carlos magno

Não é raro deparar-se com a asserção errônea de que Carlos Magno teria sido um rei analfabeto, ainda que se reconheça o notável impulso que ele soube dar ao renascimento das letras, à criação e à renovação das escolas. Na verdade, ele não foi rei analfabeto mas, bem ao contrário, um imperador letrado, embora possuidor de cultura imperfeita. A errônea afirmação procede ou da repetição irresponsável de erro caduco ou da confusão com a sua reconhecida dificuldade quanto à escrita, que ele nunca pôde dominar a contento. Segundo a Vida de Adelardo, primo de Carlos Magno, este recebeu na escola palatina de Pepino, o Breve, os rudimentos da instrução elementar e de alguma formação literária que não pôde desenvolver por causa da sua existência de guerreiro solicitado por constantes campanhas bélicas que o forçaram, evidentemente, a empunhar mais a espada que a pena.

A rainha Bertrada proporcionou ao filho Carlos educação essencialmente religiosa, e entre “os 12 e os 26 anos ele foi iniciado nos problemas administrativos do reino franco de que se tornou o chefe coroado em setembro de 768. Artur Kleinclausz, autor da melhor biografia moderna de Carlos Magno, completa, com o auxílio de outras fontes, os dados sobre a personalidade do grande imperador fornecidos pelo seu primeiro biógrafo e amigo de velha data, Eginhardo. Observa Kleinclausz que a primeira parte da Vida do Imperador Carlos Magno deixa muito a desejar quanto aos dados cronológicos do reino franco. Em compensação, a outra metade da obra, que trata da personalidade o do gênero de vida de Carlos, da sua família e da sua morte, “tem valor incontestável”, e sem ela não se conheceria a personalidade do grande imperador. Ademais, acrescenta Kleinclausz, o livrinho de Eginhardo é o tipo da obra sincera, já que o seu autor não esconde certos fatos prejudiciais à memória do herói.

Carlos Magno era homem alto e forte, entusiasta dos exercícios físicos. Gostava de banhos de água quente mas praticava com grande prazer a natação e a equitação e a sua maior paixão era a caça, sem se falar da sua habilidade nas armas.

O imperador nutria desmedida afeição pelos parentes e amava ternamente os filhos. Aliás, casou-se cinco vezes. Queria que os três rapazes fossem bons cavaleiros, soldados, caçadores, hábeis nadadores e ainda fossem versados nas sete artes liberais, e que superassem o resto dos homens em todos os campos. As suas lindas filhas foram objetivo dos mesmos cuidados educacionais. Rotruda, a primogênita, cultivou a teologia e morreu enquanto o pai vivia, e as outras cinco foram bem formadas nas artes liberais, assim como nas artes femininas, pois manejavam o fuso e trabalhavam a lã. Carlos Magno obrigou as filhas a ficarem solteiras, pois não podia passar sem a sua presença, tanto lhes queria, o que levou algumas à concubinagem com seus cortesãos, como Berta com Angilberto e Rotruda com Rorgon.

Graças à orientação de sua mãe Bertrada, Carlos Magno foi um homem sinceramente piedoso, apesar de várias faltas que lhe possam ser imputadas, tal como o castigo da rebelião chefiada por Widukind que violou o pacto feito com ele que mandou, então, decapitar 4.500 saxões revoltosos. O imperador frequentava as igrejas diariamente, participava da Santa Missa e dos ofícios, cantava junto com os monges e com os simples fiéis, jejuava conforme as leis da Igreja, visitava os santuários famosos e auxiliava generosamente os pobres.

No tocante à instrução e às letras podem destacar-se três aspectos da personalidade de Carlos Magno: o seu interesse pessoal no próprio aperfeiçoamento intelectual, a sua argúcia em escolher um círculo de amigos ilustrados junto à docilidade de bem se aconselhar com os doutos e, finalmente, o zelo pela promoção da cultura no império e que se manifestou através da reforma da escrita, da edição de bons textos, da fundação e da renovação das escolas. Consideremos, pois, nessa ordem, os três aspectos da personalidade carolina.

