Gramsci[Esse texto de 1973, sobretudo a parte negritada, ajuda a compreender por que a esquerda governou o país por mais de vinte anos e continua hegemônica na cultura brasileira].

Nenhuma revolução se faz sem um pensamento ordenador. A menos que seja mera contestação negativista e niilista, como foi o caso das agitações de 1968 em Nanterre e Paris. Visando a alterar substancialmente uma situação, estabelecendo em seu lugar uma nova ordem de coisas, a revolução obedece a uma diretriz, a um programa pelo menos implícito.

Foi o que ocorreu com o movimento libertador de 31 de março, entre nós. Tendo por ponto de partida a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, aquele movimento iniciou-se com a grande manifestação popular de 19 de março em São Paulo. O simples enunciado da Marcha, através de seus expressivos dizeres, era todo um programa, cujo objetivo imediato estava em depor do poder um governo que fomentava e mesmo promovia a subversão e a corrupção. O que levou às ruas de São Paulo aquela imensa multidão — reproduzindo-se o fato noutras cidades — foi o desejo incontido de ver o Brasil livre da ameaça comunista, a aspiração inabalável de impedir que o nosso país seguisse os caminhos que já vinha trilhando Cuba e que dentro em pouco também seriam os do Chile.

Daí muitas consequências deviam ser tiradas no concernente à reorganização política, não apenas por mudança de homens no governo, mas por uma revisão institucional profunda que se impunha.

Sabemos que o comunismo internacional atua insidiosamente, penetrando no interior dos países que pretende subjugar, em suas instituições, em seus governos, e sobretudo procurando controlar as escolas, as Universidades e os meios de comunicação de massa. Infiltrando-se até na Igreja!

Por isso mesmo, se a revolução de 31 de março — de que mais um aniversário estamos a comemorar — foi  a bem dizer uma “contrarrevolução”, como, com muita exatidão, o fez ver General Lyra Tavares, ela deve voltar-se principalmente contra a “revolução cultural” que o imperialismo vermelho difunde por toda parte.

Cumpre, pois, exercer toda a vigilância sobre a atuação das esquerdas, no seu empenho de controlar os meios de informação e de formação cultural, sem falar nas reformas de ensino (médio e superior) de cunho nitidamente massificador.

Vem, pois, a propósito evocar um artigo — recheado de inverdades, mas contendo também verdades! — publicado na revista parisiense de Sartre Les Temps Modernes, em seu número de julho de 1970.

Intitula-se “Remarques sur la culture et la politique du Brésil – 1964-1969”,  e seu autor é um tal Roberto Schwarz.

A certa altura afirma o seguinte (que aos telespectadores brasileiros, aos nossos frequentadores de teatros e de livrarias não deve causar admiração):

Para surpresa de todos, a presença cultural da esquerda não foi liquidada naquela data (1964); mais ainda, não deixou de se desenvolver daí por diante.   Sua produção domina, em alguns setores ela é de uma notável qualidade.   Assim, apesar da ditadura da direita existe uma relativa hegemonia cultural da esquerda no país. É que se pode constatar nas livrarias de São Paulo e do Rio, cheias de publicações marxistas, nas estreias teatrais, incrivelmente entusiásticas e febris, por vezes ameaçadas de invasão policial (?), na agitação dos estudantes ou nas proclamações do clero avançado. Em suma, nos santuários da cultura burguesa a esquerda dá o tom.”

É a revolução cultural em marcha.

(Publicado na revista Hora presente, nº 14, maio de 1973)