historia-das-invencoes-2[O escritor e engenheiro eletrônico Gustavo Corção, com refinado humor, usando o gênero literário do diálogo, questiona em 1939 o evolucionismo darwinista presente no livro infantil História das invenções, publicado por Monteiro Lobato em 1935]

Quando eu cheguei, Tomás e o Dr. Morel discutiam livros, problemas pedagógicos e reformas de ensino. Sentei-me comodamente numa poltrona velha, na penumbra, disposto a acompanhar mais uma pugna entre a filosofia perene e a idéia nova; entre o eterno e o moderno.

O Dr. Morel é um homem do século: usa um vago deísmo burguês para certas eventualidades da vida, como por exemplo para uma fórmula de consolo em missa de sétimo dia. Mas em definitivo o que lhe interessa é o último achado científico, a mais recente comunicação das academias.

A data no frontispício dum livro é o seu primeiro critério de julgamento. Por isso o Tomás já disse dele, com uma perfídia suave, que o Tempo é o seu maior amigo e por isso mesmo o seu maior inimigo e que ele, Morel, não tem ideias, mas usa ideias como as senhoras usam chapéus.

Em compensação o Dr. Morel, num dia de irritação, deixou escapar que o Tomás era um papa-hóstias.

Parece que antes de minha chegada tinha havido entre os dois certas divergências sobre o sentido da palavra progresso, especialmente a respeito de livros para crianças, porque o Dr. Morel retomava com convicção:

— Não! Nessa matéria só se pode negar para fazer paradoxo, para ser original. Houve progresso considerável entre nós. Houve. No nosso tempo, lembram-se?, tínhamos o Júlio Verne e o Robinson Crusoé, e isso mesmo editado em Portugal. Agora vejam vocês os milhares de livros de viagens, de crônicas, de história, adaptados, traduzidos…

— E os romances policiais americanos…

— Concordo! Ha também os romances policiais. Evidentemente é preciso separar. Devo mesmo dizer que a triagem é necessidade consequente de boa colheita, é o próprio corolário da abundância! Você não quererá evidentemente propor um quietismo universal com o medo de errar. É’ preciso produzir muito, trabalhar muito, errar muito para acertar um pouco. Aqui está por exemplo na tua estante um bom livro. Está de pernas para o ar, como aliás diversos outros. Interessantíssimo. O senhor tem filhos? Não? O meu já leu essa História das Invenções.

O Dr. Morel ia repô-lo na estante quando Tomás intercedeu polidamente:

— Assim não, Morel, põe de pernas para o ar, faça-me o favor, de pernas para o ar…

— Ora essa… Por quê?

— É’ mais adequado.

O Dr. Morel tomou o livro outra vez, desconfiado, mas logo voltou ao seu ponto de vista:

— E depois, otimamente impresso, bem desenhado e sobretudo com um estilo ameno, propriamente infantil, que denota no tradutor um profundo conhecimento das mais recentes doutrinas sobre a criança. . .

— E uma profunda ignorância das doutrinas antigas…

— Ora as doutrinas antigas… Não me consta nada a esse respeito. A psicologia infantil, a pedagogia, as doutrinas sobre o sexo e sobre os brinquedos datam de poucos anos. Pode-se dizer que vivemos no século da educação, que os nossos tempos descobriram a criança, que ela impera, que ela recebe todas as homenagens, é depositária de toda a confiança de uma geração fatigada, cética em tudo, mas crente ainda no papel das novas gerações.   A criança hoje tem tudo…

— Só lhe negam o direito de nascer, como já observou o Amoroso Lima.

O Dr. Morel levantou-se bruscamente; ia montar o dado de sua predileção, a eugenia, o neomaltusianismo, o exame pré-nupcial, e todo o “tremblement”, quando a Isaura surgiu como uma aparição pela porta dos fundos, com a bandeja do café. Aproximou-se fantomaticamente, distribuiu as xícaras e depois desvaneceu-se na penumbra duma porta levando a bandeja e o segredo fatal de sua existência.

