Boris

O Tolstói doutrinador e revolucionário continua fascinando os intelectuais, mesmo os mais moderadamente esquerdistas. Bom exemplo é o tradutor, ensaísta e professor de literatura russa da USP, Boris Schnaiderman, que morreu quase centenário em 2016. Ao que parece, sempre foi de esquerda, daquela esquerda acadêmica que, nas Letras, já estava de olho nas técnicas de construção literária, e não só no “conteúdo” das obras. Foi, entre nós, um dos principais divulgadores da corrente crítica conhecida como formalismo russo.

Quando prof. Boris se referia, por exemplo, a Tolstói, fazia questão de deixar claro que o mais importante a considerar, no escritor russo, eram os seus romances e novelas, sobretudo os da primeira fase, relegando a um plano inferior os livros doutrinais do Tolstói-profeta das suas três últimas décadas de vida. Mais que o “santo” Tolstói, interessava-lhe o artista da prosa e o agudo psicólogo de Guerra e paz, Os cossacos, Ana Karenina.

Como, porém, uma mente esquerdista de hoje poderia desprezar o grande profeta da “nova ordem mundial” que foi Tolstói, com seu anarco-cristianismo, ecologismo, panteísmo, ecumenismo, telurismo? Depois de classificar tudo isto sob a categoria pouco lisonjeira do “tolstoísmo “, prof. Boris de certo modo a ela retorna, louvando-a. É o próprio professor quem afirma:

(…) depois que nos desvinculamos da “santidade” tolstoiana, depois que o encaramos sem os deslumbramentos pelo tolstoísmo que há, por exemplo, num Romain Rolland, surge mais um paradoxo. O tolstoísmo parece superado. Suas ideias afiguram-se como algo muito próximo da exaltação do “homem natural” por Rousseau. E ao mesmo tempo, sua veemência na defesa de concepções como esta torna-o tão próximo de nossa realidade! (…) Depois de nos termos desvinculado do tolstoísmo, para compreender melhor a grandeza do artista, depois de afirmar que só este nos interessava, temos de voltar a examinar o doutrinador, que colore com seu pathos toda a obra tolstoiana.

Boris Schnaiderman via como paradoxal a atração que sobre ele exercia aquelas duas coisas aparentemente distantes: de um lado, a obra literária realista de Tolstói, de outro o seu neo-humanismo anarcocristão. Uma possível saída, em busca de um Tolstói sempre a caminho da unidade, é procurar nas obras iniciais os lampejos e as prefigurações que já anunciavam o profeta da segunda fase; e a valorização de trabalhos dos últimos anos, como A morte de Ivan Ilitch, O Amo e o Criado, Khadji-Murat, que embora realizados no período antiliterário, em que negou a própria validade das artes, não eram inferiores às grandes obras-primas do princípio.

Era impossível resistir ao pathos do doutrinador:

Muitos hippies da década de 1960 diziam inspirar-se diretamente em Tolstói. E quantos adeptos recentes da contracultura, com todo o seu radicalismo, produziram algo tão violento e desassombrado, ao negar os valores culturais herdados, como o livro O Que é a Arte? de Tolstói? Nosso sistema educacional falido, as nossas universidades desvinculadas da vida, o vazio do nosso cotidiano, as nossas cidades monstruosas, como a consciência de todos estes problemas nos aproxima do Tolstói “superado”, daquele Tolstói que não era original como pensador, mas que soube imprimir tamanha intensidade a esta recusa da mentira cotidiana! E a sua exaltação do popular, do que estivesse livre do verniz ocidental, como repercute até hoje em tantos países! Segundo Tolstói, todo poder corrompe, e isto o liga diretamente a toda uma reflexão moderna sobre o poder.

Evidentemente, era necessário expurgar o segundo Tolstói de algumas excrecências que o distanciavam do homem atual, como o “ascetismo belicoso” da Sonata a Kreutzer, a total desaprovação do casamento e elogio da castidade, inaceitáveis hoje em dia (atitude que, curiosamente, liga o gnóstico Tolstói aos gnósticos cátaros da Idade Média, que também viam no sexo algo de sórdido que os homens superiores precisavam evitar). Também condenável, para o prof. Boris, era uma outra obsessão de Tolstói: a não-resistência ao mal pela força.

“Sua veemência pode parecer-nos estranha”, dizia o professor, “mas ele soube indicar com toda a força os males de uma civilização desumana” (…) não deixemos de ouvir esta voz que, em sua aparente insânia (pelo menos nos últimos anos de vida), soube tocar nas chagas mais doloridas e expô-las em plena luz”.

Tolstói continua muito atual. Mais do que isto: é um dos construtores desse estranho mundo novo que alguns chamam de “nova ordem mundial”, outros de “neo-humanismo”, cuja planta-baixa foi desenhada no século XVIII pelos pensadores iluministas, mestres incontestáveis do célebre proprietário de Iasnaia Poliana.

(As citações foram extraídas do livro Leão Tolstói, de Máximo Gorki, publicado pela Perspectiva em 1983, traduzido do russo por Rubens Pereira dos Santos. O prefácio é de Boris Schnaiderman).