Carlos Magno era instruído na Sagrada Escritura, e frequentemente pedia explicações a seu respeito aos homens doutos nas Santas Letras, de regra, monges, e cuidou de defender a pureza da ortodoxia cristã. Além disso, era dotado de notável curiosidade quanto as ciências e às letras. Embora já fosse guerreiro consumado, tornou-se de novo estudante aos quarenta anos. Trouxe da Itália os gramáticos Pedro de Pisa e Paulino de Aquiléia que lhe ensinaram os segredos da arte literária. Em 782 juntou a esses mestres o nobre italiano Paulo Warnefried ou Paulo Díacono, historiador e poeta, exímio cultor das línguas latina e grega. Em 781 encontrou-se em Parma com o monge inglês Alcuíno — cujo nome era mesmo Albino — o grande sábio que se tornou o seu ministro da educação e o animador incansável da vida cultural na corte carolíngia. Eginhardo frisa que o rei Carlos (imperador no ano 800) aprendeu a gramática com Pedro de Pisa — e a gramática naquele tempo era ensinada nas escolas durante quatro anos e equivalia a um curso básico de cultura geral — mas estudou as outras artes liberais, a saber, retórica, dialética, aritmética, geometria, música e principalmente a astronomia, com o próprio Alcuíno que sabia tudo o que um homem do seu tempo podia conhecer.

A cabeceira do leito, o rei estudante tinha à mão tabuinhas e folhas, tabulasque et codicellos, nas quais se exercitava na escrita em qualquer tempo disponível. Devido, no entanto, à mão calejada pelo diuturno manejo da espada, apesar dos esforços incessantes, o imperador não conseguiu aprender a escrever com fluência, já que só tardiamente se entregou a esse labor preeposterus ac sero inchoatus. E, assim, “esse bárbaro, diz Kurth na sua obra As Origens da Civilização Moderna (J. II, pág. 252), que não aprendeu a escrever, foi II, pág. 252), que não aprendeu a escrever, foi o diretor dos estudos do seu século e o promotor de copiosa literatura”. Carlos Magno, diz por sua vez Kleinclausz, não foi escritor mas um homem instruído para o seu tempo, um sábio, um “sofista” como se dizia. Falava o latim como a própria língua franca, compreendia o grego, e possuía excelente biblioteca graças à contínua busca de livros e aos presentes dos amigos. No seu testamento ele deixou disposto que a biblioteca devia ser vendida a preço acessível para os amantes dos livros e do saber. Por conseguinte, Carlos Magno não foi rei analfabeto por não saber escrever o latim, pois analfabeto é aquele que não sabe nem o alfa nem o beta, isto é, não sabe o alfabeto e não sabe ler. Ora, como informa Valafrido Estrabão, monge beneditino (806-849), abade de Reichenau em 842, no seu Diário de um Estudante, aprendia-se no currículo da escola monástica primeiro a ler e depois a escrever. O diário de Valafrido estende-se do ano 816 a 825. Antes de empreender o estudo da gramática, aos 10 anos de idade, Valafrido, tendo chegado à escola monástica, aprendeu a ler, e depois começou a traçar em sua tabuinha encerada as letras que começou a conhecer e a enlaçar, tendo aprendido a escrever antes da primavera do ano 816.

