tolstoi

[Em 1981, o jornalista francês Pierre Desgroupes, da revista Le Point, entrevistou Tânia Albertini Sukotine Tolstói, neta do romancista russo León Tolstói, que havia escrito o prefácio do recém-lançado segundo tomo do Diário íntimo da avó Sofia, esposa de Tolstói. Na entrevista, o dia-a-dia de um revolucionário, precursor do comunismo soviético e da mentalidade New Age].

Eu gostaria inicialmente de perguntar-lhe: é difícil chamar-se Tolstói?

Não realmente difícil. E verdade que meu nome sempre provoca uma grande curiosidade e, para mim, alguns embaraços repetidos. E chato ter que responder sempre a mesma coisa: “Não posso me lembrar de uma pessoa que vi quando tinha quatro ou cinco anos”.

Aí está, portanto, uma pergunta que não posso mais lhe fazer! Entretanto, suponho que a senhora tem na imaginação, se não na memória, uma imagem de seu avô?

Sim, porque vivi bastante com minha mãe, que o adorava e me falava sobre ele. Mas me é difícil separar o que eu mesma vi e o que ouvi. Ainda mais que minha mãe tinha, entre outras paixões, a da fotografia. Ela própria fazia tudo: fotografava, revelava… Imagine que ainda existem mais de quatrocentas fotografias de seu marido tiradas por ela!

Porém, quando ele morreu, a senhora tinha cinco anos. Deve haver, em algum canto de sua memória, uma ou duas imagens, mesmo que fragmentárias, que lhe restam…

Sim, tenho uma imagem.de seus joelhos. Ele gostava muito de mim e me punha com frequência sobre seus joelhos: então eu os revejo! Tenho também uma imagem de suas mãos; ele tinha mãos bastante extraordinárias. Será por isso que eu sempre observo muito as mãos? Eram mãos enormes, muito possantes… Mas talvez eu tenha visto isto apenas nas fotos!

A senhora não tem nenhuma outra lembrança mais anedótica que uma simples imagem? Uma cena onde a senhora reveja os dois?

Sim, existe uma anedota da qual pode ser que eu me recorde realmente… Eu estava montada em seus joelhos e comia um bolo com ele, no mesmo prato. E ele disse (mas isto, evidentemente, contaram-me depois):”Ah, como é agradável comer este bolo com uma linda garotinha!” E acrescentou — isto eram suas ideias “Tolstóianas”: “E depois, isto significa um prato a menos para se lavar!”

Imagino que após sua morte sua presença deve ter sido sentida por muito tempo, naquela extraordinária propriedade que era Iasnaia Poliana? Num parêntese, o que querem dizer, aliás, estas duas palavras?

Querem dizer “o prado claro”. A clareira. Então, para responder à sua pergunta, sua presença era sentida de duas maneiras; primeiro porque tudo, naquela casa, falava dele: as coisas, as pessoas, os empregados. Mas também porque minha avó, depois que ele morreu e que ela se recuperou um pouco deste choque, organizou uma espécie de sobrevida. Ela pôs seu quarto em ordem, arrumou tudo o que havia nos armários; fez uma lista de tudo, e guardou tudo. Porém ficou como um lugar santo onde, exceto os visitantes, que eram conduzidos como que num museu, ninguém tinha o direito de entrar sozinho.

Para a garotinha que a senhora era, este quarto devia ser muito misterioso. A senhora não tinha medo de entrar nele?

Sim, mas eu ia atrás de minha avó, que me contava tudo, me falava de todos os objetos. Lembro-me de que aí se viam, pendurados num cabide, sua capa de chuva e seu chapéu. Lembro-me também de uma blusa e de uma calça velha…

Sua avó lhe dizia alguma coisa precisa sobre ele?

Sim, pedia-lhe perdão e, com bastante frequência, chorava… Ela mudara completamente depois de sua morte.

O que é que a senhora depreendia daquilo? A dificuldade e a turbulência das relações deles?

