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Por que certas pessoas não conseguem acreditar em Deus? Um pensador ateu e sincero, como o romeno Emil Cioran, dizia ser uma questão de orgulho. Crer em Deus significava, para ele, humilhar-se. E admitia haver nesse fato — nessa dificuldade de admitir um Senhor supremo e absoluto de nossas vidas — um aspecto demoníaco bastante grave.

A soberba, das doenças espirituais, é seguramente a mais complicada. O grande São João Clímaco contou que um noviço, a quem o superior havia repreendido por soberba, respondeu tranquilamente: “Perdão, meu pai, mas não sou soberbo.” O superior replicou: “Nada prova melhor que és, do que o fato de o ignorares.”

Exemplo contrário ao do romeno Cioran é o alemão Ernst Jünger, um dos grandes escritores do século XX, autor de romances e ensaios, e que conseguiu, lentamente, despojar-se daquela soberba demoníaca tão bem localizada por Cioran.

Ernst Jünger (1895-1998) buscou a si mesmo durante a vida toda — na guerra, na literatura, na ciência, na droga… Nunca conseguiu se encontrar. Buscava também a Deus, e só se encontrou consigo mesmo ao encontrar o Pai Criador, aos 102 anos de idade, alguns meses antes de morrer. É quase impossível imaginar aquele velhinho centenário professando o seu Ato de Fé católico, rezando em público o Credo e recebendo, humildemente, reverencialmente, o Corpo de Cristo pela primeira vez na vida. Mas é um fato; ocorreu na igreja de São Nepomuk, pelas mãos de padre Roland Niebel, pároco da pequena cidade de Wilflingen, de seis mil habitantes, onde vivia o romancista.

O curioso é que, perto dessa aldeia, fica a Universidade de Tubingen, importante centro teológico do luteranismo. O protestante Ernst Jünger, que perdeu a fé aos treze anos, nunca poupou críticas à Igreja Luterana de sua infância, secularizada e manchada por adesões imperdoáveis ao nazismo e ao comunismo. Jünger não queria saber de pastores protestantes, preferindo, nos últimos anos de vida, a amizade de alguns padres católicos mais conservadores. Conversava, frequentemente, com o monsenhor tcheco Kubovec, foragido do comunismo, que teve papel decisivo em sua conversão e morava em uma cidade vizinha.

A conversão de Ernst Jünger — o fato mais importante que ocorreu na vida desse homem — obriga-nos, agora, a reler toda a sua obra pelo ângulo dessa inesperada mudança de rumo; uma releitura iluminada por essa luz que se acendeu, milagrosamente, no último minuto da prorrogação do jogo.