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Aquela que deu Jesus à luz, há mais de 2000 anos, é objeto de uma piedade popular universal, manifestada principalmente por grandes peregrinações e a execução de inúmeras obras de arte. Mas quem é verdadeiramente essa mulher no coração da fé cristã e, no entanto, tão pouco nomeada em nossos Evangelhos?

 Comemorado desde o século III, no dia 25 de dezembro, o nascimento de Cristo, que põe Jesus em cena na manjedoura cercado por José e Maria, é um dos assuntos mais tratados da arte religiosa ocidental.

Paradoxalmente, entretanto, a Natividade é objeto, por parte dos evangelistas, de uma lacônica narração. Mateus  se contenta em dizer que Jesus nasceu “em Belém da Judeia nos dias do rei Herodes”, e que, convocados por ele, os magos voltaram para sua terra, e viram “a Criança com Maria, sua mãe” e se prostraram diante dela (Mt 2, 1- 12).

Lucas, um pouco mais explícito, conta que a Criança veio ao mundo durante uma viagem imposta a José por um recenseamento; e que, não encontrando lugar nas hospedarias de Belém, Maria teve que dar à luz em precárias condições, acomodando o recém-nascido “numa manjedoura”. (Lc 2, 1-7).

Milhares de pinturas, desenhos e esculturas, por pelo menos dezesseis séculos, representaram Maria e seu filho. Todavia, ignoramos a verdadeira fisionomia dessa mulher, mesmo que a tradição afirme que o evangelista São Lucas tenha pintado um ícone da Mãe de Deus, que teria entregue a seu discípulo Teófilo, e que a imperatriz Eudóxia, viúva de Teodósio o Jovem, no século V, o teria recuperado na Palestina. Uma cópia desse ícone está na Capela de Santa Maria Maior (Pascal-Raphaël Ambrogi & Dominique Le Tourneau, Dictionnaire encyclopédique de Marie, Desclée de Brouwer, 2015.).

Maria, no entanto, não é um personagem de ficção: desde que a existência de Jesus é atestada, a de sua mãe, por definição, também o é. Os fatos são conhecidos pelos Evangelhos. Jesus nasceu na época do rei Herodes o Grande, que morreu no ano IV antes de J.C.

Tendo sido fixado o início de nossa era no século VI, por Denys Le Petit, com um erro de alguns anos em relação à cronologia romana, Cristo terá vindo ao  mundo  antes dessa data. Oito dias após seu nascimento, foi nomeado Jesus e circuncidado de acordo com a lei judaica.

José e Maria, em seguida, a fim de escapar às perseguições de Herodes, que havia mandado matar as crianças de menos de dois anos em Belém, fugiram para o Egito. Só retornaram à Galileia após a morte do rei.

Sobre a infância de Jesus, referida somente por Mateus e Lucas, não sabemos quase nada. Os quatro Evangelhos, ao contrário, falam de João Batista, pregador popular que, acampado às margens do Jordão no ano 27 da nossa era, anuncia a chegada iminente do reino de Deus e dá, como sinal, o batismo por imersão no rio.

Por sua vez, Jesus se deixou batizar por ele, mas João o designa como o messias anunciado pelos profetas e esperado pelos Judeus. Pelo ano 28, ao fim de uma temporada no deserto, Jesus começa seu ministério, pregando na Galiléia e na Judéia, multiplicando os milagres. Sua primeira viagem a Jerusalém pode ser datada na Páscoa do ano 28 (expulsão dos mercadores do Templo).

A multiplicação dos pães, segundo os exegetas, aconteceu um ano mais tarde, na Páscoa do ano 29. Nessa época, a população quer proclamá-lo rei de Israel e desencadear a revolta contra os Romanos que ocupam o país. Indagado sobre isso, Jesus responde que o seu reino “não é deste mundo”.

Em companhia de seus discípulos, ele ainda volta quatro vezes a Jerusalém. Os historiadores concordam sobre o fato de que ele foi preso, julgado e condenado à morte, em Jerusalém, durante a Páscoa do ano 30, sob o reinado do imperador Tibério e a administração  romana do prefeito Pôncio Pilatos. A vida pública de Jesus durou três anos.

A respeito de Maria, ao contrário, os Evangelhos guardam grande discrição. Lucas cita seu nome doze vezes, Mateus cinco e Marcos uma só vez.

Maria, Myrian em hebraico ou aramaico, Mariam ou Maria em grego, aparece também nos Atos dos Apóstolos, um livro do Novo Testamento atribuído a Lucas, assim como nos apócrifos, escritos no início da Evangelização, aos quais a Igreja não reconhece status canônico, e cujos autores não são reconhecidos ou verdadeiramente identificados, mas cuja antiguidade e autenticidade não são contestados, o que lhes confere um valor histórico.

O Protoevangelho de Jacques, que data do século II, retoma as narrativas populares que não podem ser negligenciadas, vinda de uma sociedade em que os conhecimentos se transmitiam frequentemente de forma oral. Esse texto relata que Maria nasceu de pais idosos, Ana e Joaquim.

Jean-Christian Petifils (Dictionnaire amoureux de Jésus, Plon, 2015) relata que eles nasceram do mesmo clã davídico que José, o carpinteiro de Nazaré, considerado herdeiro direto da dinastia, a quem deram a filha em casamento. Nessa época, entre os Judeus, os noivados tinham um caráter de aliança definitiva, obrigando à fidelidade, e a coabitação só era permitida ao final de um ano, quando se casavam.

Ora, Maria, jovem de 14 ou 15 anos, havia  feito, por razões religiosas, voto de virgindade perpétua, sem que se saiba se esse voto era secreto.

Na cena da Anunciação, Lucas descreve a revelação que Maria, ainda noiva, recebe em Nazaré. O anjo Gabriel anuncia-lhe o nascimento de Jesus: “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi”.

Maria se assusta, pois era virgem; o anjo responde: “O Espírito Santo virá sobre ti […] O ente santo que nascerá será chamado Filho de Deus.” Maria então consente: “Eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua     palavra” (Lc 1, 26-38).

Mais tarde, em visita a sua prima Isabel, que estava grávida do profeta João Batista, Maria enche-se de alegria, no episódio da Visitação, no canto do Magnificat: “Minha alma glorifica o Senhor e meu espírito exulta em Deus meu salvador, porque viu a humildade de sua serva”(Lc 1, 39-56).

José, porém, sabe do estado de sua futura esposa, grávida “antes que tivessem cohabitado”. Segundo o evangelista Mateus, este “homem justo, que não queria   desrespeitá-la, resolve repudiá-la em segredo.” Mas ele recebe em sonho a visita do anjo do Senhor: “”José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo” (Mt 1, 18-20)

Assim o humilde carpinteiro compreendeu que o desejo de Deus era que Maria tivesse um marido que a protegesse, e seu filho um pai adotivo.

Lucas narrou o seguinte: o nascimento de João Batista, ao qual seguiu, seis meses mais tarde, o nascimento de Jesus e a chegada dos pastores, a circuncisão do menino no oitavo dia, a sua apresentação  no Templo quarenta dias depois do nascimento, e a profecia do velho Simeão a Maria: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassa­rá a tua alma”. (Continua)

(Em https://www.jeansevillia.com/2018/12/22/qui-etait-vraiment-la-vierge-marie/)