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[Neste artigo, publicado pelo antigo “Suplemento literário” do Estadão, o crítico literário Wilson Martins, agnóstico, resenha o livro do jornalista católico Alfredo Lage A recusa de ser. A falência do pensamento liberal. Alfredo Lage era próximo de Gustavo Corção e, como ele, preocupava-se bastante com o que acontecia então com a Igreja pós-conciliar, sobretudo o poder que os modernistas iam conquistando na hierarquia. Wilson Martins reage como um típico liberal às ideias catolicamente ortodoxas de Alfredo Lage. No final, porém, depois de várias incompreensões em relação à Igreja, lembra o autor da História da inteligência brasileira que as “afinidades naturais da Igreja enquanto instituição vão muito mais no sentido do pensamento reacionário do que no seu oposto”, e admitia que a ascensão dos modernistas e progressistas era um empreendimento verdadeiramente suicida. Ou seja: adaptar a Igreja ao mundo era o mesmo que destruí-la.]

O pensamento reacionário é, substancialmente, aquele que não ”aceita” como fatos históricos nem a Reforma, no plano espiritual, nem, no plano político, a Revolução Francesa. É uma recusa sistemática do “moderno”, qualquer que ele seja; não será sem razão que, no interior da Igreja Católica, ele adquiriu o nome particular de “integrismo” — porque deseja manter intacta a “integridade da fé” — por oposição ao “modernismo”, que sempre foi visto como a grande heresia englobando todas as outras (ainda que, a longo prazo, acabe por instalar-se nos hábitos e passe a constituir, por sua vez, um novo integrismo).

Talvez não seja de todo inútil acentuar que não discuti aqui a validade intrínseca daqueles dois acontecimentos, nem as suas consequências, boas ou más, conforme os pontos de vista; trata-se, apenas, de marcar as posições de princípios que enquadram no seu contexto intelectual o livro de Alfredo Lage A recusa de ser. A falência do pensamento liberal (Rio de Janeiro, Agir, 1971 ).

No vocabulário da reação, “modernismo” e “liberalismo”‘ são palavras sinônimas; Alfredo Lage não combate o mal por ser moderno, mas o moderno, por ser o mal; quanto ao pensamento liberal, escreve ele, simples “etapa” na “trajetória conjeturável do homem para realização cabal de suas virtualidades sobre a terra”, representa, “na melhor das hipóteses, um desvio, um compasso de espera ou uma parada morta” (p.11). O seu livro demonstra, ao contrário, involuntariamente, é verdade, que a história do homem é a história das suas conquistas liberais; afirmar que o “mundo nascido da revolução liberal é um mundo em estado de permanente subversão” (p. 17) implica, por um lado. evidente inexatidão factual e, por outro lado, uma visão estranhamente limitada da história. Com efeito, não é o pensamento democrático que resulta da Revolução Francesa (de onde Alfredo Lage data a “revolução liberal”), mas esta última que decorre daquele, assim como nele se originaram, desde a mais remota antiguidade, todos os movimentos sociais que acrescentaram ou introduziram uma parcela de liberdade, de dignidade pessoal ou de mera humanidade, onde ela antes não existia. Basta lembrar, para nos atermos aos singulares limites cronológicos deste volume, os resultados da “obra desagregadora do liberalismo”, tais como são enumerados pelo autor: “Abolição dos ‘privilégios’, discriminação contra o clero e as instituições eclesiais, centralização da administração e do ensino, expulsão das Ordens e Congregações religiosas, separação da Igreja e do Estado; doação do salário individual e do assistencialismo estatizado, proletarização das comunidades rurais, formação individualista nas escolas, lei do divórcio, monopólio estatal da educação, abolição das antigas divisões territoriais autônomas (substituídas por departamentos administrativos), etc.” Todos esses nefastos resultados do pensamento liberal  prolongaram-se em nossos dias, acrescenta ele, “com as campanhas pela liberdade contraceptiva, a legalização do aborto, a abolição total da censura, o reconhecimento legal da homossexualidade, a legalização de eutanásia, a oficialização da Universidade contestatária etc.” (p.57). No quadro histórico do mundo contemporâneo, ele não distingue entre o bom e o menos bom, entre o ótimo e o péssimo: tudo deve ser rejeitado por ser liberal, é a noção mesmo de liberalismo que cai sob anátema como suprema heresia. Mais ainda: é a razão do homem, o “ideal racionalista”, que deve ser esmagada sem maiores hesitações; dos autores espirituais, os princípios do Doutor comum e as advertências dos papas, de Pio IX a Paulo VI (p.143).

