Roupa de ver Deus

Vários anos antes de sua morte na primavera passada, o historiador húngaro-americano John Lukacs comentou comigo, em referência à América do século XXI, que “é com isso que se parece uma sociedade proletária “. Lembrei-me de suas palavras na missa no domingo passado, quando olhei a assembleia, na parte de trás da igreja, e vi um jovem corpulento usando uma camiseta branca onde se lia “Simplesmente faça” impresso nas omoplatas.

No meu primeiro ano como católico praticante, um jovem também corpulento sentou-se no banco à minha frente e ajoelhou-se para orar, deixando-me ver a parte de trás de sua camiseta. Ele exibia uma estampa colorida de um porco montando outro porco, e embaixo a legenda “Fazendo um bacon”. Ele recebeu a Comunhão, mas ninguém parecia notar sua camiseta.

Não foi nada legal, mas podia ter sido pior. Certa vez, eu cantei em uma missa fúnebre para o repouso da alma de uma jovem que morreu por suas próprias mãos. Momentos antes do início do culto, seu pai entrou, vestido com short, camisa de golfe e um boné (que o padre pediu que ele tirasse). Talvez seus planos para aquele dia incluíssem, antes de tudo, uma partida de golfe, e ele simplesmente se esqueceu de seu outro compromisso.

Por outro lado, vestir-se para a missa de domingo como se fosse para o estádio de futebol, é agora a regra geral nas paróquias católicas dos Estados Unidos. Vinte anos atrás, meu sacerdote proferiu um sermão sobre o que significa vestuário adequado para a missa de preceito. “Vista o melhor que você tem”, padre Taylor disse, “e se o melhor que você tem não é muito, não se preocupe”. É uma boa regra de ouro, com certeza. Mas, se for obedecida hoje, a maioria da população que frequenta missas na América evidentemente se habilitaria a receber roupas grátis do Exército de Salvação.

Depois da Missa, minha esposa e eu fomos almoçar em um bar local, um dos poucos na cidade que servem almoço aos domingos. A clientela era mista: professores universitários e profissionais do lugar, estudantes universitários, jovens famílias de trabalhadores braçais, turistas e assim por diante. O que nunca varia é o uniforme do homem contemporâneo: jeans justos, muitos com buracos artisticamente cortados sobre as rótulas do joelho; camisetas com mensagens; camisetas sem manga usadas independentemente da idade, sexo, constituição corporal e peso; tênis e chinelos.

Por volta da metade do século passado, as crianças se vestiam como seus pais. Atualmente, os pais se vestem como seus filhos. O infantilismo, ou talvez simplesmente peter-panismo, terá se tornado epidêmico nos Estados Unidos?

Não há muitos anos, as pessoas cuidavam de sua apresentação e de seus trajes, tanto delas como dos filhos. No almoço a que me referi, provavelmente dois terços dos clientes estavam acima do peso, muitos deles de maneira escandalosa. Sem surpresa, a especialidade principal do cardápio foi macarrão com frango, imerso em creme de leite, coberto por fatias de queijo cheddar e, sobretudo, tiras de bacon.

Os americanos abandonaram-se inteiramente à obesidade desleixada e à preguiça física e mental? Quando até pessoas habituais na Missas recebem a Hóstia sem antes se apresentar como criaturas criadas pelo Todo-Poderoso à Sua própria imagem, é justo pensar-se em que tipo de pessoas os americanos se transformaram. Lukács teve a resposta: proletários.

Os americanos voluntariamente se privaram de qualquer senso de respeito próprio, inerente a seres criados à semelhança de Deus, a pessoas auto-responsáveis, autogovernadas. O desconhecimento formal do funcionamento da máquina do governo, por parte de muitos cidadãos, não é perigoso para o futuro de uma sociedade democrática. (A disciplina “Educação cívica”, um esforço estúpido, como descobri na sétima ou oitava série, só é interessante para quem quer ser representante de turma na escola). Porém, uma completa ignorância da história é perigosa; e, quando combinada com o que se ensina na escola dominical da paróquia sobre o cristianismo e seu papel no desenvolvimento político dos últimos dois milênios, também é um risco.

Não é preciso ser esnobe para imaginar como um povo, assim tão frouxo e descuidado, poderia ter um futuro enquanto sociedade estável, autoconfiante, responsável, prudente e coesa. O proletariado, por definição, deveria ser uma classe criativa. No entanto, não se pode contar com o proletariado americano pós-moderno para isso. Em vez de procriar, esteriliza; e quando não o consegue, aborta.

O problema é, nitidamente, um excesso de democracia que, como previu Tocqueville, transformaria a igualdade perante a lei numa uniformidade niveladora em todos os níveis e aspectos da sociedade. Isso inclui pensamento e compreensão da coisa pública, aspiração e esforço pessoais, bom gosto — os quais, como a água, invariavelmente buscam o nível mais baixo possível para atingir o menor denominador comum.

Os americanos, considerados coletivamente e como massa, ficaram irreconhecíveis em  poucas décadas. Entre eles há, sem dúvida, muitos milhares ou mesmo dezenas de milhares que podem explicar em linguagem fluente como funciona o sistema do comissões do congresso e encontrar uma saída através do pântano quase impenetrável da lei de financiamento de campanhas, mas, por outro lado, são tão frouxos, e tão culturalmente abaixo do padrão quanto o eleitor médio de Trump.

Este é o principal desenvolvimento da história recente dos Estados Unidos. Foi entrevisto com antecedência por muitos dos colegas mais céticos e realistas de Franklin, na Convenção Constitucional — embora talvez não pelo próprio médico, sempre otimista — como o provável futuro de sua previsível república.

[Chilton Williamson, Jr. é velho colaborador de Crisis e ex-editor da revista Chronicles. Ele é o autor de After Tocqueville (ISI, 2012) e do romance Jerusalém, Jerusalém! (Chronicles Press, 2017). Por mais de uma década, atuou como editor literário na National Review.]

https://www.crisismagazine.com/2019/in-the-image-of-slob