Como você sabe, eu conhecia muito pouca coisa sobre as relações de Tolstói com sua mulher, porque eu não morava lá, e minha mãe não me falava sobre isto. Eu as descobri muito mais tarde, um pouco antes da morte de minha avó, a qual, então, me contava muitas coisas de sua vida, de seu noivado, de seu primeiro encontro, daquilo que ele dizia. E, como talvez ela exagerasse um pouco, minha mãe punha tudo no seu devido lugar. E depois, houve a guerra e a revolução, e fomos viver em Iasnaia Poliana, contra a nossa vontade, da maneira que, sem dúvida, gostaria que vivêssemos, com uma vida mais simples que no tempo em que minha avó reinava aí sobre um exército de empregados.

E anteriormente, que ideia a senhora fazia dele?

Eu. sabia que se tratava de um “grande homem”, com grandes mãos!

O que queria dizer um “grande homem”? Com que idade a senhora o leu, por exemplo?

Ah, acho que comecei minha primeira leitura de Tolstói pelos quatro livros que ele escrevera para crianças. Aos três anos, eles me foram lidos em voz alta. O primeiro é a história de um cachorrinho cuja sorte me fazia chorar toda vez que a liam para mim. E eu ficava toda contente por chorar! Aquilo me tocava tanto! Li seus outros livros mais tarde, não me lembro quando. Parece-me que lá, eu li Guerra e Paz

E quando a senhora soube da existência desses famosos diários íntimos que sua mulher e ele tinham, cada um o seu, e que hoje provocam tanta curiosidade apaixonada?

Em 1928: nós, minha mãe e eu, já saíramos da Rússia quando foram traduzidos em francês os primeiros trechos, muito expurgados, que acabavam de ser publicados na URSS. Lembro-me que minha mãe ficou muito preocupada com isso. Ela dizia: “Meu Deus, será que é preciso trazer assim à luz toda sua vida íntima?”

A existência e a natureza desses diários chocaram a senhora?

Não realmente, porque, na família, era uma espécie de tradição cada um ter seu diário. Minha mãe o fazia, meu pai o fazia, minhas primas o faziam, aquilo estava na ordem das coisas. Eu também, quando adolescente, tive meu diário! E você deve saber que todos estes diários, aliás, estão guardados no notável Museu Tolstói de Moscou. Eles podem ser consultados, até mesmo o meu! Ora, na época, eu era muito jovem, muito tola. Confiava a meu diário histórias de amor um pouco ingénuas, com beijos sob os lilases e outras coisas no género. Então, eu intervim: “Ouçam, eu lhes disse, vocês não podem guardar isto para a posteridade!” Mas responderam-me: “Isto é história. Tudo o que diz respeito a Tolstói é história”!

Porém, para voltarmos aos diários de Tolstói e de Sofia, o mais espantoso não é o fato de que eles os escrevessem, mas de que eles os comunicassem mutuamente!

Ah, sim! Quando eu soube disso, mais tarde, foi o que me chocou. Tentei compreender e, ao relê-los, eu me disse que, para minha avó, aquilo devia ser uma espécie de psicanálise. Ela devia ter necessidade de falar com alguém; porque, na verdade, não creio que ele os lesse. Em todo caso, não nos últimos anos de sua vida…

Mas ficou provado que eles os liam; pelo menos por algum tempo.

Sim, creio que este foi um erro terrível do meu avô, no início de seu casamento. Ele dera a ler a sua jovem esposa seu próprio diário de homem jovem, antes de seu casamento. Então, Sofia começou a fazer o seu e colocava nele, evidentemente, o pior de sua vida. Isto é, muitas vezes, bem atroz! Mas ela seria sincera?

Evidentemente, esta é a questão. Porém uma coisa me tocou naquilo que a senhora escreveu e naquilo que escreveu sua mãe. É que, fora dessas intimidades reveladas, e muitas vezes amargas, havia em lasnaia Poliana uma espécie de indiscreto jogo coletivo, muitas vezes bastante alegre, que tinha algo de psicodrama e do jogo de sociedade, mas que, ainda assim, era bastante ambíguo…

Ah, sim! A gente vivia numa casa de vidro.

