IN VINO VERITAS

Já em 1921, durante sua primeira visita aos Estados Unidos, Chesterton ficara horrorizado com a ascensão do poder federal e corporativo e a consequente destruição de pequenos governos e pequenos negócios. Em uma entrevista a um jornal de Boston, ele aludiu ao abismo entre os ideais dos Pais Fundadores e a realidade da América moderna em termos que, um século depois, muitos endossariam:

“Se Patrick Henry voltasse à Terra e olhasse em volta na vasta ordem econômica do dia, ele poderia rever sua observação e simplesmente dizer “Dê-me a morte”, pois a alternativa seria manifestamente impossível sob as condições modernas.”

Deve-se notar que esta entrevista foi dada durante os primeiros dias da Lei Seca, em si um roubo de liberdade superior a qualquer coisa que Patrick Henry experimentou nas mãos dos britânicos. Compare, por exemplo, o roubo de liberdade implicado pela taxação excessiva do chá com o roubo de liberdade implicado pela proibição absoluta de bebidas fermentadas e destiladas. O que os pais fundadores pensariam de um governo autoritário que aprovasse tal lei? E como tal lei seria vista de uma perspectiva européia? Dessa última perspectiva, é de fato irônico, especialmente à luz dos ataques terroristas de 11 de setembro, que os Estados Unidos tenham uma afinidade doentia com o Islã em sua insistência, ainda hoje, em tratar vinhos, cervejas e destilados como drogas e não como bebidas. O álcool, deve ser lembrado, é uma palavra árabe. O vinho não é “álcool” mais do que o leite é “cálcio” ou “proteína”. Uma coisa não é definida por um de seus ingredientes, mas pelo que é em seu conjunto. Jesus Cristo não transformou a água em álcool! E por falar no primeiro milagre de Cristo, ai de quem procura reverter o milagre de Caná, transformando o vinho em água!

Considerando-se que ambas as visitas de Chesterton aos Estados Unidos ocorreram durante o período da Lei Seca, não é de surpreender que a perspectiva de Chesterton tenha sido usada no assunto:

“O grande problema [da Lei Seca] é que nós misturamos a causa e o efeito. Existem dois tipos de bebida. Se um homem está feliz, ele bebe para expressar sua felicidade. Essa é a boa bebida. Mas há também o caso do homem que está tão infeliz, que bebe para buscar a felicidade. Não se chega na raiz do problema, parando com a bebida. Para chegar à raiz, deve-se mudar o sistema industrial que o torna infeliz. Não se trata apenas de uma distribuição mais equilibrada da riqueza, embora isso conte muito. Mais que isso, devemos trazer de volta antigos costumes, danças, canções, crenças: as coisas que mantiveram o homem feliz antes que surgisse a indústria moderna.”

Chesterton parece estar dizendo que o problema da bebedeira nos bairros pobres não é a bebida, mas os bairros pobres. Se as pessoas estão bebendo para escapar do inferno em que vivem, a solução não é banir a bebida, mas o inferno. No entanto, deve-se admitir que os alcoólatras, distintos dos bebedores saudáveis, não estão interessados na bebida, mas na droga que encontram na bebida. Para essas pessoas, a droga é o inferno de que necessitam para fugir. No entanto, as bebidas fermentadas não devem ser proibidas porque algumas pessoas são alcoólatras, assim como o açúcar não deve ser proibido porque algumas pessoas são obesas. Chesterton resume todo o problema sucintamente em seu livro Heréticos, publicado em 1905:

“Uma nova moral explodiu sobre nós, com alguma violência, em ligação com o problema do alcoolismo; e os entusiastas do assunto variam: vão desde o homem que é violentamente jogado para fora do bar às 12:30, até a senhora que quebra bares americanos com um machado. Nessas discussões, quase sempre se sente que uma posição muito sábia e moderada é dizer que o vinho só deve ser bebido como remédio. Quanto a isso, eu me aventuro a discordar com especial ferocidade. A única maneira genuinamente perigosa e imoral de beber vinho é beber como remédio… Uma regra sólida nesse assunto parece ser como muitas outras regras sólidas — um paradoxo. Beba porque você é feliz, mas nunca porque é um desgraçado. Nunca beba quando estiver infeliz, ou será como o cachaceiro da cara inchada num cortiço; mas beba quando você pudesse ser feliz sem a bebida, e será como um risonho camponês italiano.”

A visão de Chesterton é claramente a da cristandade, da Europa cristã, como era claramente a visão do próprio Cristo quando ele realizou seu milagre na festa de casamento. Não é a visão de Maomé nem, parece, é a visão de uma certa linhagem puritana na América. Nessas coisas, parece que o espaço entre a mesa de chá dos partidários da Lei Seca e a taverna cristã é de fato mais larga que o Atlântico.

http://www.ncregister.com/blog/josephpearce/in-vino-veritas-chesterton-proposes-a-toast