Thomas More

São Tomás More, o humanista, o santo dotado de bom humor e de finura, foi uma das personalidades mais fascinantes do Renascimento e um homem de caráter exemplar no seu tempo, como o seria em qualquer época. O ilustre chanceler de Henrique VIII soube aliar o conhecimento das leis à profundeza da ciência teológica, a defesa da fé católica ao cultivo das letras clássicas, a inteligência às maneiras simples e ao espírito de oração. Advogado honesto, patrono dos pobres, cumpridor da lei divina e da humana, que ave mais rara do que essa na Renascença ou no nosso tempo? Com efeito, são múltiplas as facetas admiráveis desse grande santo leigo e inglês do século XVI. Soube ser cortesão íntegro, diplomata hábil, advogado, humanista, escritor e católico fervoroso, apreciador do ama nesciri et pro nihilo reputari, o ideal de vida preconizado pelo autor da Imitação de Cristo. Nasceu em 6 ou 7 de fevereiro de 1477/1478. Durante anos, prestou leal serviço ao rei Henrique VIII, mas como declarou à hora da morte, servia primeiro a Deus. Por se recusar a fazer o juramento que implicava a supremacia do rei sobre o papa e sobre a Igreja da Inglaterra, assim como a aprovar o divórcio de Catarina de Aragão, e o segundo casamento de Henrique VIII com Ana Bolena, Tomás More foi decapitado no cadafalso de Tower Hill às primeiras horas do dia 6 de julho de 1535. Ao seu acompanhante em direção ao cadafalso, declarou:  “Peço-lhe me ajude a subir, pois quanto a descer, eu o farei muito bem sozinho”. E ao verdugo recomendou que não lhe cortasse a barba, sempre honrada. Até o último instante, São Tomás More soube ser sereno e sem empáfia, e esteve na posse do seu humor.

Entre várias obras escreveu a Utopia, obra de crítica aos desmandos sociais da sua época. É fácil alguém afirmar hoje — como aliás se tem feito — que São Tomás More teria escrito uma obra de teor socialista e até mesmo de caráter revolucionário. E essa é a típica afirmação de quem toma a nuvem por Juno.

Pode-se observar, como dado básico e inicial, que o santo chanceler  de Henrique VIII não tinha ilusões sobre a possível transformação da sociedade num estado perfeito. Sabia dos seus limites, pois, como bom teólogo, tinha sempre em mente as tristes conseqüências do pecado original e a certeza de que o homem é portador das sementes do bem e do mal, e que estas vicejam em qualquer estrutura social. Assaz meditara o nosso Santo sobre a parábola do joio. Ademais, conhecia muito bem a advertência paulina: Non habemus hic manentem civitatem, não temos neste mundo morada permanente. No entanto, como bom advogado, cristão e homem de letras, São Tomás More não se furtou a denunciar as injustiças cometidas pelos potentados no início do século XVI contra os pobres, os humilhados e os ofendidos. E ainda hoje, a ilha de Utopia não passa de um sonho, mas a obra que descreve permanece um libelo e um testemunho da voz que clama contra a injustiça.

Karl Kautsky, na sua obra Thomas More and his Utopia, afirma que o socialismo de Morus (grafia latina do sobrenome) o tornou imortal, e que o seu caráter pessoal foi uma das causas do seu socialismo, uma vez que só nos países ao norte da Europa ocidental existiam condições materiais no século XVI, favoráveis à formação de um caráter tão desprendido, enquanto nas repúblicas mercantis da Itália e nas outras cortes românicas o egotismo — feição saliente do novo modo de produção — reinou de modo absoluto. E por aí vai o desconchavo de Kautsky (1). Na verdade, bastam algumas considerações para varrê-lo. Primeiramente, é um anacronismo chamar São Tomás More de socialista ou falar do seu socialismo, pois essa expressão, aplicada à Utopia e à situação histórica do século XVI, é completamente ambígua. São Tomás More criticou a autocracia dos príncipes renascentistas e os desmandos dos ricos no livro I da Utopia, e propôs através de curiosa fábula no livro II o ideal da vida comunitária que se teria realizado na sociedade pagã da ilha do rei Utopus. Esse ideal, entretanto, como o próprio Morus confessa, só seria possível, “quando todos os homens fossem bons”, o que não ocorre nem virá a ocorrer neste vale de lágrimas (2). O asserto de Kautsky de que o caráter desprendido e compassivo de São Tomás More seria devido à região europeia em que viveu, e de que o egotismo imperava soberano nos países católicos do sul da Europa, é ridículo e risível. Que caracteres mais egotistas que os de Henrique VIII e da rainha Isabel, para citarmos apenas dois exemplos famosos da mesma época do autor da Utopia? Que espíritos mais magnânimos, desprendidos e caridosos que os de São Camilo, São José de Calazans e Vitorino de Feltre na Itália, de São João de Deus na Espanha, e de São Vicente de Paulo na França, para lembrarmos tão só alguns nomes entre tantos outros numerosos benfeitores da humanidade nas terras latinas e católicas dos séculos XVI e XVII?

