La-Dormition-de-la-Vierge

Outro mistério para o espírito moderno: não se sabe nada sobre o fim de Maria, que pode ter sido enterrada em Gêtsemani, no vale de Cedron, em Jerusalém. Para evocar seu fim glorioso e sua passagem para a vida celeste, os católicos falam da Assunção e os ortodoxos da Dormição.

Essas fórmulas escondem significados teológicos bem próximos: ambos supõem que o corpo de Maria, preservado da corrupção, foi elevado ao Céu. Mencionada desde  o século II e elevada a dogma por Pio XII em 1950, a tradição da Assunção reencontra o fato histórico: em nenhum momento, mesmo na Idade Média cristã, que produziu milhares de falsas relíquias, não se venerou relíquia corporal de Maria.

Sem dúvida, a mãe de Jesus suscitou, desde muito cedo, um fervor e alguns excessos que apelavam para um discernimento crítico. Como reação a certos exageros, o protestantismo manterá uma aproximação mais reservada em relação a Maria, mesmo Lutero e Calvino tendo   reconhecido nela “a que gerou Deus”. No século XX, porém, o teólogo Karl Barth esforçou-se por reabilitar Maria a partir da Reforma.

No Islam, ao contrário, a veneração de Maria se apoia não sobre a mãe de Deus, mas sobre a mãe de Issa (Jesus), que é um simples profeta.

Sobre as 2400 aparições da Virgem, documentadas por historiadores, uma ínfima parte é reconhecida oficialmente pela Igreja (v. René Laurentin et Patrick Sbalchiero (dir.), Dictionnaire des « apparitions » de la Vierge Marie, Fayard, 2007). Entre essas, brilham as de Guadalupe no México, Lourdes na França, Fátima em Portugal, Zeitoun no Egito ou Kibeho em Ruanda. As aparições marianas não são um artigo de fé — nenhum cristão está obrigado a nelas crer —, mas na realidade alimentam uma piedade popular que atravessa séculos e fronteiras.

Tamanho é o poder de atração de Maria, que ela está presente não somente nas orações dos cristãos, mas às vezes naqueles que perderam a fé, como escreve um poeta morto há cem anos, Guillaume Apollinaire (In Le Guetteur mélancolique):

“Quand j’étais un petit enfant/Ma mère ne m’habillait que de bleu et de blanc/O Sainte Vierge/M’aimez-vous encore/Moi je sais bien que je vous aimerai/Jusqu’à ma mort/Et cependant c’est bien fini/Je ne crois plus au ciel ni à l’enfer/Je ne crois plus je ne crois plus/Le matelot qui fut sauvé/Pour n’avoir jamais oublié/De dire chaque jour un Ave/Me ressemblait me ressemblait.”

(“Quando eu era criança/ Minha mãe só me vestia de azul e branco/ O Santa Virgem/  Vós me amais ainda/ Eu,  eu sei bem que  vos amarei/ Até a minha morte/ E entretanto tudo está acabado/ Não acredito mais no céu nem no inferno/ Não creio mais, não creio mais/ O marinheiro que foi salvo/ Por não ter jamais esquecido/ De dizer cada dia uma Ave Maria/ Parecia comigo, parecia comigo.”)

https://www.jeansevillia.com/2018/12/22/qui-etait-vraiment-la-vierge-marie/