vladimir-soloviev

[O escritor russo Vladimir Soloviev, 1853-1900, morto prematuramente, foi um dos principais adversários do anarquismo cristão de Tolstói. Combateu o tolstoísmo em pelo menos duas de suas obras, como se verá abaixo. Numa delas, encontra-se o famoso conto filosófico “O anticristo”, cujo protagonista, o “Super-homem”, é claramente inspirado em Tolstói].

Esses dois gênios, tão diferentes na aparência e na natureza, se encontraram e entraram em conflito tanto no campo da moral como da religião.

O famoso romancista, como sabemos, tinha a pretensão suprema de ser um moralista e até o maior dos moralistas. Na realidade, ele não compreendeu nada disso. O que ele entendeu, ou pensou que entendeu, o fez a partir de um instinto fantasioso e cego, obstinado e volúvel. Tolstói era quase incapaz de um argumento digno desse nome. Nada mais possuía, além de ciência confusa e vulgar.

Soloviev, por outro lado, personificava o pensamento metódico, equilibrado mesmo nos esforços mais ardentes e ousados, acostumado a usar os recursos de imenso conhecimento.

Tolstói, que tantas vezes invocava a autoridade de Cristo, carecia totalmente de fé cristã e dela não possuía nem a noção, nem o sentido, nem o gosto. Seus comentários sobre o Evangelho, e também sobre a moralidade, são frequentemente pretenciosos e ingênuos. Seu gênio consistia em observar e pintar os sentimentos e as paixões dos indivíduos; e isto ele o fez com argúcia e talento, embora instintivos.

Tolstói era todo instinto, todo capricho, enquanto Soloviev submetia suas mais vivas aspirações às regras da lógica, da ciência e da fé. Por algum tempo, ambos pareciam unidos na mesma luta pela liberdade, justiça e caridade (devo lembrar aqui que Solovev sempre foi radicalmente contrário à pena de morte); mas, depressa, Tolstói mergulharia nos caminhos da impiedade e da anarquia; e então a hostilidade dos dois escritores russos tornou-se inevitável, irremediável. Houve relação pessoal entre eles, e Soloviev se esforçou para que houvesse também amizade. Tolstói, apaixonadamente desejoso de ser profeta, só tolerava a contradição quando vinha de homens que não podiam lhe causar embaraços. Soloviev foi obrigado a contradizê-lo e, entre outros exemplos, em muitos pontos do grosso volume intitulado Justificativa do Bem, embora sem nomear seu rival uma única vez.

Como observa Radlov, este livro contém “uma permanente polêmica contra as opiniões de Tolstói”. No último livro de Soloviev, Três diálogos, que me deu a oportunidade de publicar o presente estudo introdutório, a doutrina de Tolstói ainda é longa e vigorosamente combatida, de uma forma original, espiritual, elegante, na qual a grande arte literária se põe a serviço de uma filosofia superior, da fé religiosa e da mística. Mais uma vez, o nome do adversário não é mencionado.

Tolstói ou Soloviev: qual deles sobreviverá por mais tempo e exercerá a influência mais profunda? Não é difícil adivinhar; ou melhor, nada precisa ser adivinhado. Tolstói deu muitos exemplos dos erros nos quais um gênio desequilibrado pode cair; e, enquanto pensador, desencorajou a confiança e a indulgência. Pelo contrário, o renome e a autoridade de Soloviev não cessam de crescer, e nos meios os mais diferentes.

(Em: Vladimir Soloviev, Trois entretiens sur la guerre, la morale et la religion. Trad. do russo e introdução por Eugène Tavernier. Paris, Plon, 1916. O trecho acima foi extraído da introdução de Eugène Tavernier, p. LXXXIII)