— Que majestade! — balbuciei… — Vocês já repararam a hierática imponência de certas criadas pretas? Outro dia vi no cinema uma rainha, da Holanda ou da Inglaterra, não me lembro bem, com passos e gestos que qualquer datilografa tem. Essa Isaura faz-me pensar nos Faraós!

— Mais açúcar, Morel?

Tomás tinha tomado o livro, a história das invenções, e aproveitando um silêncio começou a discursar, como é seu costume, um pouco negligentemente a princípio, mais para si mesmo, mais pelo gosto de discorrer do que para convencer:

— A história das invenções! Por que terá o autor escrito esse livro nesse estilo, e por que terá o adaptador corrido com alacridade a vertê-lo para as nossas crianças? Mistério! Será o gosto de servir, será mais um caso de boa intenção, ou será antes o desejo inconsciente de convencer, de arrolar companheiros? Ha contradição: quem crê fortemente no moderno, deveria justamente se abster de doutrinar. Poderiam fazer um livro muito objetivo e muito agradável. Ao contrário, ao longo de todo o livro, há uma imposição férrea de doutrina que só chocalha pela sua própria incoerência. Ao contrário, o autor e seu ilustre tradutor dogmatizam fatigantemente durante trezentas páginas, para demonstrar que não se deve dogmatizar, caindo mais uma vez no dilema proposto por Aristóteles. Se eu fosse educador moderno, crente no progresso necessário, entusiasta das famosas bases biológicas da educação — tiradas algumas de experiências feitas com cachorros — ensinaria tudo amavelmente, sem doutrinar.

— Ora essa! — atalhou o Dr. Morel. — O livro baseia-se pura e simplesmente na ciência, nos fatos, no testemunho irrecusável dos Institutos. Não vejo melhor critério do que esse para escrever livros instrutivos!

— Justamente nesse ponto nós discordamos, Morel: os institutos comunicam ao mundo os seus achados, que têm sempre algum interesse, mas precisamente, cansados de muitas decepções, hoje os institutos se abstêm de filosofar. Você que tanto se preocupa com o contemporâneo deve saber que a atitude científica moderna é nesse ponto diferente do que era no século XIX. Aquele foi o século do cientismo romântico, das grandes frases, das grandes leis, dos grandes princípios. Nesse ponto o livro do Lobato está atrasado de setenta anos pelo menos. Ele sustenta ao longo de centenas de páginas um darwinismo obsoleto, aliás um pouco confuso, misturado com um lamarckismo ainda mais confuso, temperado aqui e acolá com um pouco de Nietzsche, de William James, e de Larousse. Meras presunções paleontológicas, entusiasmos de ciência nascente, histeria de especialistas, hoje aliás contrariadas, desmentidas, alteradas, aí estão no livro com a importância de dogmas. A história das invenções deveria ser a história do esforço e da paciência. Ao contrário, aqui ela é apontada, um pouco confusamente, como uma expansão do natural, como um processo evolutivo: tudo sai das mãos e dos pés. Mas o que o autor não conseguiu tirar dos pés é o próprio fato do homem ser perseguido sempre pela insatisfação, desejar sempre o que ainda não existe. Inventar, afinal, é querer o que ainda não é. Para sair dessa dificuldade o autor invoca aqui e ali o acaso… Mas em cada página ele sente e enuncia o drama do homem, a tragédia do perseguido, e por uma estranha contradição tenta exprimir isso em termos do evolucionismo. A história em poucas palavras é essa: em toda a criação, ou em toda a natureza, se você prefere, há um ser estranho que difere dos outros porque construiu a sua história descontente, irritado ou arrependido, zangado com o próprio corpo; construiu-a com o recurso exterior, com o utensílio, com a arma. O próprio autor confessa que o tal antropoide parece nunca ter apreciado excessivamente o próprio corpo. Ao contrário, ele conta a história da crítica do corpo. Mas a crítica, o julgamento, é feito pelo próprio corpo. A própria mão, que sobrou, que é tão decantada, queixa-se ao resto do corpo: eu sou fraca, desajeitada! O corpo então, ouvindo aquela queixa, reúne-se no anfiteatro cerebral e lá as células decidem: tome o porrete!

