Papa Bento ao piano

VIVALDI. As duas peças de Vivaldi que ecoaram esta tarde fazem parte dos chamados «concertos cheios», escritos para orquestra de arcos e baixo contínuo, dos quais uma boa parte tinha uma finalidade didática, especialmente quando Vivaldi ensinava na «Pietà», um dos quatro orfanatos-conservatórios de Veneza para meninas. A estrutura dos três tempos, com um breve adágio central, é típica do grande compositor italiano, mas esta uniformidade arquitetônica nunca é monótona porque — como ouvimos — o tratamento do timbre, a cor orquestral, a dinâmica do discurso musical, as misturas harmónicas, a arte do contraponto e da imitação fazem dos concertos de Vivaldi um exemplo de luminosidade e de beleza que transmite serenidade e alegria. Acho que isto derivava também da sua fé. Vivaldi era um sacerdote católico, fiel ao seu Breviário e às suas práticas de piedade. A escuta da sua produção de música sacra revela o seu espírito profundamente religioso.

BACH. O espírito profundamente religioso é uma característica que une Vivaldi a Johann Sebastian Bach, luterano, admirador de Vivaldi, de quem estudou e transcreveu vários concertos. «Soli Deo gloria»: esta frase aparece como um estribilho nos manuscritos de Bach — um leitmotiv das cantatas bachianas, como diz o opúsculo do programa — e constitui um elemento central para compreender a música do grande autor alemão. A profunda devoção foi um elemento essencial da sua índole, e a sua fé sólida sustentou e iluminou toda a sua vida. Na capa do «Kleines Orgelbüchlein» podem ler-se duas linhas «Dem höchsten Gott allein zu Ehren, Dem Nächsten draus sich zu belehren» [Ao Deus Altíssimo, para O honrar; aos outros, para os instruir]. Bach tinha uma concepção profundamente religiosa da arte: honrar a Deus e voltar a criar o espírito do homem. A escuta da sua música evoca quase o correr de um regato, ou então uma grandiosa construção arquitectónica, em que tudo está harmoniosamente amalgamado, como se procurasse reproduzir aquela sintonia perfeita que Deus gravou na sua criação. Bach é um maravilhoso «arquitecto da música», com um uso sem igual do contraponto, um arquitecto norteado por um tenaz ésprit de géometrie, símbolo de ordem e de sabedoria, reflexo de Deus, e assim a racionalidade genuína torna-se música no sentido mais elevado e puro, beleza resplandecente. Esta tarde pudemos admirar este espírito de Bach nos trechos iniciais tirados da monumental obra de fé que são as Cantatas, naquela música pura, cristalina da Partita n. 2 em ré menor para violino solo e no belíssimo Concerto bwv 1060, proposto numa revisão que, provavelmente, corresponde àquela mais antiga.

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