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Cada um de nós sabe que certas coisas estão erradas, não porque acreditamos que estão erradas, mas porque estão realmente erradas. E isso também se aplica ao relativista moral.

Se você quiser ver um relativista mergulhar em uma crise sofistica, pergunte a ele sobre as “virtudes” da crueldade, estupro, intolerância, exploração ou o Holocausto. Até mesmo o secularista de mente mais liberal acredita que tais coisas estão erradas; no entanto, sem uma base transcendente onde apoiar  seu sistema ético, ele será incapaz de articular um argumento moral coerente contra elas. Mas isso pode mudar, se Sam Harris tiver algo a dizer sobre isso.

Harris é um ateu racionalista e mordaz, altamente crítico da religião e do povo religioso. Mas ele também é um realista moral que acredita em verdades morais objetivas — verdades, confia ele, que podem ser fundamentadas na ciência para formar um sistema de valores morais compartilhados.

Seu argumento é mais ou menos o seguinte: o mundo natural opera de acordo com leis naturais que podem ser descobertas através da ciência; a moralidade é uma parte do mundo natural; portanto, a moralidade segue leis naturais que podem ser descobertas através da ciência. Logicamente, seu argumento é impecável. Do ponto de vista prártico, sofre de várias fraquezas graves.

SIM, MAS… Os cristãos concordariam que a vida moral tem características de lei, na medida em que prediz certos resultados para certas ações. Entretanto, se a lei moral é preditiva, não é determinista como as leis da gravidade ou do eletromagnetismo. Se fosse, a humanidade seria reduzida a autômatos servilmente obedientes a seu programa moral.

C.S. Lewis observou, certa vez, que a lei moral não descreve o que os seres humanos fazem, mas o que devemos fazer. Como tal, a lei moral não é discernível, cientificamente ou de outra maneira qualquer, a partir do comportamento humano real.

Harris diria, prontamente, que a moralidade define comportamentos que melhoram o florescimento humano e animal; sabemos, cientificamente, quais são muitos deles: cuidados médicos adequados, educação, saneamento e água limpa.

De fato, a ciência aplicada é responsável por dobrar a expectativa de vida humana nos últimos 150 anos e deixar o ar e a água mais limpos do que em qualquer época desde a Revolução Industrial. Por outro lado, os programas do início do século XX para a eugenia, a esterilização forçada e a reprodução seletiva foram moralmente justificados por razões científicas, assim como os argumentos atuais para a clonagem humana e a pesquisa predatória de embriões.

Isso revela outra fraqueza no argumento de Harris: se a ciência pode nos ajudar em direção a um resultado desejado, ela não pode nos dizer qual resultado devemos desejar.

Por exemplo, a tecnologia médica nos permite coletar células-tronco de um embrião, mas não nos diz se matar um ser humano no estágio inicial da vida é certo ou errado. A ciência não tem voz moral; é apenas uma ferramenta para agentes morais que atribuem valores às coisas.

Um amigo meu, médico e teologicamente liberal, me disse certa vez que se tivesse que escolher entre salvar a vida de uma criança recém-nascida ou de um macaco, ele se inclinaria na direção do último. Surpreso, perguntei por quê. “Porque o macaco tem um valor intrínseco”, respondeu-me. Eu revidei: “E a criança não? E de onde vem o valor do macaco?” Ele não tinha resposta.

Para tais questões, a ciência só pode dar de ombros. Sem critérios transcendentes, o cálculo de todo dilema moral é deixado para a classe privilegiada de seres considerados “pessoas”, cuja única pedra de toque é o capricho de suas preferências coletivas. E isso leva a um terceiro problema com o esquema da Harris.

QUEM É MEU PRÓXIMO? Não é nada fácil encontrar alguém que negue a probidade moral da Regra de Ouro. Tratar nosso próximo como gostaríamos de ser tratados foi reconhecido como um bem universal em quase todas as religiões e civilizações, desde o começo da história documentada.

O que ainda não foi universalmente reconhecido, no entanto, é quem seja realmente o nosso “próximo”. São aqueles que vivem na nossa rua, na nossa comunidade ou no nosso país? São aqueles que compartilham nossa fé, cor da pele ou visão política? São as pessoas do nosso grupo social, grupo de terapia ou grupo identitário?

Ou os nossos “vizinhos” são simplesmente os membros da nossa espécie? Certamente não, de acordo com meu amigo médico e o pessoal da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). Os seres humanos não têm posição privilegiada; pensar de outra maneira é “especismo”, uma visão ignorante tão abominável quanto o racismo ou o sexismo.