— Você está fazendo blagues — disse severamente o Dr. Morel — e cada uma dessas blagues pode ser virada pelo avesso. Eu poderia dizer que a mão tomou o cajado exatamente porque ela sobrou e se sentiu hábil para isso.

— E’ possível. Aliás toda a história natural se embaraça em problemas de “preseance”. Você pode escolher como preferir: a toupeira é cega porque nasceu em baixo da terra, ou ela vive em baixo da terra porque é cega? Mas vamos folhear um pouco esse livro… Passemos pela introdução rapidamente. Gosto muito século XIX, muito burguês; o homem que extasia diante da própria obra. É o orgulho renascencial que como todo orgulho vai produzir logo adiante a mais incrível humilhação. Ele vai descobrir no capítulo seguinte que o homem é um bicho. Aqui, logo na primeira página, o autor sustenta a “certeza” (que aliás, magnanimamente, eu tomo no sentido brando de máxima probabilidade) da existência da Vida nos outros astros. Estamos no tempo de Giordano Bruno…

— Que foi incinerado pelos padres?…

— É exato. Mas hoje a astrofísica não autoriza mais essas afirmações de almanaque. Ao contrário do que se pensava há cem anos, quando a cosmogonia na moda apresentava os planetas como um resultado de evolução, necessário, natural, razoável, hoje a ciência, os tais institutos, estão perplexos diante dessa monstruosidade que se chama um sistema planetário. Hoje, ao contrário, o planeta aparece como uma espécie de sorte grande duma infinita improbabilidade. Vocês sabem tão bem quanto eu que as cosmogonias de Laplace e Faye hoje não servem para nada. Ah! cá está o aparecimento do homem no planeta: “Apareceu. Não de súbito, do dia para a noite, caído das nuvens. Foi aparecendo aos poucos, gastando nisso milhares de anos”. Veja bem: aos poucos! Essa é a fórmula mágica que resolve as dificuldades. Para o autor, “aparecer aos poucos” é mais científico do que “aparecer”. Porque parece que para ele o tempo-duração é um critério; parece para ele que essa restrição escalar modifica o aspecto da questão e afasta definitivamente, cientificamente, a ideia criacionista. E não é só isso; ele considera também o tempo como capaz de criar à custa de sua própria essência; o tempo explica tudo e faz tudo.

Passemos: “Apareceu conjuntamente com os macacos… Era um deles. Peludo, andando de quatro, feiíssimo”. Agora, durante longas páginas ele vai ser “O peludo”. Realmente eu não sei qual o gosto perverso em ter escolhido esse característico do pelo, exatamente o único que a paleontologia não pode testemunhar. Ah! aqui está na página 16 a grande fórmula da “sobrevivência do mais apto”. Estamos em cheio no Darwin, não no naturalista modesto e observador, mas no discípulo embriagado de teoria. Nesse ponto devo dizer que a biologia hoje não considera aquela fórmula com esse valor de grande lei. A biologia tem sofrido reveses, tem defrontado surpresas. A genética, com poucos anos, trouxe uma contribuição inesperada e extremamente inquietante. Ela difere, nos processos, da paleontologia como a química difere da astronomia. Ela é viva e ágil. Experimenta num ritmo febril em vez de escavar e contemplar a pegada dos séculos. A filogênese, tão bem arrumada nos museus com os fósseis dos equídeos, perturbou-se, tornou-se duvidosa, com o estudo duma pequenina mosca. A biologia toda oscila entre dois depoimentos opostos, o da paleontologia e o dos cromossomos nas drosófilas.

