Escriva

Publicado pela primeira vez em 1934, numa versão reduzida e, depois, na versão definitiva, em setembro de 1939, Caminho, cuja 7ª edição brasileira acaba de ser lançada [esta resenha foi publicado em 1989], é um dos livros de espiritualidade que maior difusão atingiram neste século, numa tiragem total que supera os 3 milhões e meio de exemplares, em 38 línguas diferentes. Seu autor, bem conhecido como fundador do Opus Dei, é monsenhor Josemaría Escrivá, falecido em 26 de junho de 1975, e cujo processo de beatificação e canonização foi introduzido em Roma no dia 19 de fevereiro de 1981 [seria canonizado em 2002 por João Paulo II].

Não se trata de uma obra de psicologia, sociologia ou filosofia. Não é um ensaio. Não se pode também considerar unicamente como um desses livros de pensamentos sutis e certeiros, que atraem pelo seu valor humano e literário. E, menos ainda, um modelo de literatura de ocasião que desperta eco por tratar de temas em voga que logo envelhecem. Sem se incluir em nenhum desses gêneros, Caminho, a par do estilo inconfundível e do valor literário de rara expressividade, é acima de tudo um repertório de sugestões vivas, diretas, que, indo ao encontro do coração que procura o sentido da vida, desenham em pinceladas vigorosas o sólido ideário cristão.

O que, desde a primeira consideração do livro, domina o pensamento de mons. Escrivá, e que, sem dúvida, constitui o nervo da sua doutrina, é que “a vida cristã levada a sério, a santidade, não é coisa para privilegiados, pois podem ser divinos todos os caminhos da terra, todos os estados, todas as profissões, todas as tarefas honestas”.

Na verdade, os pensamentos de Caminho são “instantâneos” de um chamado à santidade que se dirige não a pessoas invulgares, mas a homens e mulheres comuns, desejosos de viver a vida com os olhos intensamente postos em Cristo, no “Caminho” que é a “Verdade e a Vida”. “Tens obrigação de santificar-te.” — Tu também. — Alguém pensa, por acaso, que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? A todos, sem exceção, disse o Senhor: “Sede perfeitos, como meu Pai Celestial é perfeito” (Caminho, nº 291).

Enraizado numa contemplação intima do Evangelho, seu autor anunciava, com o vigor de algo por estrear, todo um programa de vida para os cristãos comuns. Vinha dizer que para Deus não há acepção de pessoas, que ninguém, pelas suas circunstâncias, dotes ou cultura, deve limitar-se a praticar uma “versão rebaixada do Evangelho”. Abria a todos os caminhos da santidade, aos homens e mulheres anônimos, “cujos feitos não ficarão certamente inscritos no livro de ouro da História”; vinha ajudar a redescobrir que a sua vida tem uma significação divina, quando iluminada “com o resplendor da fé e do amor”.

Situado cada um na sua intransferível e concreta realidade diária, nela há de descobrir o rasto de Deus, sem escapismos de nenhum tipo. Não admira por isso que mons. Escrivá valorize as pequenas coisas de cada dia, as de hoje e de agora, encarando-as como caminho para um grande amor: “Fazei tudo por Amor. — Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. — A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo”. (Caminho, nº 813).

Esta descoberta do cotidiano, como algo donde “transborda a transcendência de Deus”, torna valioso não só o que se faz, mas o que se é, qualquer vida, ainda que aos olhos humanos não tenha mais importância que a de um pequeno parafuso numa máquina gigantesca: “Não sejas… bobo (…) Sabes o que significa o parafuso não apertar ou saltar fora do seu lugar? Cederão as peças de maior tamanho ou cairão sem dentes as rodas. Ter-se-á dificultado o trabalho. —Talvez se inutilize toda a maquinaria. Que grande coisa é ser um pequeno parafuso!” (Caminho, nº 830).

Como consequência desta doutrina — que dentro do mesmo estilo de Caminho teria prosseguimento com a recente publicação de duas obras póstumas, Sulco e Forja —, o trabalho profissional, aquele que ocupa a maior parte do tempo e marca a personalidade de cada um, é a primeira coisa a santificar: é, por assim dizer, a matéria-prima, sem a qual não se forja o cristão.

O trabalho não só não é o grande álibi para a fuga de Deus, mas o eixo de uma vida que queira seguir os passos de Cristo. Esta é a grande novidade, a boa nova, que mons. Escrivá colhia da meditação do Evangelho, sob um ângulo que permanecera inédito durante séculos. “Àquele que puder ser sábio, não lhe perdoamos que não o seja.” “Trabalha. Quando tiveres a preocupação de um trabalho profissional, melhorará a vida da tua alma” (Caminho, nº 332, 343).

Esta doutrina levou Deus a milhares de homens e mulheres, que se sentiram visitados por Ele no seu próprio ambiente e viram rasgar-se horizontes de profunda elevação espiritual.

(Resenha publicada no suplemento “Cultura”, do jornal O Estado de São Paulo em 21/10/1989)