Um tempo atrás, uma lista de ativistas pró-animais lançou o Great Ape Project para elevar o status de primatas não-humanos a “pessoas”. Se fosse aceito internacionalmente, isso conferiria direitos de vida e liberdade aos nossos “próximos” símios (direitos que, atualmente, são negados a seres humanos no útero materno).

No entanto, não podemos supor que a Regra de Ouro se aplique apenas ao reino animal. Em 2008, as autoridades suíças aprovaram uma lei que protege a dignidade — sim, dignidade! — das plantas. A lei torna ilegal roubar a dignidade de uma margarida por decapitação e exige que os pesquisadores solicitem subsídios do governo para explicar como devem respeitar essa margarida, seja no campo ou no laboratório. Todos nós poderíamos desfrutar de uma bela risada se tudo isso fosse ficção científica, mas é muito sério.

Levando a lógica do governo suíço um pouco mais adiante, uma mãe tratando o impetigo de seu filho com Bactroban poderia ser acusada de assassinato em massa por matar bilhões de micróbios bacterianos, com o propósito frívolo de livrar seu pequeno do desconforto.

UM PRODUTO DA INTELIGÊNCIA. Harris está confiante de que a moralidade, baseada na ciência, enviará a religião para o museu das ideias desacreditadas. Eu não apostaria nisso. A vida moral, quando fundamentada na ciência ou em algum outro aspecto do mundo natural, está alicerçada na areia movediça.

A moralidade depende de um propósito; e propósito não vem das leis da física ou dos genes egoístas, mas de agentes inteligentes. Para as coisas criadas, o propósito vem de seu criador; para todo o resto, propósito é aquilo que seu usuário queira.

Consideremos uma pedra de rio e uma câmera digital. Uma pedra de rio não tem um propósito funcional e intencional. Sua forma, tamanho, cor e textura são efeitos aleatórios de forças geológicas, hidrológicas e de atrito. A falta de um projeto intencional significa que ela poderia servir para praticar skipping stone (arremesso de pedra na superfície da água) ou como peso de papel, conforme os gostos e desejos do usuário.

Uma câmera digital, por outro lado, é um instrumento de precisão que foi projetado  e desenvolvido para uma finalidade bem específica: capturar e gravar imagens por meio eletrônico. E, como acontece com todos os dispositivos de alta tecnologia do mercado, vem de fábrica com instruções operacionais para ajudar os proprietários a usá-la e dela cuidar adequadamente.

Um proprietário é livre para usar sua câmera como skipping stone ou peso de papel, mas perderá os benefícios de sua funcionalidade projetada. De fato, qualquer uso contrário às suas instruções de uso pode causar falha no produto e insatisfação do cliente.

A EVIDÊNCIA. Se não somos mais do que “pedras de rio”, então não há propósito último para a vida, nem maneira correta de vivê-la. Cada indivíduo pode fazer o que bem entender; ninguém tem autoridade moral sobre ninguém; e quaisquer valores compartilhados são legítimos, desde caprichosamente aceitos por 51% dos votos Em suma, esse tipo de moralidade se reduz a poder, seja da maioria democrática, do tirano autocrático ou do consenso científico.

Mas se somos “câmeras digitais”, nosso propósito e “instruções de uso” derivam de nosso Fabricante. É claro que somos livres para buscar um propósito diferente, fundamentado noutros lugares — seja na preferência pessoal, na opinião pública ou em descoberta científica —, mas provavelmente nos encontraremos no lugar onde começamos: insatisfeitos e inquietos.

A universalidade da Regra de Ouro sugere fortemente a última. Apesar do desacordo entre as milhares de religiões mundiais e dezenas de sistemas políticos e ideologias, há um acordo unânime sobre um código de conduta que exige a restrição de nossos impulsos naturais — impulsos que nos ajudaram a vencer a luta evolutiva da natureza. E, como mencionado, o código não é revelado pela observação da nossa conduta real.

É uma evidência o fato do código moral não ser uma invenção humana, nem uma cifra escondida na matriz material do cosmo, esperando para ser descoberta por um pesquisador vestido de branco; antes, é a essência daquele em quem “vivemos e nos movemos e somos”, conforme revelado em sua Palavra.

https://www.crisismagazine.com/2019/can-morality-be-grounded-in-science

[Regis Nicoll é engenheiro nuclear aposentado e membro do Centro Colson. Escreve artigos sobre fé e cultura. Seu novo livro se intitula Why There Is a God: And Why It Matters (Por que existe um Deus e por que é importante), publicado em 2017].