“A gente”, quem?

As pessoas da família e todos aqueles, inúmeros, que passavam por lá e se instalavam por dias, semanas, meses… Como você sabe, na Rússia, convive-se com muita facilidade com pessoas que não se conhecia na véspera! Lembro-me de um senhor francês que fizera a viagem para encontrar Tolstói e que ficou por vários meses!

E então, como era esse jogo?

Pois bem, existia aquela caixa de cartas especial onde todos depositavam bilhetes. Eles podiam conter qualquer coisa — desenhos, poesias, coisas irónicas, perguntas. E tudo era anónimo.

E o que é que se fazia com isso?

Então, uma vez por semana, lia-se em voz alta… Esvaziava-se a caixa, reuniam-se em torno de uma grande mesa e lia-se tudo aquilo em voz alta…

O que diziam esses bilhetes?

Qualquer coisa! Muitas vezes aquilo era insignificante. Por exemplo, zombava-se das adolescentes porque elas tinham um flerte. Ou então formulava-se julgamentos ou suspeitas mais graves, e cada um respondia. O jogo também consistia em saber quem escrevera o bilhete.

Muitas vezes era o próprio Tolstói?

Sim. Pelo que me dizia minha mãe, que me contou tudo isto, ele escrevia muito para a caixa de cartas para zombar de sua mulher. Mas aquilo era muito gentil…

Isso constituía um antídoto para os diários íntimos?

Sim, talvez. Foram conservados alguns daqueles bilhetes. Por exemplo, num deles, ele perguntava: “Quem gostaria de ter cento e cinquenta filhos que não crescessem jamais?”

Também se leem neles coisas mais rudes. Por exemplo: “Lista dos doentes psiquiátricos no hospital de lasnaia. Sofia encontra-se na ala dos doentes mansos. Sinais de sua loucura: resolver problemas que não foram formulados; responder a perguntas que ninguém fez; satisfazer desejos não expressos. Prescrição: isolá-la das pessoas mundanas e superficiais!”

Sei que, na primeira parte de seu casamento, tudo transcorreu normalmente. Ela era a mulher de um grande escritor, ela recopiava suas obras e, todo ano, punha um filho no mundo. A tragédia começou quando ele se interessou pelo problema social, quando começou a renegar a Igreja Ortodoxa e a interpretar ele próprio os Evangelhos. Aí ela não o seguiu. Enquanto ele se rodeava de seus discípulos, como eram chamados, e da estima deles, ela era rodeada por seus filhos, os meninos, principalmente, que não paravam de arrancar-lhe dinheiro. Eles não viviam mais no mesmo mundo.

Quem eram essas pessoas que rodeavam Tolstói e que sua avó chamava, se não me engano, “os obscuros”?

“Os obscuros” podiam ser qualquer um: um príncipe que abandonava tudo o que possuía para viver conforme as ideias de Tolstói; podia ser também um sapateiro, um camponês, um vagabundo; você deve saber que, na Rússia, naquela época, havia muitos… “vagabundos” não é o termo, dizia-se “peregrinos”.

Em que consistia viver conforme Tolstói?

Pois bem, eles viviam da maneira que queriam: não mandavam mais seus filhos à igreja, nem mesmo à escola; eles próprios os ensinavam. Possuíam vacas, davam leite a seus filhos, criavam gatos.

A senhora teve vontade, quando entendeu isto, de viver a senhora mesma “conforme Tolstói”?

Não, pois eu ainda não tinha nascido quando isto começou. E, mais tarde, tudo aconteceu tão rapidamente… houve a guerra, a revolução. Vivemos então como nos impuseram viver, com privações, as necessidades do dia-a-dia… Será que, involuntariamente, vivemos então “conforme Tolstói”?

Parece que os “obscuros” não gostavam de sua avó?

Detestavam-na.

Por quê?

