stalin hitler

[Nicolas Boer (1914-1987), húngaro de nascimento, é um fugitivo do comunismo. Chegou no Brasil em 1950, fez carreira universitária na USP e foi comentarista internacional de O Estado de S. Paulo. Tem vários livros publicados. Este blog já publicou um ensaio do professor Boer sobre a teologia da libertação.]

Adolf Hitler e Joseph Stalin, os dois homens que mais decisivamente influenciaram os rumos da História do século XX, foram ambos idolatrados em vida e abominados após a morte. Stalin, que no ápice da glória (quando todos esquecem os métodos aos quais devem seus êxitos) foi chamado de “guia genial dos povos”, nasceu há cem anos, 21 de dezembro de 1879, em Gori, Geórgia, Transcaucásia. Dez anos mais moço, Hitler que, ainda em setembro de 1942 (quando se começava a prever seu vertiginoso declínio), confundia “sua obra com o destino do Reich”, nasceu a 20 de abril de 1889, na pequena cidade austríaca Braunau Am Inn, nas fronteiras de Baviera.

O centenário do nascimento de Stalin e o nonagésimo aniversário de Hitler dão aos analistas, interessados em descobrir o segredo destas duas fulgurantes carreiras, o ensejo de procurar estabelecer uma comparação do perfil psicológico dos dois líderes que manifestaram mutuamente um ódio visceral e, ao mesmo tempo, uma admiração às vezes confessada, às vezes disfarçada. Alternadamente aliados e adversários, irmãos gêmeos da família dos Leviatãs, monstros da crueldade bárbara e refinada, transformaram o genocídio institucionalizado em “razão de Estado” e erigiram a egolatria a dimensões antes desconhecidas, a pretexto da idolatria do mito ou, se quiserem, da utopia da Raça e da Classe. Aspectos particulares, o biológico e o social, hipostasiados, apontados como raiz única da existência e da cultura, que só podemos conceber em termos globais do consenso social comtiano e do pluricausalismo, nunca, porém, do unicausalismo determinante.

O que mais repugna no totalitarismo é que procura degradar o indivíduo, a quem atribuímos a dignidade de pessoa (Boécio: “individualis naturae spiritualis substancia”, “A pessoa é uma substância individual de natureza racional”), à condição de átomo da nação hipertrofiada e estatizada (fascismo), de uma gota de sangue do organismo racial politizado (nacional-socialismo) ou de um dente a mais nas rodas de engrenagem do Grande Trator proletário (comunismo). Hitler e Stalin foram no fundo irmãos gêmeos. O conteúdo do seu credo político e ideológico era diferente, e até antagônico. Sua psicologia tinha duas direções, a de Hitler, intuitiva, irracional, e a de Stalin, racional e dialética. Nenhum deles possuía escrúpulos. Só após a morte separaram-se definitivamente os seus caminhos.

A Segunda Guerra Mundial, que marca ainda o destino da humanidade, foi obra da cumplicidade dos dois. Hitler agiu sob o impulso da intuição imediatista ao passo que Stalin o fez calculando racional e dialeticamente as consequências da violação das regras do jogo, consagradas pela história europeia. A Rússia, mesmo depois da Revolução de Outubro, era parte integrante do sistema europeu de Estados que se formou a partir do momento em que os Estados nacionais emergiram da ordem universal do “mundus christianus” medieval, o qual só se desintegrou no fim da Segunda Guerra Mundial. Se a intuição alertou Hitler para a necessidade da proteção de retaguarda que Stalin poderia oferecer-lhe para romper o equilíbrio europeu, o líder russo, por sua vez, sabia que assim como o Führer necessitava da sua ajuda para romper o equilíbrio, também as potências ocidentais dela precisariam para restaurá-lo. Dessa forma, o rompimento do “status quo” europeu, promovido por Hitler, com violência sem par sob a instigação e o auxílio de Stalin, resultou no aniquilamento do cordon sanitaire construído após a Primeira Guerra Mundial em torno da União Soviética e abriu a porta através da qual Stalin pôde entrar na Europa.

