lupo e pecora

O poeta francês François Villon, que viveu no final da Idade Média, escreveu um belo poema sobre a passagem do tempo, cujo refrão é “Mais où sont les neiges d’antan?”(Em tradução livre: “Mas onde estão as neves do último inverno?”). Ao final de cada estrofe, depois de referir-se a algo querido que se perdeu, voltava a mesma pergunta: “Mas onde estão as neves do ano passado?” Derreteram-se, não existem mais.

Quando um católico lê o absurdo documento preparatório para o Sínodo da Amazônia, que o Vaticano vai realizar no próximo mês de outubro, inevitavelmente se perguntará: “Mas onde está a Igreja Católica de sempre?”

A Igreja — cujas duras exigências morais chocam com as facilidades reinantes — é permanentemente atacada pela mídia secularista, pelas artes, pela universidade (inclusive universidades pontifícias), pelos movimentos de contestação da moral sexual cristã (LGBT) e pelas próprias correntes teológicas progressistas que insistem em autonomear-se católicas. Atos sacrílegos e blasfemos contra a Igreja são realizados nos lugares mais sagrados, quase sem repúdio da parte dos cristãos.

Esses são alguns dos inimigos externos, comandados pelos financiadores da nova sociedade globalista. Internamente, os problemas também são muitos, a começar pela decadência dos institutos de formação do clero, infiltrados de falsa teologia e pensamento ideológico anticatólico. Ordens religiosas encontram-se completamente desligadas do seu carisma de fundação. Estouram escândalos homossexuais do baixo ao alto clero, com permissividade ou conivência de autoridades eclesiásticas. Vê-se uma explícita militância política esquerdista de padres e bispos, com penalização canônica (ou ameaça de) a clérigos que defendem a fé católica de sempre; e louvor e glória a padres e bispos “heterodoxos” (sinônimo politicamente correto de “heréticos”).

O relaxamento da catequese, nas paróquias, vai provocando um generalizado analfabetismo religioso (desconhecimento dos dogmas; indiferença pelos sacramentos, sobretudo o matrimônio, penitência e Eucaristia; ausência de oração) e total desorientação moral dos católicos (que abortam, esterilizam-se, usam anticoncepcional, divorciam, praticam uma sexualidade self-service, votam em partidos anticristãos)

Trágica consequência da confusão doutrinal na Igreja Católica — atacada pelos Pilatos e Herodes de fora, como pelos Judas de dentro — é o colapso moral de nossa época. Não poderia ser diferente. Se a Igreja, que é a mestra moral por excelência,  desiste de ensinar o que é bem e o que é mal, deixando de instruir as pessoas sobre o destino sobrenatural do homem, o rebanho ficará inevitavelmente entregue ao primeiro ilusionista revolucionário que lhes aparecer por diante, em uma luminosa tela de tevê ou à frente de uma sala de aula.

“Mais où sont les neiges d’antan?” As neves do inverno passado já não existem mais. Derreteram-se, pois esse é o destino das neves. Heráclito de Éfeso, o filósofo grego que viveu antes de Sócrates, dizia que ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, pois é próprio do rio passar e ser outro. Há coisas que passam, que mudam, e outras que obrigatoriamente permanecem. “Passarão o céu e a terra”, disse Jesus, “mas as minhas palavras não passarão.” Os falsos teólogos procuram “desconstruir” o Cristo, tornando-o à sua imagem e semelhança; pretendem “desconstruir” a Igreja, transformando-a em braço do esquerdismo revolucionário.

Não conseguirão. É certo que boa parte do rebanho se dispersará — “Quando vier o Filho do homem encontrará fé sobre a terra?” —, mas um pequeno grupo vai permanecer fiel. “Edificarei a minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão”, garantiu Aquele que jamais contou uma só mentira.