Carlos Magno teve o suficiente descortino para se fazer rodear por uma plêiade de sábios e de pessoas cultas, clérigos na maioria, teólogos, letrados e poetas. Durante as refeições gostava de ouvir música ou de escutar a leitura de alguns passos de obras de autor antigo “ou de Padre da Igreja, principalmente da Cidade de Deus de Santo Agostinho. Entre os estrangeiros da sua corte estavam o germano Eginhardo, seu futuro biógrafo, o visigodo Teodulfo, o italiano Paulino de Aquiléia, os francos Angilberto e Moduíno, etc. Esses letrados, e vários outros, formavam uma Academia onde cada membro recebia um pseudônimo bíblico ou mitológico. Assim, Eginardo era Bezeleel, Alcuíno era denominado Flaccus, Teodulfo era Píndaro, Paulino era Timóteo, Angilberto e Moduíno chamavam-se de Homero e de Naso, o imperador era Davi, e assim por diante. Na Academia real de Aix-la-Chapelle os letrados compunham poesias, enigmas, panegíricos e epigramas e, desse modo, com o auxílio dos clérigos doutos, Carlos Magno procurava civilizar os aristocratas francos. Esses nobres, todavia, não tinham interesse pela cultura nem atração pelos problemas do espírito e, por isso, alguns anos após a morte de Carlos Magno, os nobres após a morte de Carlos Magno, os nobres guerreiros retornaram à costumeira barbárie, e a sua casta só veio a reaparecer, transformada pelo espírito cavalheiresco, depois do primeiro milênio da era cristã no ambiente social completamente modificado do século XII. O renascimento cultural carolíngio, portanto, gravitava em torno da pujante personalidade do imperador que, feito aluno tardio de tão ilustres mestres, veio a merecer a sua admiração sincera e férvidos elogios. Assim, o poeta anônimo do fragmento Karolus magnus et Leo papa celebrou as habilidades de Carlos na gramática, na retórica, na dialética e nas demais artes, e chamou-o de rei incomparável, summus apex regum, e de o maior sábio do mundo, summus quoque in orbe sophista. Além de apreciar as belas letras e a teologia, o imperador manifestava sumo apreço pelas ciências. Do campo de Herstal, durante a guerra com os Saxões, ele se correspondia com Alcuíno sobre problemas de astronomia, e de tal correspondência restam onze cartas que tratam de assuntos científicos. Na epístola 86, da Patrologia Latina de Migne, (ano 798), Alcuíno discorre sobre a lua cheia e a lua minguante, e nessa mesma carta fala da nova Atenas que podia surgir na França iluminada pelas sete artes e pelos sete dons do Espírito Santo. Após a morte de Alcuíno (ano de 804), o imperador escreveu em 811 ao famoso monge irlandês Dungal a pedir explicação sobre dois eclipses do sol ocorridos no ano anterior. Como se colhe dessas indicações, seria ridículo considerar Carlos Magno um rei analfabeto. Ora, além do mérito pessoal no diuturno esforço por se instruir e aprimorar intelectualmente, é preciso levar em conta as medidas tomadas pelo imperador em prol da cultura. Uma delas foi a edição de bons textos latinos da Escritura e de outras obras, uma vez que inúmeras cópias de manuscritos corriam mundo eivadas de solecismos. Outra, foi a ordenação que promoveu quanto ao canto entoado pelos monges nas igrejas abaciais ou pelos clérigos seculares nas igrejas catedrais ou paroquiais. Medida interessantíssima, e que nos diz respeito bem de perto, foi a adoção oficial da minúscula carolina, a caligrafia dos monges irlandeses, e que se caracterizava pela simplicidade, e pela facilidade do traçado, fato que levou os humanistas do século XV a elegerem tal escrita para os seus caracteres de imprensa, escrita que ainda usamos diariamente nos livros, nas revistas e nos jornais. A medida cultural, entretanto, e de máxima urgência para a época — fim do século VIII e começo do IX — foi a criação de escolas paroquiais, monásticas e episcopais ou a sua renovação. As escolas paroquiais ministravam o ensino elementar, enquanto as outras, destinadas principalmente aos monges e os candidatos ao sacerdócio, proporcionavam o ensino das sete artes liberais e da Sagrada Escritura. No fim do século VIII a ignorância do clero era profunda, e era muito difícil encontrar religiosos capazes de fazer pregações ou de converter pagãos com a luz da doutrina cristã. Por isso, Carlos Magno empenhou-se a fundo em renovar o ensino das escolas existentes nos mosteiros, bispados e paróquias, e passou a criar muitas outras em cidades e aldeias. Algumas das suas capitulares ou decretos reais rezam “que escolas sejam criadas para ensinar a ler às crianças” ou que cada um envie o seu filho para aprender as letras, e este permaneça na escola cercado de cuidados até estar devidamente instruído”. As escolas paroquiais difundiram-se pelo império e nelas se ministrava o ensino da leitura em latim, do cálculo e do canto. Ademais, no próprio palácio real —- móvel como a corte — funcionava uma escola, a palatina, onde estudavam os filhos dos nobres e dos funcionários, de origem aristocrática ou plebeia. Não se deve confundir essa escola elementar palaciana com a Academia palatina onde pontificavam os mentores intelectuais do soberano. Enquanto Carlos Magno fazia a divisão do seu império ou traçava o programa dos estudos nos seus domínios, ele determinava numa capitular as espécies de plantas que se deviam cultivar nos jardins e o modo como os meninos deviam cantar os salmos nas escolas. E pensar que as suas iniciativas culturais e as suas medidas de caráter religioso se mesclavam às empresas bélicas! Durante os quarenta e sete anos de reinado, Carlos Magno promoveu 53 expedições militares, tendo chefiado a sua maior parte. Carlos Magno, o guerreiro sua maior parte. Carlos Magno, o guerreiro piedoso, o imperador letrado!

(Em: “Suplemento cultural” nº 125 do jornal O Estado de São Paulo, 25/03/1979)