A guerra total, então iniciada, que só poderia terminar com a capitulação de um grupo das potências beligerantes, não permitiu que a porta, uma vez aberta, fosse de novo fechada. Stalin, desde o começo, estava perfeitamente consciente das enormes vantagens que poderia tirar, não apenas do rompimento do status quo europeu, mas também do desfecho da guerra, qualquer que fosse a parte que dela saísse vitoriosa. Por isso, sempre fez seu próprio jogo, procurando preservar sua relativa liberdade de movimento diplomático, não obstante as alianças políticas e militares contraídas sucessivamente com as duas partes beligerantes do “campo capitalista”, visando obter, por meio delas, antes a realização dos seus fins específicos do que a vitória da causa comum. Seu objetivo específico certamente não era o restabelecimento do equilíbrio europeu, mas sim a criação, na Europa, de um estado permanente de desequilíbrio, graças ao qual pôde expandir-se e consolidar suas novas posições de poder. Stalin obteve dos aliados democráticos a incorporação de onze Estados da Europa Central e Oriental ao seu Império. Foi o preço que Hitler não quis pagar-lhe, quando Stalin, a 25 de novembro de 1940, atendendo ao convite do Führer, manifestou sua disposição de aderir ao Pacto Tripartite, condicionando a sua entrada neste Pacto Anticomintern (!) à extensão da sua zona de influência a todas as regiões da Europa, que seus aliados ocidentais democráticos lhe entregaram em Ialta e Potsdam. Em 1941, diante das condições de Stalin, com a mesma impulsividade com que propôs e assinou o Pacto Ribbentrop-Molotov, a 23 de agosto de 1939, que constituiu flagrante violação dos seus propósitos confessados no Mein Kampf de promover uma cruzada anticomunista e antissoviética, Hitler resolveu agredir a Rússia, denegando o voto solene que fez no mesmo livro de não permitir que a Alemanha se empenhasse mais uma vez numa guerra de duas frentes. O traço comum aos dois ditadores, não obstante as diferenças de temperamento entre um e outro, é que, ao tomar suas decisões na guerra, não se deixaram em nenhum momento, influenciar por conceitos, preconceitos e pretextos ideológicos.

Hitler perdeu e Stalin ganhou. Adolf Hitler, Führer e Reichskanzler, suicidou-se a 30 de abril de 1945. Seu corpo foi queimado no jardim da Reichskanzler. Não se sabe se suas cinzas foram recolhidas por mãos ainda devotas numa urna ou se foram levadas pelo vento. A maioria dos alemães hoje desejaria, com certeza, que sua memória tivesse sido dispersa pelo vento.

Stalin morreu a 5 de março de 1953 de hemorragia cerebral. Sua memória, sobretudo após as revelações secretas de Kruschev no XX Congresso do PCUS, ficou desmoralizada. Quando ainda vivia, a Grande Enciclopédia Soviética publicou-lhe o retrato em página inteira, tendo o verbete a ele dedicado dezenas de páginas em que sua vida e obra eram analisadas em forma de panegírico, cheio de adjetivos superlativos e aduladores. Mas a história do partido está sendo reescrita anualmente de forma que hoje a mesma enciclopédia lhe dedica no máximo uma página com ou sem fotografia do tamanho de um selo. Mas o efeito de seus atos permanece e, apesar dos processos alternados de destalinização e reestalinização, não é possível extirpar da história da Revolução Russa a essência do stalinismo simplesmente porque os 62 anos da história da União Soviética e do Partido Comunista, ficaram indelevelmente marcados pelo reinado de Stalin. Um reinado que durou 30 anos, ao preço de 60 milhões de vidas exterminadas no imenso campo concentracionário do Arquipélago Gulag.

As diplomacias dos dois ditadores, impostores do ponto de vista moral e manipuladores do moderno imperialismo, também ostentam a marca da sua personalidade: irrealista e irracional, de Hitler, e realista e racional, de Stalin. O que é comum aos dois é a brutalidade com que praticaram a política de poder, sem escrúpulos e sem remorsos. Uma rápida comparação da política diplomática dos dois tiranos, revela sua personalidade. Hitler primeiro expôs, em seu Mein Kampf, a totalidade do seu programa e depois procurou realizá-lo por etapas. Longe de pedir mais para obter menos, o Führer procurava fazer seus interlocutores acostumarem-se às suas exigências, no início relativamente modestas, depois mais ambiciosas. Embora consciente de sua fraqueza, nunca se afastou das metas que se havia proposto, nem mesmo no que diz respeito às datas (em abril de 1938 fixou para 1º de outubro a anexação do país dos Sudetos e, em abril de 1939, fixou para 1º de setembro a invasão da Polônia). As negociações intermediárias não tinham outro objetivo a não ser o de obter pacificamente o que pretendia realizar de qualquer modo. No famoso Protocolo Hossbach, de 5 de novembro de 1937 (Akten zur deutschen Auswaertigenpolitik), mostrara ele que a realização do seu plano implicava em violência e que “a violência não se aplica sem riscos”.