O caráter nobre e justiceiro de São Tomás More, a sua bondade, o senso de humor, a inteligência e a dedicação, foram qualidades pessoais e virtudes que ele desenvolveu na Inglaterra do século XVI, tal como homens e mulheres de todas as partes da Europa o fizeram na mesma época.

A Utopia divide-se em dois livros, um redigido nos Países Baixos, o outro em Londres, e ambos em latim. São Tomás More denominou-a inicialmente Nusquama, ou seja, terra que não se localiza “em parte nenhuma”. No livro I, ele denunciou as injustiças sociais que lavravam na Inglaterra, e lamentou a decadência moral de uma sociedade pseudocristã. More afirma que a principal causa do desequilíbrio social é a existência de grande número de nobres zangãos — idle as drones — que vivem à custa do suor dos trabalhadores. Outra causa é a multidão dos idle fellows, os locais desprovidos de habilidades especiais e que, uma vez desempregados, formam chusmas de mendigos famintos ou doentes. A terceira causa da crise social são as pastagens cada vez maiores, com incontáveis rebanhos de carneiros a cobrirem toda a Inglaterra, e cuja criação leva à expulsão dos humildes rendeiros para aumentar os bens de ricaços sovinas e atolambados. Finalmente, contam-se entre as “causas da miséria o luxo e as despesas insensatas. Diante desse panorama social desolador, São Tomás More propunha o remédio a que os seus contemporâneos, assim como os homens de hoje não souberam e não querem recorrer: frear o egoísmo incontido dos ricos avarentos, impedir o açambarcamento e o monopólio das mercadorias, desenvolver a agricultura junto com as manufaturas de lã e os outros ramos da indústria, para dar emprego à massa de homens que a ociosidade e a miséria converteram em ladrões, vagabundos ou lacaios. Essas ideias de São Tomás More eram fruto da sua consciência crítica e moral e da observação da sociedade em que vivia. Ele conheceu a cidade de Londres bem animada com os seus 50.000 habitantes mais ou menos. Habituara-se desde a infância, a percorrer as ruas, os mercados, as vielas dos mercadores e dos banqueiros, e as igrejas, assim como a ver a chegada e a saída dos barcos e a admirar a atividade dos pescadores, dos acrobatas e dos saltimbancos, e a enlevar-se com as procissões e os desfiles. Por conseguinte, o jurista, o intelectual e o cristão Tomás More teve, desde cedo em sua vida, experiência e exato conhecimento da situação dos trabalhadores urbanos e rurais, dos humildes e dos pobres, assim como no exercício da advocacia podia ouvir as queixas das pessoas exploradas e oprimidas, e saber das injustiças odiosas cometidas pelos ricos senhores e proprietários. Foi o espetáculo confrangedor da miséria e de vários outros abusos na Inglaterra no início do século XVI que o moveu à composição da Utopia bem como o levou a estimular o seu amigo Erasmo à elaboração da obra O Elogio da Loucura. A sátira de São Tomás More preconiza o ideal da prosperidade coletiva através da abolição da propriedade privada e da comunidade dos bens. Para isso, na ilha de Utopia as cidades só contam quinhentos habitantes, todos se dedicam aos ofícios úteis e aos estudos, pois dispõem de muito lazer para cultivar o espírito. O luxo é desprezado e o ouro, tido por coisa infame. O povo é pagão mas crê em Deus e na imortalidade da alma. Não há pobres nem mendigos, e todos vivem tranquilos, pois a riqueza do Estado é equitativamente distribuída entre os cidadãos. Daí a ausência de advogados na ilha de Utopia, já que não se precisa de chicana, e as poucas leis permitem a todos os utopianos serem doutores em direito. Belo sonho e fábula mordaz para os ingleses do século XVI e também para os homens de hoje que gostam de praticar a injustiça e se enfurecem contra os que a denunciam!

São Tomás More sabia muito bem que a perfeição não é deste mundo, e que até o Juízo Final os bons devem sofrer às mãos dos perversos e dos malandros. Por isso, quando Rafael Hythlodeu, valendo-se do argumento da ilha imaginária, propõe como panaceia para os males sociais a abolição da propriedade privada e a instauração da meritocracia, Tomás confessa não ver como o comunismo dos bens poderia forjar a perfeição social, já que todos os homens são seres visceralmente imperfeitos e estão sujeitos ao erro e ao mal.