— Espere, atalhou o Dr. Morel, você não vai tirar das mutações uma convicção criacionista como o abade Moreux? Eu protesto…

— Perdão. Pode estar descansado que não vou fazer o mesmo que o autor deste livro, pretendendo que a física possa julgar a metafísica; a convicção criacionista eu a tenho de outras fontes maiores hierarquicamente maiores em relação ao cavalo e à mosca. Aliás, se você fala em abade devo lembrar que o abade Mendel também não esperou o resultado de suas experiências com flores, num jardim de convento, creio eu, para crer em Deus. Só quero aqui mostrar que naquele próprio terreno científico, em que o autor se compraz, ele está singularmente atrasado.   Usa anquinhas e anda de liteira…

— Eu julgo, não sendo isso a minha especialidade, nem a sua, que essa questão de transformação ou mutação, é um debate quanto ao processo, mas de qualquer modo o encadeamento, a tal filogênese em suma, fica de pé!

— Não é tanto assim. Em primeiro lugar deixa-me responder àquela observação sua sobre a especialidade. Realmente esse assunto está sensivelmente fora de minha vitrine. Mas é justamente por isso que podemos conversar a respeito, filosofando ou criticando doutrinas. O especialista não pode: está preso no próprio detalhe de sua especialidade e perdeu o contato com as coisas reais. Uma pessoa de certa cultura pode perfeitamente saber, nos diferentes setores, como estão armados os principais problemas, sem precisar descer ao detalhe. Não se trata de vulgarização. A vulgarização é o inimigo da verdadeira cultura; não podendo abraçar o assunto nas suas grandes linhas, proporciona detalhes, pequenos fatos, dados miúdos, e tudo isso em geral em tom de dogma. Quanto à sua observação, sustentando a evolução, qualquer que seja o processo, o que aliás é sustentado por alguns naturalistas, posso responder lendo um pequeno trecho de Paul Lemoine: “Il convient de ne pas dissimuler combien sont graves, au point de vue philosophique, les deux notions de phylums remontant indéfiniment dans le passé et le polyphyletisme de groupes à première vue homogènes; elles apparaissent à qui veut réfléchir, como très opposées à la notion d’évolution; mais cette contradiction est masquée constamment par l’emploi inconscient des mots en rapport avec cette dernière théorie.   Ainsi, on dit courramment qu’un animal est très évolué — ce qui, pratiquement, veut dire qu’il appartient à un groupe auquel on attribue  arbitrairement un numéro élevé dans la classification admise. Mais on ne voit vraiment pas pourquoi on considère un Equide, tel le cheval, comme plus “évolué” qu’un rongeur, tel le rat. Les naturalistes de notre génération ont grand’peine à s’évader de cette terminologie; peut-être sont-ils, dans une certaine mesure, hypnotisés par l’emploi de mots auquels ils n’attribuent certainement plus leur sens primitifs. Albert Gandry parlait un langage plus rationel et plus scientifique en employant le mot enchaînement au lieu du mot d’évolution”.[Não se deve dissimular como são sérias, do ponto de vista filosófico, as duas noções de phylum (filo) que remontam indefinidamente no passado, e o polifiletismo de grupos à primeira vista homogêneo; elas aparecem, para aqueles que gostam de pensar, como bem opostas à noção de evolução; mas essa contradição é constantemente mascarada pelo uso inconsciente de palavras em relação a essa última teoria. Assim, é comum dizer-se que um animal é altamente evoluído – o que praticamente significa que ele pertence a um grupo ao qual é arbitrariamente atribuído um número elevado na classificação aceita. Mas não vemos realmente por que consideramos um equídeo, como o cavalo, mais “evoluído” que um roedor, como o rato. Os naturalistas de nossa geração têm grande dificuldade de livrar-se dessa terminologia; talvez eles sejam, em certa medida, hipnotizados pelo uso de palavras às quais, certamente, não atribuem mais o seu significado primitivo. Albert Gandry empregou uma linguagem mais racional e científica ao usara palavra encadeamento no lugar de evolução.]

— Que livro é esse, Tomás?

