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[Segundo a tradição, a pequena casa de pedras onde viveu a Sagrada Família, em Nazaré, foi no século XIII miraculosamente transportada por anjos até a cidade de Loreto, na Itália. À volta da casa, onde o Arcanjo Gabriel anunciou à Virgem Maria a concepção divina, foi construído o Santuário da Santa Casa de Loreto, que hoje é um dos principais lugares de peregrinação na Itália. Outra versão é a de que a casa de Jesus, Maria e José teria sido desmontada e reconstruída onde hoje se encontra, depois de trazida nos navios dos cruzados que voltavam da Terra Santa. Ettore Gotti Tedeschi, ex-diretor do IOR, “Banco do Vaticano, no tempo de Bento XVI, pede ao Papa atual que crie uma comissão científica para estudar o assunto].

Caro Dr. Tosatti, peço hospedagem para uma reflexão sobre a Santa Casa de Loreto, à qual estou muito ligado, porque é a casa onde a Virgem Maria nasceu, cresceu e recebeu a Anunciação, iniciando com seu “fiat” a Redenção.

O diário Avvenire (do último 18 de setembro, página 17), publica uma mensagem (à província picenense dos Frades Menores) de Sua Santidade o Papa Francisco, na qual diz: “A cidade de Loreto, onde eu queria assinar a exortação pós-sinodal Christus Vivit, guarda um tesouro precioso: “algumas pedras da casa da família de Nazaré”.

Com essa consideração, o Santo Padre parece excluir a “translação  milagrosa”, como a autenticidade e a integridade da Santa Casa, conforme a tradição. A tradição da translação foi aceita por Seu antecessor, com base em documentos, pesquisas e testes que duram séculos.

Estamos falando da casa onde ocorreu a Anunciação; e, por isso, gostaríamos de implorar ao Santo Padre que criasse uma comissão composta por historiadores, arqueólogos, arquitetos, cientistas, a fim de averiguar (ou desmentir) que no santuário de Loreto existem três paredes intactas, formadas por pedras unidas com argamassa, vindas de Nazaré (jamais desmontadas e remontadas, intactas como estavam em Nazaré, em frente à Gruta).

Se fosse esse o caso, o transporte seria milagroso. É impensável que a casa tenha sido transportada por navios de cruzados, desmontando e remontando as três paredes por cinco vezes; a argamassa original não existiria mais (para dar apenas um exemplo).

Portanto, trata-se de algo substancialmente falso ou é um transporte milagroso.

Acredito que o risco de querer tornar credíveis os mistérios seja grande e complexo. Tenho fortes dúvidas de que o progresso científico consiga explicar o que, na “idade das trevas”, foi explicado como acontecimento milagroso.

A fé não é superstição, como afirmam alguns. Há quem acredite que, como não havia câmeras no momento da translação (1291-96), a translação milagrosa não pode ser aceita “cientificamente”; portanto, a Igreja, que parece querer apoiar apenas o que é imanente e “credível”, não parece mais aceitar a tese do milagre.

O milagre é um evento extraordinário não explicado pelas leis naturais, considerado intolerável para os racionalistas (a quem respeitamos). No entanto, é difícil entender como teólogos, ou apologistas da fé que se dizem católicos, neguem a possibilidade de milagre, mencionando como justificativa o fato de que coisas miraculosas se oporiam à inviolabilidade das leis naturais, contradizendo o próprio Deus. Eles me lembram Voltaire, ao dizer que, se Deus fizesse milagres, Ele corrigiria a natureza e a Si mesmo (que a criou).

Felizmente, às vezes a ciência vem ao nosso encontro, quando afirma que a natureza é muito mais complexa do que parece ao microscópio, possuindo ainda um potencial desconhecido.

Confirmo meu espanto com a superficialidade com que alguns, há muito, tratam a Translação da Santa Casa de Loreto, que é uma das duas relíquias mais importantes do cristianismo (junto com o Santo Sudário); e que a tradição, por mais de setecentos anos, acredita ter sido, por desejo divino, milagrosamente salva da fúria iconoclasta daqueles que mandavam nos lugares sagrados da Palestina.

Cientificamente, foi explicado mil vezes que a Casa não pode ter sido desmontada e remontada várias vezes, nem, portanto, transportada por mar. Foi documentado por especialistas que se trata das três paredes, sem fundações, daquela casa de Nazaré, construída apoiada a uma rocha.

Foi documentado que as pedras e os materiais de construção estão intactos, excluindo o desmonte e reconstrução por cinco vezes, em cinco locais diferentes (de 1291 a 1296), de acordo com a teoria do transporte marítimo realizado por cruzados e uma certa família Angeli (como alguém afirma desde 1900, de acordo com documentos conservados no Vaticano).

Mas, como é a verdade que conta, ela merece ser investigada. Estou pronto para reconhecê-la e pedir desculpas, mas apelo ao Santo Padre que crie uma Comissão para esclarecer os fatos, ao menos aqueles que podem ser cientificamente comprováveis.

Se for necessário, reconheceremos o erro da tradição, do milagre e das evidências científicas até então consideradas verdadeiras. Estou certo de que o bispo de Loreto e o delegado da Santa Casa, que é uma pessoa de grande valor, Dom Fabio Dal Cin, apoiará fortemente esse pedido filial, baseado no diálogo e no cotejo, continuamente desejado pelo Papa Francisco.

GOTTI TEDESCHI AL PAPA: UNA COMMISSIONE SCIENTIFICA SULLA CASA DI LORETO.