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Con Juan Pablo II en Roma.

Sim. Creio que o homem é inevitavelmente religioso — ou irreligioso, o que é uma forma de religião. O homem tem uma vida limitada, um horizonte misterioso na sua vida. E o significado da vida humana, globalmente, depende do que a pessoa considere como seu término. Se sei que minha morte significa a aniquilação, as coisas têm um sentido; se a morte é o começo de outra forma de vida, então o sentido é outro. Portanto, para que eu saiba o que vou fazer, e para fazer algo responsavelmente, preciso contar com outra vida, ou então excluí-la e ter uma situação “agônica”, nas palavras de Unamuno.

Por conseguinte, a dimensão religiosa afeta o homem, queira ou não. O que acontece é que muitos homens, hoje, querem evitar o problema. Agora há homens que aceitam a ideia da aniquilação com uma estranha naturalidade. Aceitam-na sem mais, parece-lhes bom, óbvio. A ideia da aniquilação deixaria Unamuno simplesmente desesperado. Ele dizia: “Eu não me demito da vida. Serei destituído dela”.

Pensei muito sobre como o homem contemporâneo aceita com tanta naturalidade a mortalidade total. E cheguei a uma conclusão que não sei se é verdadeira: é pelo anseio de segurança. O homem tem uma paixão pela segurança, social e outras. E o desejo de segurança conduz à certeza da aniquilação. Porque uma pessoa que tem fé em outra vida sempre tem dúvidas. Dúvidas, no mínimo, quanto ao desenlace: vai salvar-se, vai ser condenado? Isso é inseguro. Mesmo supondo que tivesse fé total em sua salvação, como será a outra vida? Isso também é inseguro. E a insegurança horroriza o homem de nossa época. Ele prefere aniquilação à insegurança. Mas a longo prazo, isso não se pode sustentar, e por isso aparece o elemento religioso. Mas a importância do religioso não quer dizer forçosamente a importância do cristianismo, muito menos a influência do papa João Paulo II e de suas viagens.

A propósito, o que é mais importante no papa atual [João Paulo II] é que ele está devolvendo à religião o seu caráter religioso. Há uma ideia muito difundida de que os problemas do homem, ou os males do homem, são de caráter econômico e social. Muitos o são, mas não os mais importantes. O fato de que o homem envelheça, de que tenha de morrer um dia e não saiba o que vai acontecer com ele — nada disso tem a ver com a economia ou com o regime político ou social. São problemas absolutamente últimos de todo homem, em toda época, em toda situação. São problemas que estamos tentando ocultar, negar, supondo que tal ou qual sistema político, social ou econômico poderá solucioná-los.

(“Uma entrevista com Julián Marias”, Suplemento Cultura, jornal O Estado de São Paulo, 12/10/1980)