de S. Friedlander, Pio XII e o III Reich, em 1964.

Com a publicação do documento Nós recordamos: uma reflexão sobre a Shoah, da Pontifícia Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, ressurgiram os ataques a Pio XII. Eles podem ser resumidos na ausência de protesto contra Hitler, pelo que se denomina “Holocausto” (Shoah) e, em consequência, a responsabilidade por esse terrível crime de genocídio.

Há, portanto, duas reações antagônicas à atuação de Pio XII. Uma vem dos contemporâneos da tragédia, a outra de uma geração posterior. Como há uma orquestração contra a Igreja Católica e, em particular, o Romano Pontífice, as vozes que criticam — por serem articuladas e fortes — podem dar uma impressão errônea. Uma reflexão tranquila nos pode ajudar a ver claramente a realidade e evitar perder um terreno ganho em favor da maior fraternidade alcançada entre os filhos do mesmo Pai na Fé, Abraão, isto é, entre católicos e judeus.

O Cardeal Dezza, jesuíta, na revista La Civiltà Cattolica de 4 de abril de 1998, relata uma longa audiência que teve com Pio XII em 1942. “Este sofria, pois estava pronto para a solene condenação do modo de agir de Hitler, mas mostrava a correspondência de cardeais e bispos alemães sobre a maior violência — inclusive contra os judeus — que se seguiria, em caso de ser publicado um documento desse teor. Em Münster, o célebre Bispo católico Von Galen, reconhecido como crítico do nacional-socialismo, quis pregar contra a perseguição aos judeus, mas a comunidade hebraica convenceu-o a não fazê-lo: ‘Não ajudaria, pelo contrário, causaria a morte de muitos’.

A encíclica de Pio XI, Mit Brennender Sorge (“Com viva preocupação”) — de cuja redação participou o Cardeal Eugenio Pacelli, então Secretário de Estado do Vaticano e, mais tarde, eleito Papa Pio XII — condenando o regime nazista e o racismo, infiltrada, clandestinamente, na Alemanha e lida em um mesmo dia, o Domingo de Ramos de 1937, 14 de março, fez recrudescer a perseguição a católicos e judeus. Hitler extravasava sua fúria!

Um protesto público de Pio XII, como querem seus detratores, impediria o grande e oculto trabalho de amparo a milhares de judeus inclusive da Igreja na Alemanha e países ocupados. Aliás, a Cruz Vermelha Internacional e as organizações judaicas americanas não agiram diferentemente. Não me recordo de ter lido algo diverso da atitude do Papa.

Para mim, foi particularmente dramático o caso da Holanda, em 1942. Ao começar a deportação uniram-se judeus, católicos, calvinistas e luteranos e puseram-se de acordo para elaborar um documento a ser lido nas igrejas, no mesmo Domingo, em protesto. O plano, apesar das cautelas, chegou ao conhecimento da Gestapo. O chefe, Karoten, fez saber aos responsáveis qual seria a represália. Todos recuaram, menos os bispos católicos, que divulgaram o documento no domingo 26 de julho de 1942. Na segunda-feira seguinte, veio a terrível resposta. Foi apressada a deportação de judeus de sangue e de religião, acrescidos dos israelitas convertidos ao catolicismo. Assim, a Santa Edith Stein e sua irmã, aprisionadas a 2 de agosto seguinte, embarcaram de trem e morreram no campo de concentração de Auschwitz, como os demais. Ao tomar conhecimento do fato, o Santo Padre rasgou e queimou as quatro páginas de protesto que havia escrito, para serem divulgadas em L’Osservatore Romano. É o testemunho de sua governanta e de outras irmãs que cuidavam do apartamento papal.

O Papa Bento XVI no discurso aos participantes do Congresso promovido pela Pave the Way Foundation, a 18 de setembro de 2008 afirmou: “Graças à vasta quantidade de material documentado que vós reunistes, coadjuvados por muitas testemunhas competentes, o vosso Congresso oferece ao foro público a possibilidade de conhecer mais plenamente aquilo que Pio XII realizou em prol dos judeus perseguidos pelos regimes nazista e fascista. Deste modo, compreende-se que na medida do possível ele não poupou quaisquer esforços em vista de intervir em favor deles, quer diretamente quer mediante instruções dadas a outros indivíduos ou instituições da Igreja católica. Nos trabalhos do vosso Congresso chamastes também a atenção para as suas numerosas intervenções, feitas no segredo e no silêncio, precisamente porque, considerando a situação concreta desse difícil momento histórico, somente deste modo era possível evitar o pior e salvar o maior número de judeus. Esta dedicação intrépida e paternal foi reconhecida e apreciada durante e depois do terrível conflito mundial por parte dos judeus, comunitária e individualmente, que manifestaram a sua gratidão por aquilo que o Papa fizera por eles. É suficiente recordar o encontro de Pio XII, realizado no dia 29 de novembro de 1945, com 80 delegados dos campos de concentração que, durante uma Audiência especial que lhes foi concedida no Vaticano, quiseram agradecer-lhe pessoalmente a sua generosidade para com eles ao longo do período da perseguição nazi-fascista”.

Reverenciamos a dor gerada pela Shoah. Trazemos à lembrança a condenação da Igreja ao nazismo, a ajuda de Pio XII aos judeus perseguidos e deploramos erros cometidos por pessoas que se declaravam cristãs. (07/11/2008)