victor hugo

O ensino religioso é a meu ver, hoje em dia, mais do que nunca necessário. Quanto mais cresce o homem, mais deve crer. Há um grande mal em nossos tempos; diria, mesmo, que quase não há outro mal: é uma certa tendência a limitar tudo a esta vida.

Dando-se ao homem por fim e por objetivo só a vida terrestre e material, vêm agravar-lhe todos os seus males com a negação, com que a rematam; ao desânimo dos infelizes acrescentam ainda o peso insuportável do nada; e o que é só sofrimento, ou uma lei de Deus, transformam-no em desespero, que é uma lei do inferno.

Daqui provêm as grandes convulsões sociais. Está claro que eu sou dos que desejam que se melhore a sorte material dos que sofrem; mas o que não quero é que se esqueça que a maior das melhorias está em dar-se-lhes a esperança. Quanto não se atenuam os males finitos, quando lhes anda associada a esperança de um bem infinito!

O dever de todos nós, legisladores, bispos, padres, escritores, é fazer com que todos levantem os olhos para o céu, é encaminhar as almas, dirigir-lhes todas as esperanças para uma outra vida, em que se fará justiça, em que encontrarão justiça.

Digamos bem alto: ninguém haverá sofrido injustamente, ninguém haverá sofrido inutilmente. Não o esqueçamos, e ensinemo-lo a todos: nada de nobre teria o viver, se tudo houvesse de morrer conosco. O que alivia os trabalhos, o que santifica o trabalho, o que torna o homem forte, bom, ajuizado, paciente, benévolo, justo, o que o torna ao mesmo tempo humilde e grande, digno da inteligência e digno da vontade livre, é ter ante si incessantemente a visão de um mundo melhor a brilhar através das trevas desta vida.

(In: Pe. Walter Devivier S. J., Curso de Apologética Cristã)