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[Trechos da homilia do Papa Bento XVI na Missa de beatificação do Cardeal John Henry Newman, em 19 de Setembro de 2010, Birmingham, Inglaterra.]

O mote do Cardeal Newman, Cor ad cor loquitur, «o coração fala ao coração», permite-nos penetrar na sua compreensão da vida cristã como chamada à santidade, experimentada como o intenso desejo do coração humano de entrar em íntima comunhão com o Coração de Deus. Ele recorda-nos que a fidelidade à oração nos transforma gradualmente na imagem divina. Como escreveu num dos seus belos sermões: «O hábito da oração, que é a prática de se dirigir a Deus e ao mundo invisível em cada época, em todos os lugares, em qualquer emergência, a oração, digo, possui aquilo que pode ser chamado um efeito natural no espiritualizar e elevar a alma. Um homem já não é o que era antes; gradualmente… interiorizou um novo sistema de ideias e tornou-se impregnado de princípios límpidos» (Parochial and plain sermons, IV, 230-231). O Evangelho de hoje diz-nos que ninguém pode ser servo de dois senhores (cf. Lc 16, 13), e o ensinamento do Beato John Henry sobre a oração explica como o fiel cristão se colocou de modo definitivo ao serviço do único verdadeiro Mestre, e só Ele tem o direito à nossa devoção incondicionada (cf. Mt 23, 10). Newman ajuda-nos a compreender o que isto significa na nossa vida quotidiana: diz-nos que o nosso Mestre divino atribuiu uma tarefa específica a cada um de nós, um «serviço bem definido», confiado unicamente a cada indivíduo: «Eu tenho a minha missão — escrevia — sou um elo numa corrente, um vínculo de ligação entre as pessoas. Ele não me criou para nada. Praticarei o bem, realizarei a sua obra; serei um anjo de paz, um pregador de verdade precisamente no meu lugar… se o fizer obedecerei aos seus mandamentos e servi-lo-ei na minha vocação» (Meditations and devotions, 301-2).

O serviço específico ao qual o Beato John Henry Newman foi chamado exigiu a aplicação da sua inteligência sutil e da sua obra fecunda a favor de muitos dos mais urgentes «problemas do dia». As suas intuições sobre a relação entre fé e razão, sobre o espaço vital da religião revelada na sociedade civilizada, e sobre a necessidade de uma abordagem da educação vastamente fundada e a amplo raio, não foram apenas de profunda importância para a Inglaterra vitoriana, mas continuam ainda hoje a inspirar e a iluminar muitos em todo o mundo. Desejo prestar homenagem à sua visão sobre a educação, que tanto fez para plasmar o «ethos», a força que está na base das escolas e dos institutos universitários católicos de hoje. Firmemente contrário a qualquer abordagem redutiva ou utilitarista, ele procurou alcançar um ambiente educativo no qual a formação intelectual, a disciplina moral e o empenho religioso produzissem juntos. O projeto de fundar uma universidade católica na Irlanda proporcionou-lhe a ocasião de desenvolver as suas ideias sobre este argumento e a coletânea de discursos por ele publicados como The Idea of a University contém um ideal do qual podem aprender todos os que estão comprometidos na formação acadêmica. E na realidade, qual meta melhor poderiam propor-se os professores de religião, do que aquele famoso apelo do Beato John Henry para um laicato inteligente e bem instruído: «Quero um laicato não arrogante nem polêmico, mas homens que conheçam a própria religião, que entrem nela, que saibam bem onde se erigem, que saibam o que creem e não creem, que conheçam de tal modo o próprio credo que dele prestem contas, que conheçam bem a própria história para a poder defender» (The Present Position of Catholics in England, IX, 390). Hoje, quando o autor destas palavras é elevado aos altares, rezo a fim de que, mediante a sua intercessão e o seu exemplo, quantos estão comprometidos na tarefa do ensino e da catequese sejam inspirados pela sua visão a um esforço maior, que está diante de nós de modo tão claro.

Enquanto o testamento intelectual de John Newman foi o que compreensivelmente recebeu maiores atenções na vasta publicidade sobre a sua vida e obra, prefiro nesta ocasião concluir com uma breve reflexão sobre a sua vida de sacerdote e de pastor de almas. O vigor e a humanidade que estão na base do seu apreço pelo ministério pastoral são magnificamente expressos por outro dos seus famosos discursos: «Se os anjos tivessem sido os vossos sacerdotes, queridos irmãos, não teriam podido participar nos vossos sofrimentos, nem ser indulgentes, nem ter compaixão por vós, nem sentir ternura em relação a vós, nem encontrar motivos para vos justificar, como nós podemos; não teriam podido ser modelos nem guias para vós, nem vos teriam conduzido do vosso homem velho para uma vida nova, como o podem fazer todos os que provêm do vosso mesmo ambiente» («Men, not Angels: the Priests of the Gospel», Discourses to mixed congregations, 3). Ele viveu aquela visão profundamente humana do ministério sacerdotal na devota solicitude pela população de Birmingham durante os anos dedicados ao Oratório por ele fundado, visitando os doentes e os pobres, confortando os esquecidos, ocupando-se de quantos estavam na prisão. Não admira que quando ele morreu milhares de pessoas se puseram em fila pelas ruas do lugar enquanto o seu corpo era levado à sepultura a meia légua daqui. Cento e vinte anos depois, grandes multidões se reuniram de novo aqui para se alegrar pelo solene reconhecimento da Igreja pela excepcional santidade deste amadíssimo pai de almas. Não há modo melhor para expressar a alegria deste momento do que dirigir-nos ao nosso Pai celeste numa ação de graças cordial, rezando com as palavras colocadas pelo Beato John Henry Newman nos lábios dos coros dos anjos no céu: Louvor Àquele que é Santíssimo no alto dos céus e louvor nas profundezas; belíssimo em todas as suas palavras, mas muito mais em todos os seus caminhos! (The dream of Gerontius).

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