goethe

O escritor alemão Goethe era tido por muitos (inclusive por ele próprio), como uma espécie de semideus. Ocupou importantes cargos públicos. Sabia fazer belos poemas, explicar a morfologia das plantas, escrever novelas de sucesso e, de quebra, modificar a teoria científica das cores. Interessava-se por filosofia, estudava a história das religiões. Admirava a música e as artes plásticas. Tinha boa aparência, sensibilidade, inteligência. Foi maçom. Gozou de fama e dinheiro. Enfim, pelos padrões do mundo, era um sujeito otimamente realizado.

Goethe foi, sobretudo, um grande amante das filhas dos outros homens. Em todas as coisas sérias que fez, na vida, em poucas colocou mais empenho do que nas conquistas amorosas, que foram o verdadeiro combustível de uma existência que só parecia dedicada à busca do conhecimento. Não via nenhuma incompatibilidade entre as seduções da carne e as coisas espirituais (ao contrário de seu personagem Mefistófeles, para quem toda teoria era cinzenta e verde a árvore da vida).

A primeira mulher importante na vida do poeta foi Frederica Brion, filha de um pastor protestante, por quem realmente se apaixonou. Percebendo que o casamento seria o porto inevitável daquele namoro, fechando-lhe para sempre o horizonte da glória literária, rompeu friamente com a jovem (como Fausto faria com Margarida, em seu drama mais famoso). Para justificar-se, dizia a si mesmo:

— “Eu sou aquele que muda”.

Ou seja: o homem não se deve prender a nada, quando algo mais supostamente elevado o atrai. Contudo, Goethe não conseguia livrar-se de Frederica tão facilmente; foi necessário elaborar uma agenda rigorosa para esquecer a ex-namorada (tinha só vinte e um anos), entregando-se sobretudo aos esportes. Praticou espada. Patinou. Cavalgou. Escalou montanhas a pé. Escreveria, mais tarde: “Quem não sabe morrer e renascer, será apenas um caminhante aflito numa terra sombria.”

Enfim, conseguiu esquecê-la. Contudo Frederica, página virada, foi somente o prefácio de um livro com muitas páginas, povoado de muitas mulheres, que não deixou de avolumar-se mesmo com o relacionamento estável com Cristina Vulpius (mais tarde sua esposa e mãe de seu único filho).

Entre mulheres e ideias, o tempo passou. Goethe enviuvou e envelheceu, sentindo na própria pele o significado daquela ideia nuclear que orientou sua vida: “Eu sou aquele que muda”. Tinha setenta e três anos, quando algo inesperado aconteceu: apaixonou-se pela moça Ulrica, filha e neta de duas amigas do poeta, que mantinham uma pensão no balneário de Marienbad, onde costumava ir o velho escritor com sua bengala de setuagenário.

Na verdade, conheceu Ulrica quando ela tinha dois anos, mas revendo-a naquele venturoso 1823, aos dezessete anos, recém chegada da escola, Goethe percebeu que começava a sentir por ela — já sua amiga — algo diverso daquilo que, normalmente, avôs sentem por netas e pais por filhas. Procurava, inutilmente, distrair-se com suas pesquisas mineralógicas nos arredores de Marienbad. Em vez de pedras para estudo, voltava porém com flores do campo para a jovem.

Um dia, decidiu-se; e, das ruínas de seus setenta e dois anos, formalizou o pedido de casamento. Ouviu dos lábios da moça, em troca, o não mais doloroso de sua vida, provando do mesmo veneno que havia destilado no coração de Frederica Brion, a antiga namoradinha dos vinte anos. O jovem que tinha abandonado a filha do pastor, era agora o velho repelido por Ulrica, experimentando como nunca o gosto amargo do verbo mudar, sobretudo as mudanças não desejadas, impostas pela vida.

O velho Goethe, com o coração ferido, publicamente humilhado, retornou a Weimar, onde teve ainda de sofrer o duro reproche do filho e da nora. Impossibilitado de executar aquela agenda esportiva da juventude (subir montanha, cavalgar, empunhar espada), decidiu esquecer a garota de modo mais conveniente a um poeta ancião: escreveu um poema elegíaco, iniciado na viagem de volta, entre sacolejos do coche e pausas para apreciar a paisagem alemã. O produto foi um dos seus mais célebres poemas, a ‘Elegia de Marienbad’, em que o poeta reconhecia não ter mais fôlego para as tarefas habituais de Eros, e finalizava com um conselho hedonista aos jovens: amassem enquanto pudessem. Um conselho que o demônio Mefistófeles aprovaria sem restrições.