Missa com Cardeal Burke

Quando abrimos o 1º volume da História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux, depois de dois capítulos iniciais sobre a literatura antiga — a grega e a latina —, em seguida, no 3º capítulo, o autor vai tratar da literatura cristã em língua grega (os “padres apostólicos” e a “patrística”) surgida nos primeiros séculos depois de Cristo, mas surpreso ficamos quando percebemos que a obra literária cristã a que o historiador mais espaço dedica é a Liturgia romana, ou seja, a velha Missa em língua latina.

Depois de ressaltar os seus aspectos de obra-prima da linguagem, afirma que, contrariamente ao que é usual na história da literatura, seu verdadeiro autor não é uma determinada pessoa, mas a Igreja, não sendo possível determinar com exatidão o lugar e a data da redação de cada prece que a compõe (várias delas provenientes de versículos bíblicos). Aqui poderíamos divergir um pouco de Carpeaux: a Missa, antes de tudo, é obra de uma pessoa, a pessoa divina de Jesus, que a criou na ceia com os apóstolos antes de sua crucificação e morte. Ali já estava o coração da Missa. O que a Igreja fez, em seguida, foi dar um belo corpo àquele coração, àquela celebração eucarística original.

Elaborada entre os séculos IV e VI (de trezentos a quinhentos anos depois de Cristo), a Missa é uma obra literária diferente de tudo o que produziu a literatura pagã anterior. As modificações posteriores, a partir da Idade Média, foram mínimas, sem importância decisiva. Embora relacionada intimamente com a doutrina católica e com determinada cerimônia religiosa, pode ser lida ou apreciada de forma independente, como uma espécie de poema — um poema sacro, com certas características de drama (pelos diálogos que contém) e até de epopeia (ao longo do ano, o conjunto das Missas narra a própria história da salvação).

A estrutura da Missa se compõe de uma parte fixa e de elementos móveis. A parte fixa, invariável em todas as celebrações, chamada “Ordinário da Missa”, inclui uma Preparação (que, entre outras orações menores, apresenta parte do Salmo 42 e o Confiteor, confissão comunitária em que toda a assembleia reconhece a sua condição pecadora); a primeira parte, chamada de Ante-Missa (com as orações do Kyrie, do Glória, a leitura da epístola e do Evangelho, o Credo); a segunda parte, o Sacrifício (com as orações fixas do “ofertório”, do “Cânon”, onde está o centro da Missa e se dá a transubstanciação, e enfim a “comunhão”); e o fim da Missa (bênção do celebrante e leitura do último Evangelho, sempre os 14 versículos iniciais do Evangelho de São João).

Essa parte fixa e invariável inclui, no entanto, algumas variações: as leituras das epístolas e do Evangelho mudam a cada Missa, conforme os domingos, as fases do calendário litúrgico, os dias dos santos cujo martírio ou festa se comemoram.

Segundo Otto Maria Carpeaux, a clareza do texto da Missa latina se deve à influência do espírito romano, que era conciso por natureza, ao contrário da exuberância das liturgias orientais. É bom lembrar que a Igreja Católica não possui somente a “liturgia romana”; embora universal, zelosa da sua unidade litúrgica, não pôde evitar a presença de certas particularidades no texto e no rito da Missa, de acordo com as regiões em que se desenvolveram, sobretudo no Oriente. São diferenças que não comprometem a essência da celebração eucarística, que é a celebração do Santo Sacrifício de Cristo, a sua misteriosa presença real nas espécies do pão e do vinho. A Missa romana, observa Carpeaux, é um “compromisso entre as liturgias orientais e ocidentais, e um compromisso extraordinariamente feliz.”

O católico só ganha quando aprende a admirar o aspecto literário da Missa, a sua beleza verbal, que jamais se separa de seu caráter sagrado e sobrenatural. É essa união que faz dela “o que de mais belo existe do lado de cá do Paraíso”, nas palavras do teólogo inglês Frederick William Faber. Em geral, quase perdemos de vista os atos que se repetem regularmente e se transformam em hábito de todo dia. O fato é que estamos tão acostumados com o texto da Missa — que a maioria dos padres repete quase mecanicamente —, que não percebemos a beleza e a grandiosidade literária que nela se oculta.

Não se pode esquecer, também, que a nova Missa, em vigor após o Concílio Vaticano II, não só traduziu o velho texto latino para as nossas línguas nacionais, o que até seria compreensível, como reduziu e até alterou algumas orações da parte fixa desse texto de 1500 anos, visando facilitar a sua assimilação pelo homem moderno, o que já é mais difícil de compreender (junto com outras modificações radicais, como a permanente posição do celebrante voltado para a assembleia e a questionável abertura para a música pop nos cantos litúrgicos).