Stalin jamais precisava expor seus planos publicamente, além de jamais deixar qualquer dúvida de que permaneceria sempre, em toda a sua conduta diplomática, fiel à ideia de que o comunismo deveria finalmente triunfar no planeta inteiro. Esta atitude mais sutil permitiu-lhe empreender, quando as relações de força internacional assim o exigiram, recuos considerados, porém, temporários, como aconteceu no caso de Azerbaijão, em dezembro de 1946, no da guerra civil da Grécia (1947) e no do bloqueio de Berlin (1948-1949). Mais diplomático do que Hitler, sabia levar avante seus planos imperialistas dando a impressão de certa moderação e alcançando assim, com seu aparente tato, mais do que a que ele fez jus. Em Dumbarton Oaks, por exemplo, reclamou dezesseis votos para a URSS na ONU e em Ialta obteve três. Em todo caso, é uma característica da diplomacia soviética — manobrada então por Stalin — contentar-se, pelo menos provisoriamente, sobretudo quando suas exigências se chocam com a firmeza decidida do interlocutor, com o mínimo, apos ter exigido o máximo, sem excluir, porém, a constante e progressiva expansão de suas posições. Em Cuba, após duas tentativas frustradas, pela terceira vez conseguira instalar suas tropas e armas de combate. Onde, porém, não encontra nenhuma resistência (Angola, Etiópia, Iêmen e Afeganistão) procede tranquilamente a obra de conquista “manu militari”.

Ao passo que Stalin, nas horas de grande perigo, sabia fazer concessões, embora por motivos táticos, às oposições internas, procurando conciliar sua política com o sentimento nacional e a ortodoxia russa, Hitler, nos momentos decisivos quando seu prestígio começou a ficar abalado, na frente de batalha e no controle dos mecanismos do poder, tomado de insensatez, procedeu ao extermínio maciço dos que considerou os maiores inimigos da raça alemã, os judeus, ciganos, conservadores e liberais e os membros da resistência dos países ocupados. Reagiu com a instintiva e incontrolável brutalidade de uma fera ferida. Sabiamente, a conduta de Stalin durante a Segunda Guerra Mundial foi caracterizada pelo forte apelo ao patriotismo, nacionalismo e tradicionalismo russo (e não soviético).

Evocando as memórias de 1812, bem como os grandes heróis da Mãe-Russa e as tradições militares de Pedro, O Grande, Suvurov e Kutuzov, descreveu o conflito com a Alemanha de Hitler, não como uma luta de vida e morte contra o racismo e reacionarismo, mas sim como a Grande Guerra Patriótica. Reabilitou a Igreja Ortodoxa, Igreja Russa, e dissolveu a Internacional Comunista. Estes movimentos, de certo, foram ditados por imposições da política doméstica, mas visaram ao mesmo tempo à consolidação da aliança com o Ocidente democrático, dando à guerra um sentido patriótico e não revolucionário. Stalin entendeu, contrariamente à concepção de Trotsky, que a consolidação do socialismo num só país é a condição e a melhor garantia da revolucionarização do mundo inteiro. A História, por enquanto, parece dar-lhe razão.

Embora a perseguição dos judeus, apontados no Mein Kampf como os “piores inimigos da Humanidade”, tenha sido iniciada logo após a tomada de poder por Hitler (30 de janeiro de 1933), ela se desenvolveu em etapas de crescente intensidade e brutalidade, para chegar a assumir as proporções de verdadeiro genocídio a partir da invasão da URSS pelas tropas de Hitler, em junho de 1941, sendo institucionalizada na primavera europeia de 1942. Cabe, neste contexto, mencionar apenas as fases principais desta perseguição genocida que atingia, no fim, todos os judeus, não apenas dos países ocupados, mas também aqueles que permaneceram até esta data na Alemanha, exterminados nas câmaras de gás dos campos de concentração de Auschwitz, Mauthausen, Treblinka, Belzec, Maidanek.etc. As etapas anteriores e preparatórias para o genocídio coletivo foram as Leis de Nuremberg (1935), a Noite de Cristal (8/11/1938). Mas nas câmaras de gás foram incinerados 72% dos 8,3 milhões de judeus que viviam nos territórios europeus ocupados pelos nazistas. Dos 7,2 milhões de incluídos nestes campos de extermínio, apenas meio milhão sobreviveu à fúria genocida da SS. A “valorização” dos cadáveres (cabelos, ossos, dentes de ouro e as remanescentes pequenas propriedades) cabia ao Ofício de Administração Econômica da SS em Berlim.

