crippaEm artigo intitulado Fides et Ratio (Revista Prática Jurídica, Ano XI, nº 95, fevereiro de 2010), cometi grave injustiça, contra a minha vontade. Em certo momento do texto me referi à Convívio – Sociedade Brasileira de Cultura e sua Revista Convivium, onde publiquei inúmeros artigos. No entanto, apareceu somente o nome de Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), um dos maiores talentos filosóficos brasileiros do século XX e fundador daquela entidade, desaparecendo o nome de Adolpho Crippa, que, além de fundá-la, por mais de três décadas esteve à frente de todos os projetos do grupo, deixando-nos, ainda, uma obra filosófica de inegáveis méritos.

Crippa mereceu um verbete, subscrito por Miguel Reale, na Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (Lisboa/São Paulo: Editorial Verbo, 1989) Sua trajetória foi brilhante. Formou-se em Filosofia e licenciou-se em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Frequentou a Academia Romana de Santo Tomás de Aquino, onde foi aluno de Charles Boyer e de Garrigou-Lagrange. Professor Titular de Filosofia Geral e Ética na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1960), sucedeu a Leonardo Van Acker. Membro do Instituto Brasileiro de Filosofia e da Sociedade dos Filósofos Católicos, aderiu ao tomismo sem ter sido um neoescolástico, e esteve aberto ao pensamento contemporâneo na busca de um diálogo construtivo, conservando a autenticidade da filosofia cristã. Insistiu, desde sempre, na origem religiosa da cultura e na relação ente a teoria do desenvolvimento e o cristianismo. Procurou explicitar a problemática da cultura, enquanto realidade anterior à ação intelectiva e volitiva do homem. No interior da consciência, haveria formas e protoformas decisivas que interferem nas significações e nos valores por ela assumidos. O homem, enquanto agente espiritual e criador de cultura seria, ele próprio, consequência de um projeto natural. A cultura seria uma possibilidade radical, a partir da qual se põe o homem como consciência e como liberdade criadora.

O melhor resumo sobre a vida e a obra de Adolpho Crippa foi escrito, em sua memória, por Ubiratan Borges de Macedo (Revista Brasileira de Filosofia, do Instituto Brasileiro de Filosofia. v. L, fasc. 198, abr.-maio-jun./2000).

Dentre as inúmeras possibilidades de aproximarmo-nos do trabalho de Crippa, optei, em texto publicado em Notícia do Direito Brasileiro (Revista da Faculdade de Direito da UnB. Nova Série, nº 10, 220 4, p. 151-162), por uma  resenha da Convivium, apenas no tocante aos assuntos filosóficos veiculados durante os 31 anos (1962-1993) de sua existência. Em quase todos os números, Crippa compareceu com valiosos estudos filosóficos e políticos, abordando sempre questões da ordem do dia sobre pensadores contemporâneos, livros publicados, encíclicas papais, universidade e cultura.

A Convívio – Sociedade Brasileira de Cultura, sob a direção de Adolpho Crippa, desenvolveu outras atividades, como a edição de livros e a realização de cursos, por intermédio do Centro de Estudos e Desenvolvimento; organizou e pôs em funcionamento a Agência de Notícias Planalto, sob a responsabilidade de Gumercindo Rocha Dórea, com ampla penetração na imprensa brasileira; patrocinou encontros de intelectuais para a discussão de temas, publicando o resultado dos debates e das participações, como As Idéias Filosóficas no Brasil, três volumes (1978), As Idéias Políticas no Brasil, dois volumes (1979) e A Filosofia e o Ensino da Filosofia (1979). De 1983 a 1990, editou a Revista Política e Desenvolvimento, consagrada a relações internacionais. Publicou livros de Amoroso Costa, Leonardo Van Acker, Alexandre Augusto de Castro Corrêa, Roque Spencer Maciel de Barros, Antonio Paim, Nelson Nogueira Saldanha, Agustín Basave Fernández del Valle, Eduardo Prado de Mendonça, Ubiratam Macedo, Georges Gusdorf, Jean Ladrière, Heraldo Barbuy, Luigi Zampetti, Manoel Gonçalves Filho, Miguel Reale, Meira Penna e Odilão Moura.

Os livros de autoria de Crippa, todos eles de alto nível sob o prisma filosófico e político, revelam bem o seu valor intelectual: O Princípio da Individuação em Santo Tomás de Aquino, Mito e Cultura, A Idéia de Cultura em Vicente Ferreira da Silva, O Problema da Universidade, Introdução à Filosofia – Sinopse, Problemas Filosóficos e Humanismo e Desenvolvimento (obra divulgada em restrita edição xerox, após premiação pelo Governo de São Paulo, a que o perfeccionismo do autor impediu a publicação).

Muito se poderá, ainda, escrever sobre a figura e a obra de Adolpho Crippa, que foi um gigante na luta entre o pensamento filosófico do cristianismo e a vulgata do materialismo, gerador do totalitarismo e da diminuição do homem.

(Revista Jurídica Consulex, Ano XIV, nº 334, 15 de dezembro/2010).