— Não passa duma enciclopédia, o volume tem o nome formidável Os seres vivos e é escrito por diversas autoridades no assunto. Você verá aqui as assinaturas de Allorge, Prenant, Lemoine, Aienot, Guyenot, etc. Aliás — acrescentou Tomás, fazendo um passe de prestidigitação, com o qual o livro saiu da capa de couro preto e se nos apresentou disperso em fascículos, — aliás, essa enciclopédia tem essa vantagem, para vocês: pode-se mudar o fascículo. Amanhã ou depois virá uma página substituir essa ou aquela. É realmente perigoso doutrinar com as ciências da natureza… Agora, se vocês me permitem, vou procurar aqui um trecho que há tempos marquei no Guyenot. Aqui está o livro La  variation de l’evolution... Vejamos… Aqui está uma passagem curiosa no capítulo que o autor chama “L’evolution par mutations et les documents paleontologiques”: “Il est assez curieux qu’une théorie, basée sur des faits indiscutables et nombreux de variations héréditaires, s’applique malaisément à l’évolution telle, qu’elle parait s’être passée dans le lointain des âges, tandis qu’inversement les conceptions, qui expliquent le mieux cette évolution historique, sont formellement contredites par les résultats de l’expérience. En présence de cette situation paradoxale, nous devons d’abord nous demander quel est le degré de certitude des interprétations fondées sur les documents paleontologiques”.[É bastante curioso que uma teoria, baseada em fatos incontestáveis e em muitas variações hereditárias, seja difícil de aplicar à evolução, como parece ter ocorrido em épocas distantes, enquanto, ao contrário, as concepções que melhor explicam essa evolução histórica sejam formalmente contraditadas pelos resultados da experiência. Na presença dessa situação paradoxal, devemos primeiro nos perguntar qual é o grau de certeza das interpretações baseadas em documentos paleontológicos.] Aqui mais adiante, temos uma passagem duma picante ingenuidade: “Or, ce n’est un secret pour personne que la quasi unanimité des paléontologistes, imbus des idées, lamarkiennes ou darwiniennes, ont toujours rattaché, par voi de filiation hipothetique, les formes qui s’écartaient le moins fortement les unes des autres, s’éfforçant d’obtenir, autant que possible, une série continue. Il n’est des lors pas étonnant que si l’on oublie que ces reconstitutions ont été faites d’après le principe même de l’évolution continue, on le principe même de l’évolution continue, on puisse les citer comme une preuve de l’évolution continue, etc.”.[ Ora, não é segredo para ninguém que a quase unanimidade dos paleontólogos, imbuídos de ideias lamarckianas ou darwinistas, sempre associaram, por meio de filiação hipotética, formas que se distanciavam menos fortemente umas das outras, esforçando-se para obter, tanto quanto possível, uma série contínua. Portanto, não surpreende se, ao esquecermos que essas reconstruções foram feitas de acordo com o próprio princípio da evolução contínua, e possuam o próprio princípio da evolução contínua, possamos mencioná-las como prova da evolução contínua, etc.] Isto em português quer dizer que, para o Guyenot, os paleontólogos fazem trapaça nos tais phylums.

— Mas afinal há evolução ou não há, para esses autores que você está invocando? Contínua ou descontínua, mutação, seleção ou adaptação, evolução ou encadeamento, tudo isso não vem a dar na mesma cousa e todas elas não são nitidamente anticriacionistas?