Não cabe neste breve ensaio comparativo dar conta completa dos crimes cometidos pelo nazismo, sob a ordem direta de Hitler. Para ter uma ideia da agressividade e destrutibilidade do líder nazista — que Erich Fromm (The anatomy of human destructiveness) chama de necrófilas —, basta atentar para o fato de que os crimes inauditos cometidos em segredo mantido pela censura, costumeira no regime totalitário e justificada pela necessidade da guerra, chegaram a incluir o assassínio de 70.000 doentes mentais na Alemanha, isso sem contar o número espantoso de presos nos campos de concentração submetidos a experiências médicas (vivissecção), a deportação de centenas de milhares de prisioneiros para trabalho forçado na Alemanha, a germanização de poloneses de nome alemão, bem como de órfãos dos territórios ocupados, em lares especializados.

Erich Fromm, no livro acima mencionado, dedica capítulos especiais à análise do caráter psicopatológico de Hitler. O capítulo mais importante: “Agressividade maligna: Adolf Hitler, um caso clínico de Necrofilia” (p.369-435). A inclinação de Hitler à destruição (sobretudo de cidades e de povos), nascida de ódio irracional não apenas dos judeus, dos poloneses, dos russos e dos próprios alemães (que não mereceriam sobreviver como nação se não ganhassem a guerra, ou seja, se não se mostrassem mais fortes do que os outros) e até de si mesmo, assume formas de sadismo necrófilo. O necrofilismo se define em relação ao darwinismo social, pois este se contenta com a afirmação de que na competição só os mais fortes vão e merecem sobreviver, enquanto a agressividade maligna e doentia de Hitler levou-o a desejar o aniquilamento dos racialmente inferiores ou não suficientemente fortes e não apenas a desejá-lo, mas também a encarregar-se de executar este aniquilamento, na consciência sádica e narcisicamente deformada de executar as leis da História (no vocabulário dele: providência) e a vontade das massas. Conviria dizer uma palavra desta identificação de Hitler com as massas — a concepção do Führer como o virtuose que conscientiza os anseios inconscientes do Homem-Massa — mas neste contexto basta transcrever com Fromm uma frase de Hitler que realça os aspectos sádicos e necrófilos da sua agressividade: “O que elas (as massas) querem é a vitória do mais forte e o aniquilamento ou a capitulação incondicional do mais fraco”. E, segundo Fromm, o sadista exigiria capitulação, o necrófilo exige o aniquilamento.

O sadismo é a paixão de adquirir poder ilimitado sobre um ser sensível, a necrofilia é a paixão de destruir vida e a atração que se sente por tudo o que é morto. Segundo Fromm, Stalin apresenta o caso clínico de sadismo mórbido. Foi Stalin o primeiro entre os líderes da Revolução de Outubro a aplicar a tortura. Sob o seu reinado, os métodos de tortura dos prisioneiros políticos institu-cionalizados pela polícia secreta ultrapassaram passaram, quanto à crueldade e ao refinamento, tudo que a polícia czarista podia conceder e aplicar. O sadismo mental de Stalin é característico: um dos seus maiores prazeres consistia em garantir às pessoas que gozavam de segurança e prendê-las um dia depois [sic]. Prendia as esposas e às vezes as crianças de altos funcionários e internava-as em campos de trabalho, enquanto os maridos e pais tinham de continuar a trabalhar em seus ofícios e, quando admitidos à presença do tirano, a adulá-lo. Neste ponto, Stalin se compara ao Calígula de Albert Camus, que é também um tipo extremo de controle sádico que se define como o desejo de onipotência.

