Eugenio_Corti

O escritor italiano Eugenio Corti (1921-2014) sentiu a vocação literária desde jovem. Uma vocação que tomou forma e se enriqueceu em virtude das experiências que a vida colocou diante dele, e que o escritor soube (e aceitou) compreender: sobretudo, entrar em contato com a dura realidade da guerra e a experiência, nos limites da própria sobrevivência, durante os vinte e oito dias passados durante a retirada russa de 1943, depois narrada  em I più non ritornano (A maioria não retorna), de 1947. Mas foi, também, uma vocação amadurecida no cotidiano de uma fé simples, vivida com a família e desenvolvida graças à capacidade de ler e analisar a história passada e contemporânea, o que certamente não é algo comum.

São esses dois fatores que se manifestam, fortemente, no que poderia ser chamado de “o romance da vida” de Corti: Il cavallo rosso (O cavalo vermelho), lançado em maio de 1983 pelas Edições Ares e que custou ao escritor onze anos de trabalho quase ininterrupto (exceto por seu engajamento na luta contra a aprovação do divórcio, em 1974). Um trabalho que foi imediatamente definido “um caso literário”, no qual — em suas 1280 páginas, divididas em três grandes seções: “O cavalo vermelho”, “O cavalo lívido” e “A árvore da vida” — narra os acontecimentos históricos que se sucederam, na Itália e no mundo, entre 1940 e 1974, sem deixar de fornecer ao leitor interessantes reflexões teológicas e teleológicas.

E é talvez essa característica que faz que Il cavallo rosso, depois de mais de três décadas de seu lançamento, continue a emocionar e envolver a todos os que têm coragem (totalmente recompensada) de mergulhar em sua leitura, inclusive os leitores mais jovens: no centro de tudo, está de fato o Cristo, “Caminho, Verdade e Vida”, Mestre da alma humana.

Olhando para a vida de Eugenio Corti, não é surpreendente essa capacidade de tudo ler à luz da fé. Para o escritor, de fato, a existência só adquiria significado se vivida para o Reino de Deus (em consonância com o versículo do Pai Nosso, que diz: “Venha a nós o Vosso Reino”), de modo que as esferas práticas e espirituais caminhassem lado a lado. Uma característica cada vez mais difícil de ser encontrada nas pessoas, hoje em dia.

E, no entanto, nem sempre foi assim: durante a Idade Média — uma época histórica muito amada por Eugenio Corti, pela qual nutria, citando o historiador Jacques Le Goff, “uma certa nostalgia” —, havia uma clara centralidade da religião na mentalidade coletiva, com a fé bem presente na vida cotidiana do povo; e foi justamente por isso que o cristianismo pode atingir a sua plena maturidade, dando origem à chamada Res Publica Christiana. Longe de ser a “idade das trevas”, como certa historiografia moderna nos quer fazer acreditar, na visão de Corti — em alguns aspectos idealizada — a Idade Média foi um período fortemente positivo, marcado pela proliferação de santos, por uma concepção positiva das figuras femininas (“[…] fonte de vida material, espiritual, poética e todas as outras espécies”, como afirma a biógrafa oficial do escritor, Paola Scaglione), com a valorização das virtudes da honra e do senso de dever (que norteavam os cavaleiros medievais), além de um desenvolvimento florescente da cultura e das artes, em virtude do fato de que — explica o próprio Corti — “a contribuição do cristianismo constitui, para o homem de cultura, um enriquecimento incomparável”.

Esse momento máximo de desenvolvimento do humanismo cristão foi substituído, a partir da Renascença, por um processo de “descristianização” em que, até hoje, ainda estamos totalmente imersos e cujo alto preço ainda pagamos. Um desvio de rota que Corti denunciou corajosamente — com escritos publicados em vários jornais, entre 1970 e 2000, depois reunidos em Il fumo nel tempio (A fumaça no templo) — e diante do qual o escritor reagiu, fazendo um apelo a todos os católicos: é cada vez mais necessário, para os que possuem o dom da Fé, um compromisso público em primeira pessoa, sobretudo para testemunhar, artisticamente, a Beleza de uma vida vivida em Cristo, firmemente decididos a lutar pela instauração uma nova Res Publica Christiana.

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