Porque minha avó representava tudo aquilo que eles reprovavam. Ela era sempre a condessa Tolstói, que cuidava de seu marido de uma forma extraordinária, mas que tinha um empregado de luvas brancas para servir à mesa.

Ela própria nunca fora tentada a tornar-se uma discípula de seu marido?

Não, não do Tolstói vivo. Depois de sua morte, não há dúvida de que foi tentada. Repetia certas coisas que ele lhe dizia e que, antigamente, ela não queria escutar. Por exemplo, passou a ser vegetariana. Porém, enquanto ele vivia, era muito difícil, para ela, mudar. Ela era o que ele fizera dela ao esposá-la, e que ela não quisera renegar. Talvez ele não lhe tivesse explicado suficientemente porque ele próprio experimentara essa necessidade de mudar.

Por que a senhora acha que ele não lhe explicava? Será que achava que ela não conseguiria compreender?

Acho que era a imagem que ela tinha dele que ela não queria. Ela devia temer um pouco destruí-lo, ao fazê-lo. Para ela, um homem que possuía seu gênio não tinha o direito de perder seu tempo procurando a razão da vida… Devia haver um grande desentendimento. Dos dois lados.

Alguns dos livros de Tolstói a feriram, como A Sonata a Kreutzer?

Ah, sim, porque se tratava de uma acusação ao casamento e da própria expressão da relação física entre marido e mulher. Ela compreendeu que era, no fundo, sua própria história. Porém a coisa realmente mais extraordinária que ela fez, apesar disso, quando o livro foi proibido pela censura, é que foi avistar-se pessoalmente com o czar para solicitar-lhe que ele fosse publicado, que se suspendesse a proibição. De sua parte, tratava-se de um ato heroico, e Tolstói não o apreciou devidamente. No fundo, creio que ele teria ficado muito mais feliz se o livro tivesse continuado proibido!

A propósito disto, quando diz que a primeira parte de sua vida conjugai fora normal, a senhora deixa escapar a repulsa que o ato sexual em si inspirava a Sofia.

Sim, é verdade, e algumas passagens de seu diário atestam isto. Mas acho que é preciso lê-las com prudência. Tolstói era um homem de paixões violentas; ele estava habituado, no universo que conhecera antes de seu casamento, a possuir mulheres casadas, camponesas, e então é provável que ele se tenha aproximado desastradamente dela no início. E chocou-a pela intensidade de suas relações físicas com ela… Porém, mais tarde, creio que ele a despertou para o amor e ela falava disso de uma maneira mais normal.

No entanto, foi emitida a hipótese de que ela fosse histérica.

Sim, creio que hoje dir-se-ia que ela era histérica. Porém é preciso compreender o que foi sua doença. Ela sempre ficava grávida, as relações sexuais cotidianas… as histórias domésticas, tudo isso. Além disso, por causa desse diário, ou então, pelo contrário, ela se observava muito, e tornou-se muito egocêntrica. E depois, em certos momentos, ela teve depressões nervosas que eram tratadas com remédios domésticos, valeriana e outras coisas no gênero. Acho que hoje ela teria sido colocada numa casa de saúde e teria sido convenientemente tratada…

E o que dizia Tolstói desta doença de sua mulher?

Preocupava-se muito com ela. Porém seus discípulos, principalmente Tchecov, que representou um papel muito nefasto, pondo-se a persuadi-lo de que tudo aquilo não era verdade, que ela era apenas uma mulher malvada que só queria atormentá-lo, E, num determinado momento, Tchecov lhe disse; “Se ela fosse minha mulher, eu a teria jogado escada abaixo.” E ele dizia à própria Sofia: “Você não vê que, a cada dia de sua vida, está matando seu marido?” Então, ela começou a detestá-lo com um ódio exagerado e a entregar-se a toda espécie de ações desordenadas: ela não dormia, não comia, jogava-se no lago, etc.

Ela não foi também atrozmente ciumenta?

Sim, ela teve ciúmes principalmente de uma de suas irmãs, Tolstói a mandara buscar em Moscou porque ele a observava muito e tomara-a como modelo de Natacha em Guerra e Paz. Ele lhe disse um dia, rindo: “Você acha que eu a hospedo e lhe dou de comer porque é você, mas lhe dou de comer porque a tomei por modelo!”