“O controle das consciências é uma meta e característica de todos os regimes totalitários, que, porém, foi conseguido por Stalin, ainda antes da institucionalização dos manicômios destinados a reeducar ou simplesmente: castigar inconformistas e desviacionistas ou suspeitos de inconformismo e desvio ideológico o, como ilustra a novela de Koestler, O zero e o infinito. A psicopatia é um dos aspectos mais característicos dos ditadores totalitários: a inclinação a forçar suas vítimas a suportar dores e humilhações sem serem capazes de se defender.

Isto faz parte também dos métodos tradicionais de governo na Rússia, que os czares herdaram dos mongóis que os mantiveram sob seu domínio durante dois séculos. Robert Conquest (The great terror) cita Tolstoi que em sua novela Hadji Murad descreve como o czar Nicolas I determinou que um estudante polonês fosse punido por ter atacado e levemente ferido seu professor: “Pegou o relatório e com próprio punho, com letras grandes e com três erros ortográficos, escreveu na sua margem: ‘Merece a morte, mas graças a Deus, não temos pena capital e não sou eu quem deva introduzi-la. Façam-no correr pelas varas de mil homens doze vezes’ — Nicolas”. Nicolas sabia, perfeitamente que doze mil flagelos com as varas militares não somente significava morte certa com tortura, mas também era crueldade supérflua, porque cinco mil golpes eram suficientes para matar o homem mais forte. Todavia deu-lhe prazer ser cruel desapiedadamente e, ao mesmo tempo, gabar-se do fato de que havíamos abolido a pena de morte na Rússia”.

Robert Conquest continua afirmando que “existe ainda um outro aspecto extravagante com que se defronta, às vezes, não só dentro do aparato comunista, mas também em relação com os velhos admiradores de Stalin no Ocidente. Os assassinatos em massa parecem convencer a gente da gravidade da causa e por isto são justificados.” De maneira semelhante Arthur Koestler em seu O Zero e o infinito dá na boca do investigador Gletkin a afirmação de que “é a disposição stalinista de enfrentar os horrores e as depravações do processo histórico que assegura a superioridade do regime sobre o humanismo sentimental”.

Isaac Deutscher em seu Stalin, a political biography faz comparações entre Robespierre e Stalin, entre a revolução jacobina, que introduziu o domínio da guilhotina na França e a época stalinista dos grandes expurgos que fez dominar o terror na Rússia. O que é comum a estes dois episódios históricos são a crueldade irracional e horror mitológico com que a revolução devora seus próprios filhos. Mais interessante ainda, quando Deutscher afirma que Lenin, analisando o caráter de Stalin, só viu o início dos processos pelo qual a Rússia czarista derrotada ia impor seus próprios padrões ao bolchevismo vitorioso. A História, sobretudo de Roma e Hélade, tem muitos exemplos de que o país militarmente derrotado impõe sua cultura ao império vitorioso. “Este processo histórico inevitável foi refletido pelas expressões mutáveis da fisiognominia política de Stalin: os traços não de um mas de muitos grandes czares pareciam reaparecer na figura deste bolchevique georgiano que agora reinou no Kremlin. Em um tempo ele mostrou os traços de parentesco familiar do czar de ferro, Nicolas I. Em outro ele se assemelhou mais a um descendente de Pedro, o Grande: não construiu ele a Rússia Industrial, como Pedro, o Grande construiu seu Petersburgo nos pântanos e à custa da vida dos operários? Nos anos da Segunda Guerra Mundial ele iria assumir as posturas e imitar os gestos de Alexandre I. E, então, no período dos grandes expurgos, ao exterminar seus oposicionistas, assemelhou-se mais a Ivã, o Terrível, enfuriado contra seus boyars [membros da aristocracia russa]. Sua polícia política, encarregada das empresas industriais e das prisões, não foi diferente da prichnina, a guarda pretoriana proprietária rural, por meio da qual Ivã, o Terrível assegurou seu domínio. Em sua disputa com Trotsky pode-se descobrir ecos lânguidos da controvérsia feroz entre lvã, o Terrível e o príncipe Kurbsky, o líder revoltoso dos boyars. Como no século XVI, o povo de Moscou “rezou no terror, pedindo que o dia passasse sem execução”… A crueldade com que o passado oprimiu o presente foi proporcional à determinação com que a revolução se empenhou em repudiar o passado.

Eis uma das diferenças entre Hitler e Stalin. Hitler, só houve um na história alemã. Havia muitos Stalins na história da Rússia.

(In: “Suplemento cultural” nº 163, jornal O Estado de São Paulo, 16/12/1979)