E, ainda assim, o Sumo Pontífice gloriosamente reinante não merece toda confiança: é um ‘”temperamento voluntarioso e até obstinado” que, ao contrário de Alfredo Lage, sofre da deplorável tendência de “reconhecer o bem onde quer que ele se encontre” e de “fazer justiça ao átomo de Verdade que se esconde no fundo dos piores erros” (p. 344). A consequência é que ele tem desorientado “muita gente habituada a esperar do chefe dos apóstolos a palavra final e decisiva'”. São expressões de Henri Rambaud que o autor deste livro faz suas; no paralelo das virtudes pontifícias de Pio X e Paulo VI, estabelecido pelo escritor francês com nítida vantagem para o primeiro, Alfredo Lage propõe implicitamente o modelo a seguir: Pio X condenava o erro (isto é, orientava-se pela repressão), enquanto Paulo VI proclama a verdade  (ou seja, deixa-se  guiar pelo laxismo). Essa “colocação”, sendo minhas as expressões entre parêntesis, parece exata a Alfredo Lage; mas não é ela a fonte principal da “desorientação” que desce do sólio de São Pedro: “Pio X condenava, evidentemente, mas não descurava por isso o ensinamento positivo das verdades da fé; promovia-o quanto estava em seu poder; ao passo que Paulo VI faz o possível para que esse ensinamento positivo não seja acompanhado por nenhuma recusa, a não ser a recusa da recusa”. São, ainda, palavras de Henri Rambaud, a quem Alfredo Lage acrescenta um comentário: “E eis aí onde, a meu ver, se introduz um desequilíbrio. Ou por outra, uma coisa é a atitude do Papa, outra essa atitude glosada por certas correntes influentes e repercutida nos escalões inferiores da hierarquia. O Papa talvez não leve em conta suficientemente que nada há mais autoritário do que sua abstenção e nada mais intimidante do que a sua tolerância, mormente depois que essas atitudes foram elaboradas (melhor diria decantadas e liquidificadas) pelos demolidores da Igreja nas retortas de suas máquinas condicionadoras do pensamento” (p. 346).

A verdade é que a Igreja está minada pelo interior: “Ninguém ignora que há forte infiltração comunista no clero. Padres agitadores, padres guerrilheiros, padres técnicos em terrorismo são enviados da Europa a fim de organizar a subversão na América do Sul. Ninguém desconhece (o próprio Papa o afirma   numa encíclica)  que  há  uma recrudescência do modernismo na Igreja. E que pululam as faIsas doutrinas. Há organizações paracomunistas da juventude católica. E teólogos de renome pregam o historicismo e a socialização marxista” (p. 258-259). Tudo isso não seria nada se o comando mesmo da subversão não se localizasse em Roma e daí expedisse as instruções para a revolução mundial: “No âmago dessa trama espalhada em todos os países importantes, com ramificações em jornais como Le Monde, La Croix, o New York Times, etc., em revistas como Concilium, Commonweal, The Critic, Vozes e muitas outras; em editoras como Herder , Burns and Oates, Sheed and Ward, etc., encontramos o IDO-C, que é um Centro de Coordenação de Comunicações e um centro difusor de documentos (originariamente destinado a fornecer documentarão de bispos, teólogos, intelectuais etc. durante e após o Concilio) e um Centro de difusão de informação religiosa com sede em Roma. A revista católica Approaches, de Inglaterra, publicou um artigo em que expunha a origem, a estrutura, a composição e as relações do IDO-C com o movimento Pax, com sede na Polônia e dirigido — conforme denúncia do Cardeal Wiszhinsky — por urna organização comunista de “intelligentsia” (p. 342).