“E para melhor observá-la, minha filha!…”

Sim… Mas como ela era muito graciosa, muito encantadora, Tolstói gostava muito dela. Saía com ela, levava-a a bailes, enquanto minha avó, que estava sempre esperando um filho, ficava sozinha em Iasnaia Poliana.

A senhora acha que seu avô enganou sua mulher?

Não, é uma coisa extraordinária que este homem, que amou tantas mulheres, nunca tenha enganado a sua!

Quem pode garantir que um homem não enganou sua mulher?

Sabe-se de tudo. Ouça, quarenta e oito anos de vida em comum não deixam nada na sombra. Se ele a enganava, fazia-o de uma maneira extraordinária; ele deveria ter sido quase um bruxo, porque sabia-se tudo o que ele fazia! Sabia-se o que ele comi, sabia-se a que hora se levantava, sabia-se até o que ele sonhava.

E a senhora tem ideia da razão pela qual ele, uma bela manhã, partiu e foi morrer noutro lugar?

Este é o mistério que ninguém conseguiu esclarecer… Eu faço ideia de um homem velho, fatigado, que não aguentava mais as intrigas familiares, sua mulher, sua filha (não minha mãe, mas minha tia). E depois, você sabe, os russos vão, com bastante frequência, como os elefantes, morrer longe. Ele pensou muito na morte: nesta época, seu diário começa muitas vezes por: “Ainda estou vivo”. Ele se acreditava já próximo do túmulo. Mas pode-se ter uma verdadeira ideia da razão de sua partida? Você deve saber que, antes de morrer naquela pequena estação desconhecida de Astapovo, ele parará primeiramente junto a seu irmão, retirado num monastério. Aí, ele disse às pessoas que o acompanhavam: “Por que não podemos ficar mais uma noite?”. Mas eles tinham tanto medo de que sua mulher o encontrasse, que o obrigaram a partir. Ele partiu, no fundo, sem rumo algum, partiu “para o sul”. Acho que ele pensava em deter-se num país como a Bulgária…

O que é que aconteceu depois, para a senhora? A senhora foi para Iasnaia Poliana?

Sim. Meu pai morreu em 1914. Eu era filha única: minha mãe quis reaproximar-se de sua própria mãe. Ora, até sua morte, Sofia viveu em Iasnaia Poliana. Havia querelas na família a respeito da casa. As moças não queriam que minha avó a vendesse, mas os rapazes, como sempre, estavam sem dinheiro. Tinham mesmo encontrado um americano para comprá-la.

Talvez ele a desmontasse e a levasse para o Texas!

Sim! Mas minha avó queria que ela ficasse “para o povo russo” e foi isto o que aconteceu. Na revolução, ela foi nacionalizada, mas estávamos autorizados a viver lá.

Como era a vida lá?

Muito dura. Conforme os dias, naquele momento, havia pilhagens em todas as casas; camponeses chegavam com foices, enxadas, coisas assim, e quebravam tudo, levavam tudo; eles não matavam, mas mesmo assim tínhamos um pouco de medo em Iasnaia Poliana. Então os camponeses, os antigos servos de meu avô, disseram: “Jamais tocaremos na casa de Tolstói” Mas tínhamos medo dos vizinhos. Minha mãe, que tinha sido nomeada diretora da Casa de Tolstói, mandou então um telegrama a Kerensky para que ele a protegesse. Vimos então chegarem trezentos soldados que invadiram toda a vila, um exército de cossacos que comeram tudo, os alimentos estocados, as maçãs, tudo. Ao final de algum tempo, só tínhamos uma ideia, que era fazê-los partir. E eles se foram. Ficamos sem soldados mas sem temor, porque operários da fábrica vizinha vinham, toda noite, como sentinelas gratuitas. Mas passara-se algum tempo antes disso, durante o qual lembro muito bem que, por duas ou três noites em seguida, ficamos acordados, com os cavalos preparados para partirmos, cada um tendo à mão o que tinha de mais precioso. Via-se o clarão dos incêndios nos arredores… Em seguida, vivemos como pudemos. Comíamos o que se conseguia, algumas batatas. Que arrancávamos da terra. Roubávamos trigo, madeira, ou então juntávamos galhos caídos para nos aquecermos.

