paolo ucello

Nos Estados Unidos, estava previsto para ser lançado nos cinemas, no próximo mês, um filme pulp, feito para estômagos fortes e amantes do humor negro, intitulado The Hunt. Após os massacres em El Paso e Dayton, foi cancelado. Mas não é só pelos tiroteios e o medo do efeito mimético. Há mais coisas. O filme, que originalmente se chamaria Red State vs. Blue state (o país vermelho, que é o republicano, contra o país azul, o democrata) já despertou, mesmo antes de sair, uma agitação política incrível, que mostra como a sociedade americana se encontra dividida.

Livremente adaptado de The most dangerous game (O jogo mais perigoso), romance de Richard Connell publicado em 1924 e filmado em 1933, The Hunt foi dirigido por Craig Zobel e conta a história de um grupo de homens ricos que pagam uma fortuna para participar de uma caçada sádica a seres humanos. Fica bem explícito quem são os bons e os maus no enredo: os maus são os caçadores ricos e perversos, e os bons são as vítimas inocentes que, sequestradas, são levadas para um lugar desconhecido para serem caçadas. É o que se percebe pelo trailer lançado este mês.

Onde está o problema de um filme baseado em história de quase um século atrás? Na politização que, a partir de 2016, envolve todas as artes nos EUA. Na verdade, Red State vs. Blue state é sobre a elite liberal globalista caçando deploráveis conservadores pró-Trump”. De acordo com o The Hollywood Reporter, que viu o roteiro, as presas, nesta versão, foram escolhidos por serem racistas, anti-aborto e pró-armas. Portanto, os “deploráveis” que em média votam em Trump.

Parece estranho que o escândalo tenha explodido à direita, considerando que no filme, pelo pouco que dele sabemos, as vítimas são os conservadores e os caçadores supermaus e sádicos pertencem à elite (liberal?). O fato é que os conservadores não se importariam em ser representados como caçadores. A Fox News fez campanha contra o filme assim que os primeiros trailers foram lançados. Imediatamente após os massacres no início de agosto, o próprio presidente Donald Trump, sem citar o título do filme, escreveu no Twitter que “A Hollywood liberal é racista nos níveis mais altos e com muita raiva e ódio!” (…) O filme, que está prestes a ser lançado, foi feito para semear e espalhar o caos”. Por fim, o distribuidor, Universal Picture, decidiu cancelar o lançamento do filme. Talvez saia depois; certamente, não em setembro.

Mais do que um problema de censura, como certamente será dito nos próximos dias, é um dos muitos casos em que Hollywood decide evitar a liberação de filmes violentos em razão de acontecimentos sanguinosos, para evitar que seja imitado por aí, mas também para salvar a própria pele, defendendo-se de um possível fiasco de bilheteria. Poucas pessoas, na verdade, têm vontade de ver sangue artificial num filme, depois de ver sangue real pelo noticiário, ou de ter experimentado alguma morte violenta na família ou entre amigos.

Mas, nesse caso, é um sintoma de algo mais sério: arriscar-se a alimentar a pior das fantasias políticas. É inegável que, por lá, haja um ambiente de forte violência política: oradores conservadores atacados por estudantes (sempre que arranjam um espaço para falar nalguma universidade), ataques a qualquer um que use o boné da Maga (Make America Great Again, “torne a América novamente grande), mendigos que pedem esmola não com a tabuleta de “estou com fome”, mas “me dê um dólar e mato Donald Trump”, as numerosas representações teatrais e televisivas do assassinato de Trump … Embora quase sempre se fale de violência da direita, muitos conservadores realmente se sentem caçados.

http://lanuovabq.it/it/hollywood-sospende-la-caccia-ai-conservatori