disputatio

O entendimento foi-nos dado para conhecer a verdade, Deus sobretudo e as coisas divinas. Deus é que é o verdadeiro sol dos espíritos; ilumina-nos por meio de duas luzes, a luz da razão e a da fé. No estado presente, não podemos chegar à verdade integral sem o concurso delas ambas; menosprezar uma ou outra, é cegar-se a si mesmo. E tanto mais importante é disciplinar a inteligência quanto é certo que é ela que ilumina a vontade e lhe permite orientar-se para o bem; é ela que, com o nome de consciência, é a regra da nossa vida moral e sobrenatural. Mas, para ser assim de fato, é indispensável mortificar as suas tendências defeituosas. Eis as principais: a ignorância, a curiosidade e a precipitação, o orgulho e a teimosia.

A ignorância combate-se pela aplicação metódica e constante ao estudo, mormente ao estudo de quanto se refere a Deus, nosso fim último, e aos meios de o alcançar. E na verdade, bem desarrazoado seria ocupar-se o homem de todas as ciências e descurar a da salvação. É certo que cada um deve estudar, nas ciências humanas, as que se referem aos seus deveres de estado; mas, sendo como é dever primordial de todos conhecer a Deus para o amar, descurar este estudo seria inexcusável. E, contudo, quantos cristãos, muito instruídos neste ou naquele ramo das ciências, não chegam a possuir nem sequer um conhecimento rudimentar das verdades cristãs, dos dogmas, da moral e da ascética! Hoje, felizmente, manifesta-se algum progresso nas classes elevadas, e há círculos de estudo em que se profundam com o mais vivo interesse todas as questões religiosas, sem excetuar a espiritualidade. Deus seja bendito, e oxalá que este movimento alastre!

A curiosidade é uma doença do espírito que não faz senão aumentar a ignorância religiosa: é que, na verdade, enquanto nos arrasta com excessivo ardor para os conhecimentos mais agradáveis que úteis, faz-nos perder tempo muito precioso. Muitas vezes é acompanhada de ansiedade e precipitação, que faz nos deixemos absorver nos estudos que lisonjeiam a curiosidade, com detrimento dos que são mais importantes.

Para triunfar dela é mister: 1) estudar em primeiro lugar não o que agrada, senão o que é útil, sobretudo o que é necessário: «id prius quod est magis necessarium», diz S. Bernardo, não nos ocupando do resto senão por modo de recreação. Por conseguinte, não se deve ler senão com sobriedade o que alimenta a imaginação mais que o espírito, como a maior parte dos romances, ou o que se refere às novidades e boatos do mundo, como os jornais e certas revistas. 2) Nestas leituras, cumpre-nos evitar a sofreguidão excessiva, não querer devorar rapidamente um volume inteiro. Ainda quando se trate de boas leituras, importa fazê-las lentamente, para melhor se compreender e saborear o que se lê. 3) O que mais facilmente conseguiremos, se estudarmos não por curiosidade, não para nos comprazermos na própria ciência, senão por um motivo sobrenatural, para nos edificarmos a nós mesmos e edificarmos os demais: «ut aedificent, et caritas est ut aedificentur, et prudentia est». Porquanto, como diz com razão S. Agostinho, a ciência deve ser posta ao serviço da caridade: «Sic ad hibeatur scientia tanquam machinam quaedam per  quam structura caritatis assurgat». Isto é verdade, até mesmo no estudo das questões de espiritualidade. E que, efetivamente, não falta quem, nos seus estudos, busque antes a satisfação da curiosidade e do orgulho do que a pureza do coração e a prática da mortificação.

O orgulho deve-se, pois, evitar, esse orgulho do espírito, que é mais perigoso e difícil de curar que o da vontade, diz Lorenzo Scupoli. É este orgulho que toma dificultosas a fé e a obediência aos superiores. O orgulhoso quereria bastar-se a si mesmo, tal é a confiança que tem na própria inteligência; custa-lhe receber os ensinamentos da fé, ou ao menos querer submetê-los à crítica e interpretação da própria razão. Do mesmo medo é tal a confiança que tem no seu juízo, que não gosta de consultar os outros, especialmente os superiores. Daí, imprudências lamentáveis; daí, um aferro tal às próprias ideias, que o leva a condenar em tom categórico as opiniões que não são conformes às suas. É esta uma das causas mais frequentes dessas divisões que se observam entre cristãos, às vezes até entre autores católicos. S. Agostinho estigmatizava já no seu tempo essas desgraçadas divisões que destroem a paz, a concórdia e a caridade: «sunt unitatis divisores, inimici pacis, caritatis expertes, vanitate tumentes, placentes sibi et magni in oculis suis».

Para curar este orgulho do espírito: 1) é preciso, antes de tudo, submeter-se, com docilidade infantil, aos ensinamentos da fé: não há dúvida que é permitido buscar aquela inteligência dos nossos dogmas, que se obtém por meio de paciente e laboriosa investigação, utilizando os trabalhos dos Santos Padres e Doutores, sobretudo de S. Agostinho e Santo Tomás; mas é necessário fazê-lo com piedade e sobriedade, como diz o Concílio do Vaticano, inspirando-nos da máxima de S. Anselmo: “fides quaerens intellectum”. Então, evita-se esse espírito hipercrítico que atenua e minimiza os nossos dogmas, a  pretexto de os explicar; então, submete-se o próprio juízo não somente às verdades de fé senão também às direções pontifícias; mas também então, nas questões livremente discutidas, deixa-se aos outros a liberdade que se reclama para as próprias opiniões, e não se tratam com desdém transcendente as opiniões contrárias. É assim que se consegue a paz dos espíritos.

Nas discussões travadas com os outros, é mister buscar, não a satisfação do orgulho e o triunfo das próprias ideias, mas a verdade. É raro que não haja, nas opiniões adversas, uma parte de verdade que até então nos havia escapado; escutar as razões dos adversários com atenção e imparcialidade, e conceder-lhes o que há de justo nas suas observações, é ainda o melhor meio de nos aproximarmos da verdade, bem como de salvaguardarmos as leis da humildade e caridade.

Em resumo: é mister, para disciplinar a própria inteligência, estudar o que é mais necessário e fazê-lo com método, constância e espírito sobrenatural, isto é, com desejo de conhecer, amar e praticar a verdade.

(Adolphe Tanquerey. Compêndio de teologia ascética e mística. Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1961, p. 386)