A senhora guarda a lembrança de que vocês eram tristes?

Tristes? Não. Passávamos noites inteiras em volta da grande mesa da sala…

Aquela do jogo dos bilhetes?

Sim. Havia lá as pessoas mais diferentes. Havia minha avó, minha mãe, minha tia-avó, o doutor Tolstói, um secretário de Tolstói que ficara e eu. Éramos seis e cantávamos. Não havia o que cantar, mas cantávamos e contávamos histórias, inventávamos. E o inverno passou.

Em que ano morreu sua avó?

Em 1919.

E em seguida vocês deixaram Iasnaia Poliana?

Não. Vivemos lá ainda por um ano, creio, e depois fomos para Moscou. A casa moscovita de Tolstói passara a ser um museu, mas sempre havia um quartinho para nós. E, em 1925, minha mãe e eu saímos da Rússia.

Vocês foram obrigadas a partir? O que é que as obrigou a partir?

(Rindo) Oh, não! Minha mãe me fez partir. Eu nunca tive vontade alguma de fazer isso. Eu era um pouco louca nessa idade, ignorante, me apaixonara por um homem casado! Então minha mãe disse: “Agora vamos embora!” Eu chorava todas as lágrimas dos meus olhos. Fomos, para começar, para Praga, onde moramos na casa do presidente da República, que era um grande amigo de Tolstói, Masaryk. Depois viemos dc Tolstói, Masaryk. Depois viemos para Paris, e, aí, comecei minha vida de emigrada, isto é, tive que trabalhar! Comecei a fazer flores artificiais, e depois estenodatilografia, em francês e em inglês (porque o inglês é minha segunda, se não minha primeira língua). Pitoëff! George Pitoëff deu-me pequenos papéis em César e Cleópatra e, em tournée pela Itália, conheci meu marido: eis a sorte, o destino.

A senhora voltou muitas vezes a Iasnaia?

Por três vezes.

Ainda recentemente?

Sim, em 1978.

Ela mudou?

Não, é extraordinário… Plantam as mesmas flores, fazem as mesmas platibandas, e, no quarto de minha avó, há sempre as flores de que ela mais gostava! Não há nada mudado. E, em Moscou, é a mesma coisa. Como eu lhe disse, trata-se de um museu onde tudo é conservado, se é que posso dizer, religiosamente. Existem lá treze variantes de Guerra e Paz, toda a correspondência de Tolstói com sua mulher; é um modelo no género.

Como é que a senhora explica este culto de Tolstói por marxistas?

Ele não era marxista, é claro, mas era anticzarista, antimonarquista; contra a Igreja ortodoxa, pelos pobres e contra os ricos. Faça uma mistura com tudo isto e você tirará daí um Tosltoi à maneira deles. Os russos adoram-no! A um ponto que, quando eu chego ao portão de desembarque, em Moscou, há sempre quatro ou cinco pessoas me esperando com um buque de flores.

Trata-se de uma situação excepcional, não?

Ah, sim!

Quero dizer: eles não têm as mesmas atenções em relação a Dostoievski.

Não, porque Dostoievski, para eles, era excessivamente místico. Mas eles reverenciam Puchkine e, sem dúvida, Tchecov, sei lá. Eles conservaram também, tal e qual, a propriedade de Turgueniev.

A senhora acha que seu avô teria ficado feliz com este favor?

Não o creio. Não há dúvidas de ele teria escrito contra eles. Mas quem pode garantir que aquilo que não foi seria isto ou aquilo? Eu não me arriscaria.

(Em: “Suplemento Cultura” do jornal O Estado de São Paulo, nº 53, 14/06/1981)