Será inevitável concluir diante disso e dos demais esclarecimentos fornecidos por Alfredo Lage a respeito da “hierarquia paralela”, dos ”órgãos clandestinos e anônimos” e das posições assumidas por pensadores e teólogos eminentes como Maritain, Emmanuel Mounier e o jesuíta Henrique Lima Vaz, que há, pelo menos, uma forte corrente oficial de “modernismo” dentro da Igreja, tão legítima e importante quanto a que ele próprio representa e que se identifica pelo nome de “integrismo”. Claro, ele nega veementemente a existência mesmo deste último: trata-se, ao que parece, de uma invenção descabelada de Jacques Maritain (p. 43). Quando Alfredo Lage denuncia os erros dos “modernistas” “progressistas’* e “liberais”, apresenta-os como fatos, prsonalidades e doutrinas realmente existentes; quando estes últimos se referem ao “integrismo” e o combatem, estão apenas promovendo um procès d’intention (p. 44). Integrismo é um ente retórico, um monstro da fantasia, um espantalho moral fabricado (sic) por Maritain para desculpar a detestável existência do modernismo (p. 305) e para fazer passar a torta envenenada de Mounier” (p. 301) ou o neomarxismo  de Lima Vaz. Maritain, de resto, está na fonte não apenas dos erros doutrinários e dogmáticos do modernismo, mas também mas, também, na do terrorismo urbano e dos movimentos contestatários: há “estreita continuidade” entre “o ideal do Estado laico cristão preconizado em Humanismo integral, o programa da “democracia cristã” instaurado no Chile, e o terrorismo de Saul Alinsky (p. 297). É que, para Alfredo Lage, assim como a razão é odiosa e necessariamente herética, os intelectuais são os grandes responsáveis pela enorme desordem do mundo moderno.

E essa será, creio eu, a principal característica do pensamento reacionário: a sua hostilidade contra a inteligência livre. “A despeito das funções exercidas por burocratas, como também por ativistas e agitadores”, escreve Alfredo Lage, “são intelectuais os que montam e dirigem esses laboratórios onde se exercita a elite da Revolução. Tal foi o papel das sociétes de pensée no século XVIII, como também o das células dos partidos revolucionários nos séculos XIX e XX, e o das sociedades secretas dos modernistas denunciadas por São Pio X. O mesmo acontece com os grupos  proféticos na Igreja de hoje. É relevante o papel dos intelectuais na preparação de todas essas subversões. As grandes apostasias da Idade Moderna nasceram de defecções da intelligentsia, como diz o provérbio norueguês: “É pela cabeça que o peixe apodrece”. Também na Igreja são membros da elite intelectual — teólogos, professores, historiadores, escritores etc. — (haja vista o papel desempenhado na sedição de hoje pelos chamados “peritos conciliares”), são intelectuais que propagam a onda de modernismo e que, mais tarde, estouram as comportas do dogma, da disciplina e da tradição para deixar passar a enxurrada do progressismo que atualmente desaba sobre a Igreja” (p. 341). O que, digamos entre parênteses, faria qualquer outro refletir.

É preciso admitir, contudo, em favor de Alfredo Lage, que ele tem razão de encarar o “modernismo” como o anticorpo da Igreja por excelência: a expressão “civilização moderna”, escrevia o padre Meinvielle, que ele cita e aplaude, “representa outra concepção do homem, com outra escala de valores” (p.285) De Gregório XVI a Leão XIII e Pio X, “a Igreja não cessa de cominar (ou fulminar) contra a ideologia burguesia — o liberalismo — e contra o espírito moderno numa série de condenações decisivas” (p.302)

Não apenas a Igreja, por definição e fora de qualquer intenção polêmica, é e não pode deixar de ser antimoderna e antiliberal, como, por outro lado, seria inegável que sempre houve, por parte da civilização moderna, o que Alfredo Lage denomina uma “insanável hostilidade” contra a Igreja (p.325). As afinidades naturais da Igreja enquanto instituição vão muito mais no sentido do pensamento reacionário do que no seu oposto; cabe perguntar, em conclusão, se os modernistas e progressistas não se meteram numa empresa que só deixará de ser contraditória para ser suicida.

(“Suplemento literário” do jornal O Estado de São Paulo, 19/12/1971)