— Realmente, o que há, nessa matéria, é uma tremenda perplexidade. Toda ciência nascente produz na humanidade uma febre. Com os primeiros fósseis nasceu o transformismo que o Cuvier tão robustamente tentou represar. Agora é nas células germinais da drosófila que a biologia vai encontrar dificuldade de aceitar uma doutrina monofilética e mesmo a evolução como era compreendida e definida 50 anos atrás. Amuado, o biologista abriga-se num probabilismo que é mais atitude do que teoria. De qualquer modo fica bem evidente que o nosso livrinho é pretencioso e singularmente atrasado nesse setor. Aliás, em minha opinião, o erro é mais grave para os autores: não é só no detalhe puramente especializado que eles falharam. É, sobretudo, na metafísica. Parece que eles nunca pensaram no que seja um critério de verdade, em qual seja o mecanismo do conhecimento, que ignoram o drama da epistemologia, que nunca ouviram falar na axiomática, que seguramente nunca leram o seu Aristóteles e o Santo Tomás… Mas voltemos ao livrinho. Aqui está a famosa preocupação de encontrar nos animais “um pouco” daquilo que caracteriza o homem.   Aqui está: “As aranhas  inventaram um variado sistema de teias”. Neste ponto vocês me dispensam o comentário: apenas direi que positivamente a maior carência dos autores não é propriamente de informações, é de humour. Adiante o autor concede que o bicho Homem não parou de inventar, enquanto os outros irmãos pararam.   Agora temos: “…os outros animais (….) para segurar, carregar e despedaçar, usavam os dentes; o bicho-homem segurava, carregava e despedaçava com as mãos, conservando os dentes livres para a defesa”. Ora, isto está um pouco impreciso. Parece prestidigitação. O nosso pobre antepassado ficaria bem embaraçado se devesse se defender do urso ou do tigre sem largar os embrulhos! E com a serpente? Em tudo isso eu vejo para o nosso antepassado tremendos handicaps, e pelo rigoroso darwinismo, ele teria sucumbido. Mas “foi a necessidade que botou no caminho do progresso os nossos antepassados peludos”. Isso é uma injustiça! Com toda evidência vemos surgir aqui uma proteção especial para esses peludos. Nas outras espécies a sobrevivência do mais apto opera os seus massacres cientificamente; com os peludos ela avisa, ela se chama necessidade, torna-se uma verdadeira mãe. O autor, passando agilmente através de um lamarckismo comovente, cai em cheio na “vontade”. A história natural ficou para trás. As invenções já não vão brotar como cogumelos; ao contrário, serão forjadas titanicamente, como a espada de Siegfried; o super-homem se anuncia, num leitmotiv nietzschiano, para, finalmente, se desmanchar num critério econômico, entrelaçado num conceito pragmático de utilidade… Parece que a principal mania do autor é misturar todas as fórmulas que já foram propostas contra a Igreja num depoimento confuso e até contraditório.  Agora cá está o homo-faber: “No dia seguinte dona Benta abriu o livro e continuou: — Meus filhos, todas as invenções humanas têm um objetivo comum: poupar esforço, fazer uma cousa com o mínimo de trabalho possível”. É por isso que o homem das cavernas ficava longos meses desenhando titanicamente na pedra… Também é pela lei do mínimo esforço que criaram complicados ornatos na cerâmica. Mais tarde a lei do menor esforço vai produzir a imprensa! A mim me pareceria infinitamente mais natural não escrever livros, e sobretudo não os ler. A nona sinfonia também deve ter sido gerada pela lei do menor esforço…

— Espere, Tomás — acudiu o Dr. Morel —, você vai me fazer um favor: vai concordar comigo que aquela lei existe e realmente dirige todos os nossos atos. As cousas complicadas como a Imprensa e a Nona Sinfonia são difíceis de analisar, envolvem uma tremenda complexidade; e quem nos poderá recusar que a Nona Sinfonia não era o menor caminho para a alma reversa de Beethoven, uma espécie de linha geodésica de sua pessoa?   Você sabe melhor do que eu que o menor caminho não quer dizer o mais simples, e sim o que serve melhor às exigências do ambiente. Em cada instante nós operamos pelo caminho mais curto, descrevendo as mais complicadas órbitas.

