Marie3

No silêncio de Nazaré, Maria “guardava todas essas coisas em seu coração”, escreve São Lucas (2, 51). Só gradualmente ela avaliará o sentido do que meditava, até chegar o Calvário, ao qual Simeão já tinha aludido. Enquanto Jesus crescia, Maria  vivia sua vida em Nazaré, perto da oficina de José.

Quando ele começa sua pregação, ela companha suas duas primeiras viagens a Jerusalém. Convidada junto com ele para  as bodas de Caná, é ela que sugere seu primeiro milagre – mudar a água em vinho. Ela está com ele em Jerusalém, durante a Páscoa do ano 30, e se encontra aos pés da Cruz onde seu filho, antes de morrer, a entrega a seu discípulo João (Jo 19, 26-27).

Em Pentecostes, Maria está no cenáculo onde os discípulos, que formam a Igreja nascente, recebem a efusão do Espírito. O Novo Testamento não precisa quando nem como ela deixa este mundo, mas a tradição relata que ela findou sua vida ao lado do apóstolo João – em Éfeso (hoje Turquia), segundo algumas fontes que contradizem os dados arqueológicos –, ou mais seguramente em Jerusalém.

O único título que Maria deu a si por duas vezes (Lc 1, 38 e 48) é o de “escrava” ou “serva”. Com humildade e simplicidade, essa mulher pobre aceitou sua missão: dar uma existência humana ao filho de  Deus.

Mas  a Igreja antiga não lhe rendia culto nenhum. Para René Laurentin (Dictionnaire des religions, sob a direção de Paul Poupard, PUF, 2007), as razões são a exclusividade do culto devido ao Cristo, os preconceitos do meio atenuando a atitude inovadora do cristianismo que, pelo batismo, colocava em igualdade homens e mulheres, e a vontade    de não confundir a Virgem com as  deusas pagãs.

Foi por um longo trabalho de estruturação teológica, efetuada a partir das Escrituras e da Tradição, que a mãe de Cristo tomará seu lugar dentro da religião cristã. Venerada desde o século II, Maria é qualificada, desde o século II, de Theotokos, do grego Theos, “deus”, e thokos, “nascimento”: aquela que deu à luz o próprio Deus.

Mas em 428 Nestorius, o patriarca de Constantinopla, contesta esse qualificativo, sob o pretexto de distinguir em Jesus uma pessoa divina e uma pessoa humana. Em 431, o concílio de Éfeso condena a doutrina de Nestorius — o nestorianismo — e confirma o título Theotokos a Maria.

Em 451, o concílio de Calcedônia esclarece a dupla natureza de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerado do Pai em virtude de sua natureza divina e gerado por Maria Theotokos em virtude de sua natureza humana. (Continua)

(Em https://www.jeansevillia.com/2018/12/22/qui-etait-vraiment-la-vierge-marie/)