“Parece-me”, diz More, que os homens não podem viver de modo conveniente numa sociedade em que todas as coisas sejam comuns” (3). Como já advertiu Andres Vazques de Prada na excelente biografia de São Tomás More, não deve ler a Utopia quem não dispõe de humor e de inteligência. Na narrativa feita por Rafael Hythlodeu o leitor não distingue facilmente a diferença entre o que nela é descrição da vida real e narrativa puramente imaginária. Leve-se em conta que Hythlodeu é nome próprio composto de dois étimos gregos, e significa “contador de lorotas ou lérias”. Foi esse o nome que São Tomás More escolheu para o navegante português que visitou e descreveu a ilha de Utopia. Amauroto, a capital da ilha, significa, por sua vez, “obscuro”, “entre brumas”, enquanto o caudaloso rio que a banha é o Anydro, isto é, o rio “sem água”. Além disso, é preciso saber que na sua proposta da cidade ideal, São Tomás More inspirou-se no amor à vida comum própria dos monges, e que ele experimentou no mosteiro dos Cartuxos (Chaterhouse) de Londres, durante os quatro anos em que lá permaneceu como hóspede, a compartilhar dos ofícios religiosos e da vida ascética sem abandonar as suas atividades profanas, pois continuava a ministrar conferências, a estudar casos jurídicos e a discretear com os amigos. Ademais, tocado pelo ideal de pobreza do Poverello de Assis, sentiu-se atraído pela Ordem franciscana que conhecera em Oxford. Por conseguinte, sobre haver tecido uma crítica inteligente na sua obra Utopia às situações sociais injustas, São Tomás More revelou a sua predileção por um tipo de vida semelhante à vida comum dos cartuchos e dos franciscanos (4). Ele não propôs o ideal de uma sociedade comunista ateia nem exaltou a luta de classes mas sonhou com uma sociedade mais justa, ao pensar na vida primitiva da Igreja de Jerusalém, quando “todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um” (5). Aí se acha a fonte inspiradora do pensamento social de São Tomás More.

No drama com que poetas ingleses honraram a sua memória, Sir Thomas More, uma mulher do povo dele se despede com um verso que encerra o segredo da inspiração cristã da Utopia:

“Farewell, the best friend that the poor e’er had”. Adeus, More, o melhor amigo que os pobres jamais tiveram.

Kautsky não sabia nem entendia dessas profundas motivações do santo mártir, que é a figura mais sugestiva e completa do Renascimento, posto pela Providência como um arauto no pórtico da Idade Moderna.

Notas

1. Karl Kautsky, Thomas More and his Utopia, translated by H.J. Stenning. London, A. and C. Black Ltd, 1927, pág. 159 e 162.

2. “For except all men were good everything cannot be right, and that is a blessing that I do not at present hope to see. Utopia by Thomas More. Versão modernizada da tradução feita por Robinson, em 1551, a partir do original latino, in More’s Utopia and its critics. Chicago, Scott, Foresman and Company, 1964, pág. 19.

3. “On the contrary, answered l, it seems to me that men cannot live conveniently, where all things are common”. Utopia, in More’s Utopia and its critics, pág. 21. “A importante lição de ‘Utopia’, diz Edward Surtz S.J., é que cada pessoa na Inglaterra e em toda a Europa deve adquirir o espírito da vida comum. Esse espírito manifesta-se antes de tudo no sincero desprendimento do coração quanto às riquezas e à posição social, e na apaixonada adesão à causa da justiça e do pobre”. Edward Surtz, S.J., “Thomas More and Communism: The Solution”, The Praise of Pleasure. Cambridge, Harvard University Press, 1957, pág. 180 e 181.

4. Segundo Nicholas Harpsfield, o grande biógrafo de São Tomás More no «século XVI, este viveu no mosteiro dos cartuchos, a fim de verificar se tinha vocação para esse gênero de vida, “eyther to see and proue whether he could frame himself to that kind of life…” N. Harpsfield, The life and death of Sir Thomas More, Knight, sometimes Lord high Chancellor of England. London-New York-Toronto (The Early English Text Society), Oxford University Press, pág. 17. No escorço biográfico de São Tomás More, o seu grande amigo Erasmo observa que o autor da Utopia estudou-se a si próprio e rezou bastante para saber se tinha vocação para o sacerdócio, já que More apreciava a sua profissão de advogado, os seus estudos humanísticos, a doce companhia e o convívio das mulheres. Por isso, diz Erasmo, “maluit ígitur maritus esse castus quam sacerdos impurus”, preferiu ser marido casto a sacerdote impuro, como era tão comum em seu tempo. E com isso More veio a provar que também se encontram cristãos na sociedade e não apenas nos mosteiros, “et postea sunt qui putent Christianos no inveniri misi in monasteriis”. Erasmi epistolae   ed. Allen, T.IV, Oxford, 1922, pág. 21.

5. “Atos dos Apóstolos”, 2, 44

(Em “Suplemento cultural”, jornal O Estado de São Paulo, 25/02/1979)