— Tudo isso é engenhoso e em parte verdadeiro, em relação às cousas que já existem; mas eu acho que no capítulo das invenções a coisa é frequentemente invertida. Na verdade parece-me que o Homem opera ora pelo menor ora pelo maior esforço. Tudo no homem é paradoxo, e só pôde ser bem compreendido assim. Mas é paradoxo vivo, operante, e não um jogo de palavras. Cortar o paradoxo, negar o sobrenatural, é cair numa dessas teorias simplistas que especulam com um mutilado, onde a muito custo se percebe do que se trata. Olhe, aqui adiante está o primeiro homem que vestiu a pele de urso. E mais adiante ainda: “O Bombix era um grande inventor porque inventou o casulo e o fio, mas o homem foi maior porque inventou a seda”. Decididamente não vale a pena continuar.

—Concordo em parte — disse o Dr. Morel um pouco acabrunhado com as citações — mas só em parte, com restrições. Há aí no livro um exagero a respeito do Peludo, evidentemente há exagero, mas apesar de tudo ele está próximo do mais provável… Você não quererá que o Lobato fosse contar à criançada a história do Adão e da fruta? Que diacho, nós vivemos em tempos liberais e só podemos instruir e educar em termos científicos!

— Muito eu teria que dizer a respeito da liberalidade dos tempos que permitem todos os livros, e dos termos científicos quando eles não são científicos.

— Pondo de parte essa questão das origens…

— Então por que não fez assim o autor?

— Pondo de parte — voltou o Dr. Morel — o livro é interessante, redigido em estilo adequado à psicologia infantil. Está perfeitamente de acordo com as teorias mais modernas…

— Está na moda. Mas devo-te dizer que sobretudo nesse ponto eu discordo! Esse recreativo, dito adequado, deriva das ideias que hoje têm curso em pedagogia. Discordo desses autores todos que tentam construir uma teoria de educação unicamente com a contribuição das ciências da natureza; discordo em massa e nem me perturbo se são especialistas e se apresentam as mais bonitas estatísticas do mundo. Tudo isso existe necessariamente, e tem mesmo certa coerência dentro duma antropologia com dogmas mutilados. É como se fosse uma geometria não euclidiana do homem. Tenho coisas escritas a esse respeito que poderei lhes mostrar oportunamente. Esses métodos e esses livros agradam às crianças no que elas têm de inferior, naquilo que se conforma com a própria infância, no que é funcional, como diz o Claparède; mas repugnam ao mais ardente amor que elas têm pelo sério, pelo real, pelo que não é funcional, pelo que define a criança justamente não se conformando com o infantil. Positivamente, esse engraçado permanente, esse ensinar jogando, produzem em mim a melancolia que se sente num pátio de hospício. Eles se sentam no chão, os educadores, para ensinar num modo adequado, também chamado ativo, porque nunca ouviram falar que a posição que verdadeiramente define a criança é ficar na ponta dos pés! Parece que eles nunca viram uma criança! Falo muito sério, meu caro Morel: entristeço-me pensando nos homens de amanhã, saídos dessas escolas modernas, onde o esforço é disfarçado com a glacê do interesse e onde se habituam a esse doce e tépido idiotismo de brincar.  Decididamente também não gosto do estilo!

Tomás acendeu um cigarro, e tomando o livro ainda uma vez, prosseguiu com ferocidade:

— A capa é interessante… Mas para te dizer com franqueza, esse Penseur de Rodin, nu, crispado, parecido com o Stalin, não me produz excessiva admiração. Prefiro o do Miguel Ângelo, apesar da armadura e das pernas de centurião. Desculpe-me, Morel, mas, refletindo melhor, também não gosto da capa…

E assim dizendo, Tomás tomou o livro delicadamente e o colocou de pernas para o ar na brecha que ele tinha deixado na estante.

— Você fala só como católico! Você pensa tudo, quer tudo em função de alguns poucos dogmas!

— É exato. Eu sempre penso e falo em função de alguns poucos dogmas, disse bem; somente eu sei quais são esses dogmas, enquanto que esses autores falam e pensam em função de muitos dogmas que aparentemente eles ignoram…

(Em: A ordem, Revista do Centro Dom Vital, ano 1939, nº 104)