Padre Livio

[Padre Livio Fanzaga, na foto acima, é o diretor da Radio Maria, a principal rádio católica da Itália. O texto abaixo é transcrição de parte de seu comentário, levado ao ar na última segunda-feira, 09/09/2019, a respeito de uma declaração do novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, sobre a necessidade de um neo-humanismo].

Vivemos numa época muito particular: é o tempo do grande combate escatológico, profetizado nas Sagradas Escrituras, por tantos santos e místicos, e em tantas aparições marianas. É um período em que não somente a fé é ameaçada, mas a própria sobrevivência da humanidade.

É nesta moldura que devemos interpretar o momento em que vivemos. Fala-se, nesses últimos tempos, de um novo humanismo que quer substituir o único humanismo verdadeiro, digno do homem, que é o cristão. Não é que existam tantos humanismos. Existe um só humanismo, que é o cristão. E nem existem tantas religiões, mas uma só religião verdadeira, que é a cristã. Devemos partir desta certeza absoluta: o único humanismo verdadeiro é aquele que vem de Deus. O novo humanismo, do qual se fala hoje é antitético ao cristianismo. O que é o novo humanismo? É na verdade uma religião: a religião do Homem que se faz Deus e se coloca no lugar de Deus.

E o que é o humanismo cristão? É aquele que responde à pergunta “o que é o homem?” do ponto de vista da fé. E à luz da fé o homem é a imagem de Deus. À luz da fé, o homem tem uma alma imortal e espiritual, e foi criado tendo em vista a encarnação de Cristo. O Catecismo, numa definição magistral, disse que a beleza do homem está no fato de que ele é capaz de Deus.

O que isto significa? Quer dizer que o homem foi criado tendo em vista a encarnação, em vista desse acontecimento que Deus concebeu desde toda a eternidade. Como disse São Paulo, todas as coisas foram criadas pelo Verbo e em vista do Verbo, em vista da Encarnação do Verbo. Este é o homem segundo a luz da fé: o homem criado por Deus, capaz de Deus, predestinado a viver com Ele por toda a eternidade e ser partícipe da divina natureza.

Portanto, não um Deus no lugar de Deus, mas partícipe de Deus pela graça de seu amor, da sua humildade, da sua condescendência e da sua imensa generosidade. Não há outra maneira de conceber o homem, ou avalia-lo, a não ser à luz desta vocação, dessa chamada a unir-se Cristo. Portanto, o evento da Encarnação, do Verbo que se fez carne, do Verbo que se torna homem, une a pessoa humana à pessoa divina do Verbo. No momento da Encarnação todos os homens são orientados a unir-se ao Verbo, segundo o Catecismo. Portanto, o único humanismo é aquele que se realiza pela união com Cristo.

O falso humanismo prefere conceber o homem e o seu destino como um ser que vem da terra e retorna à terra. Como um animal mais desenvolvido, um homem sem Deus, sem alma, sem mandamentos divinos, sem uma lei moral que não seja manipulada de acordo com seus desejos, sem eternidade.

O novo humanismo é o do homem que pretende salvar-se a si mesmo, como diz o Catecismo, de realizar-se a si mesmo, construir um mundo humano sem Deus, livrando-se das maldades que traz em si através da própria força, de realizar uma fraternidade humana como projeto político e projeto social, jamais como um acontecimento de conversão e de graça. Eis o novo humanismo, de matriz anticrística, que quer formar uma família humanitária longe de Deus, como se fosse possível uma fraternidade humana sem a graça de Cristo.

Devemos partir daquelas que são as verdades fundamentais da nossa fé. Antes de tudo, do fato de que existe uma única religião, verdadeira e divina, que é o cristianismo. Esta religião começou quando Deus criou o mundo e o homem, fazendo com o homem um pacto de amor, fazendo dele seu amigo, sustentado por sua graça. Depois, começou a história humana, e o pecado, e veio a queda, o domínio de satanás sobre o mundo.

Mas foi aí que teve início a história da divina misericórdia, a história sagrada com a intervenção de Deus, a história do Deus que salva  o homem e, para salvar o homem, não somente se encarnou, mas atraiu a si o pecado do mundo e o salvou mediante a cruz. O nosso humanismo, portanto, é o humanismo da Encarnação, da cruz, da conversão, da graça, da fraternidade em Cristo Jesus. Não há outro nome, no mundo, que possamos invocar para ser salvos.

Sabemos que a história humana, que começou quando Caim matou Abel, é na verdade um grande açougue; é o triunfo da iniquidade. Quem pode salvar o homem do Mal e do pecado que estão dentro do homem? Disse Jesus que é de dentro do homem que procede o mal: a inimizade, a maldade, o ciúme, a violência. Tudo sai do coração do homem.

Quem pode salvar o homem dessa fraqueza intrínseca que está dentro de si? Da ferocidade do homem, do homem lobo do homem, quem o salvará? Será a ciência, será a Filosofia, será a política, serão as finanças?

É aqui que o cristão deve ter as ideias muito claras: não pode haver salvação para a humanidade senão em Cristo Jesus. Não há humanismo cristão senão através da fé em Cristo, sem adesão e amor a Ele, no seguimento de Cristo. É o que precisamos saber para compreender o que ocorre em nosso tempo, pois o que está acontecendo é uma substituição do humanismo cristão, da religião cristã, da fé cristã por uma pseudo-religião, a falsa religião do homem que se faz Deus.

Esse processo de descristianização, que começou no Renascimento, está se tornando hegemônico. Trata-se já de uma apostasia de massa. Quando se elimina Deus, o criador, e Cristo, o salvador, o que é que resta? O homem. Na Bíblia não há a figura do ateu, mas a do idólatra. Portanto, é fatal que, não havendo um Deus a Quem adorar, o homem adorará a si mesmo. O ídolo por excelência é o próprio homem que adora a si mesmo. O homem tem necessidade de adorar: ou adora a Deus e a Cristo, ou adora a si mesmo, as potências da natureza ou as coisas que ele mesmo produz.

Portanto o homem, em vez de adorar a Deus, adora a Sua criação. Ilude-se de ser feliz aqui, nesta terra, sem nenhuma perspectiva de salvação eterna. Contudo, toda adoração a ídolos é no fundo uma adoração ao demônio. Não há alternativa: ou se adora Deus ou ao demônio. É o que está acontecendo a uma velocidade supersônica, patrocinado por organismos internacionais, como a ONU e a União Europeia, os grupos financeiros e ideológicos mundiais, que elaboram e põem em prática esta religião humanitária do homem que se faz Deus.

http://www.radiomaria.it/archivio.aspx?cat=7edd3e40-1c96-4c88-b559-16d77d76c61d