cardeal sarah

[Seguem alguns parágrafos da introdução do livro do Cardeal Robert Sarah, A tarde cai e o dia já declina, estruturado em forma de entrevista conduzida pelo escritor francês Nicolas Diat.]

Judas é, para toda a eternidade, o nome do traidor e hoje sua sombra paira sobre nós. Sim, como ele, nós também traímos! Abandonamos a oração. O mal de um ativismo eficiente se infiltrou em toda parte. Tentamos imitar a organização das grandes empresas. Mas esquecemos que a oração é o único sangue que pode revivescer o coração da Igreja. Dizemos que não temos tempo a perder. Queremos usar esse tempo para trabalhos socialmente úteis. Aqueles que não rezam mais, no entanto, já traíram, só dispostos a se comprometer com o mundo. Já estão no caminho de Judas.

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Nós suportamos toda sorte de desobediência. A doutrina católica é questionada. Em nome de presumidas posições intelectuais, certos teólogos divertem-se desconstruindo dogmas, esvaziando a moral de seu significado profundo. O relativismo é a máscara de Judas travestido de intelectual. Como espantar se descobrirmos que tantos sacerdotes quebram suas promessas? Relativizamos o sentido do celibato, reivindicamos o direito a uma vida privada, tudo em contraste com a missão do padre. Alguns até reivindicam o direito de exercer um comportamento homossexual. Escândalos se sucedem entre padres e bispos.

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Temos experimentado o mistério de Judas há muito tempo. O que agora parece estar em plena luz, tem causas profundas que devemos ter a coragem de denunciar claramente. A crise que o clero, a Igreja e o mundo estão enfrentando é radicalmente uma crise espiritual, uma crise de fé. Vivemos o mistério da iniquidade, o mistério da traição, o mistério de Judas.

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A Igreja sofre, é pisoteada e seus inimigos estão dentro dela. Não a abandonemos. Todos os pastores são homens pecadores, mas carregam consigo o mistério de Cristo. O que devemos fazer então? Não se trata de organizar e desenvolver estratégias. Como podemos pensar em melhorar as coisas? Isso significaria voltar à ilusão mortal de Judas. Diante do aumento dos pecados nas fileiras da Igreja, somos tentados a querer tomar a situação em nossas próprias mãos. Somos tentados a purificar a Igreja com nossas próprias forças. Seria um erro. O que poderíamos fazer? Um partido? Um movimento? Essa é a tentação mais grave: o ouro falso da divisão. Com o pretexto de fazer o bem, nos dividimos, nos criticamos, brigamos. E o diabo ri. Ele consegue fazer cair os bons, apresentando-se sob o mentiroso disfarce do bem. A Igreja não pode ser reformada com ódio e divisão.

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O mistério de Judas, o mistério da traição, é um veneno astucioso. O diabo tenta nos fazer duvidar da Igreja. Ele quer que a vejamos como uma organização humana em crise. Mas ela é muito mais que isso: é o prolongamento de Cristo. O diabo nos convida à divisão e cisma. Ele quer que acreditemos que a Igreja nos traiu. Mas a Igreja não trai. A Igreja, cheia de pecadores, é sem pecado! Nela sempre haverá luz suficiente para os que buscam a Deus: não se entreguem ao ódio, divisão e manipulação. Não se trata de criar um partido, de nos levantarmos uns contra os outros: “O Mestre nos advertiu contra tais perigos para tranquilizar as pessoas, mesmo contra os maus pastores: para que, por causa deles, a Igreja não fosse abandonada, ela que é a cátedra da verdade […]. Portanto, não nos percamos no mal da divisão, por causa dos iníquos “, disse Santo Agostinho (Carta 105).

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