allers2Rudolf Allers, psiquiatra e filósofo católico, nasceu em Viena em 1883. Seu pai era físico, mas interessava-se pelas humanidades. Estudou medicina na Universidade de Viena, onde frequentou as últimas lições de Sigmund Freud (em relação a ele e à psicanálise, sempre manteve uma posição bastante crítica). Formou-se em 1906, alternando a prática de clínico geral com estudos bioquímicos em laboratório. Logo começou a se interessar por neurologia, realizando importantes estudos sobre percepção sensorial. Finalmente, ele se especializou em psiquiatria (1908) e trabalhou como assistente de Kraepelin, um dos pilares da moderna psicopatologia. Exerceu sua profissão e seu trabalho de pesquisa nas Universidades de Praga e Munique.

Em 1908, Rudolf Allers casou-se com Carola Meitner, irmã da Dra. Lisa Meitner, física que descobriu a “fissão nuclear” junto com Otto Hahn. A Sra. Allers também era uma pessoa com profundos interesses intelectuais e espirituais, e sua casa era um centro de reuniões, recebendo figuras importantes do mundo cultural. Já em 1913, Allers foi professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Munique, uma atividade logo interrompida, em 1914, devido ao início da Primeira Guerra Mundial. Durante a guerra, ele serviu como médico no Exército da Áustria, e escreveu seu primeiro trabalho científico, sobre um tema estritamente médico: o tratamento de ferimentos a bala.

No pós-guerra, Allers se transformou em discípulo de Alfred Adler, médico e psicólogo vienense, inicialmente colaborador de Freud, de quem se separou em 1912, pelo dogmatismo extremo do criador da psicanálise e do pansexualismo que Freud defendia naquela época. Nas décadas entre 1918 e 1938, Allers trabalhou na Escola de Medicina da Universidade de Viena, primeiro no Departamento de Psicologia da Sensação e Psicologia Médica e, a partir de 1927, no Departamento de Psiquiatria.

Por volta de 1925, um subgrupo formou-se dentro da escola de Adler, consciente da necessidade de uma base filosófica para a psicologia, além do descontentamento com a falta de abertura de Adler para uma visão antropológica integral, aberta à transcendência e à perspectiva religiosa. Os pontos de referência do movimento, que alguns chamam de “terceira escola vienense de psicoterapia”, foram Rudolf Allers e seu amigo Oswald Schwarz. Entre os psicanalistas, Allers contava com a amizade de Paul Schilder. Em 1927, dentro de uma discussão acalorada, esse círculo rompeu com Adler. Rudolf Allers deixou a Associação de Psicologia Individual (criada por Adler), acompanhado por Schwarz e o jovem Viktor Frankl, que era discípulo de ambos. Simpatizante deste grupo, mas sem romper com Adler, foi Oliver Brachfeld, que mais tarde divulgaria o adlerismo na Espanha e na América Latina.

Consciente da necessidade de aprofundar seu conhecimento filosófico, e por sugestão de seu amigo Frei Agostino Gemelli O.F.M, Rudolf Allers mudou-se para Milão e ali formou-se em filosofia, na Universidade Católica do Sagrado Coração (1934). Estudou a filosofia neo-escolástica que era ensinada na época, logo apegando-se ao pensamento de São Tomás, autor que ele já havia lido antes, e de quem havia traduzido para o alemão De ente et essentia, assim como obras de Santo Anselmo. Outra influência importante, do ponto de vista filosófico, foi a da fenomenologia, em particular de Max Scheler. Compartilhou com Santa Edith Stein, que freqüentou sua casa e era amiga da família Allers, o interesse por uma relação mais viva entre o tomismo e os temas do pensamento contemporâneo. Allers traduziu para o inglês um artigo da santa carmelita sobre o conhecimento de Deus, e ela, por sua vez, citou em várias partes de sua obra as teorias de Allers sobre a teoria do caráter.

Antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 1938, o psiquiatra americano Francis Braceland, que Allers conheceu em 1934, o convidou para lecionar na Universidade Católica da América (Washington D.C.). Finalmente convencido por Frei Ignatius Smith O.P., Allers se estabeleceu com sua família nos Estados Unidos, responsabilizando-se pelas aulas de psicologia na Faculdade de Filosofia daquela Universidade. Depois de lecionar ali por dez anos, mudou-se em 1948 para a Universidade de Georgetown, onde atuou como professor de filosofia. A partir deste momento, Allers retirou-se da prática psicoterapêutica, dedicando os últimos anos da sua vida ao estudo e ao ensino da filosofia. Em 1957, foi nomeado professor emérito. Em 1960, a Associação Católica Americana concedeu-lhe a Medalha Cardeal Spellman-Aquinas, um reconhecimento por seu incansável trabalho como intelectual católico (este prêmio foi recebido por pessoas do calibre de Jacques Maritain e Etienne Gilson).

Allers faleceu em 18 de dezembro de 1963.  Escreveu e publicou muitos livros, embora ainda não haja edição completa de seus escritos. Somente duas obras do autor foram traduzidas para o português: Psicologia do caráter (Rio, Agir, 1951) e Freud, estudo crítico da psicanálise (Porto, Editora Tavares Martins, 1958).

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