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O Instrumentum Laboris para o Sínodo na Amazônia, apresentado na segunda-feira, é um texto gnóstico que contradiz a fé católica. Só se pode esperar que os Padres sinodais o rejeitem e redijam outro. Além de conter análises muito discutíveis sobre a Amazônia, cujas populações nem precisariam da libertação trazida por Cristo, defende a ideia de que a salvação deriva de uma práxis e da exaltação de um primitivismo ecológico da vida, inserido no “todo” da Mãe Terra. Um texto totalmente inaceitável, segundo o filósofo italiano Stefano Fontana, em artigo publicado no jornal La nuova bussola quotidiana.

O Instrumentum Laboris, do próximo Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, apresentado à imprensa há dois dias, tem uma estrutura inaceitável e espera-se que os Padres sinodais o rejeitem e redijam um novo. Dariam, assim, provas de caridade e verdade. O motivo de fundo de nossa drástica proposta não diz respeito ao estilo penoso e às incoerências que o texto contém, mas à sua alma oculta, o fio teológico sutil que liga as partes. Trata-se de algo inaceitável.

O texto está cheio daquela novilíngua eclesial de hoje. São incontáveis palavras como sinodalidade, Igreja em saída, preferência pelos pobres, diálogo, escuta, discernimento, conversão ecológica, periferias geográficas e existenciais, e muitas outras que causam tédio de tanto que as ouvimos ditas por mero dever institucional, como um manifesto ideológico, por mania comunicativa ou servil complacência.

Contém também uma análise muito discutível da situação da Amazônia, do ponto de vista científico, e das características das culturas indígenas, do ponto de vista da antropologia cultural. Essas culturas não representam, de modo algum, um mundo idílico, equilibrado e convivial como o documento gostaria que acreditássemos. Seu paganismo não era (e não é) uma fonte de liberdade, mas de formas variadas de escravidão. As relações dentro de suas vidas tribais conhecem formas cruas de violência, injustiça e segregação.

O Instrumentum laboris também contém uma demonização injusta e imprudente da evangelização do continente, repetidamente enfatizada ao longo do texto. O leitor, assim, perante as diversas propostas práticas e sugestões pastorais que encerram os diversos capítulos, compreende que são coisas que nunca serão feitas, demasiado genéricas e desproporcionais, se comparadas com as forças do catolicismo latino-americano de hoje, em grande dificuldade, para cuja revitalização não bastariam a luta pelos direitos dos povos indígenas.

Todos esses elementos causam perplexidade e são, muitas vezes, desconcertantes. Mesmo isolados, já comprometeriam bastante a utilidade do documento. No entanto, o verdadeiro problema não está nisso, mas, principalmente, no claro filão gnóstico que anima todo o texto.

Em essência, propõe-se ler a mensagem de Cristo à luz da cultura ancestral e panteística dos povos indígenas. O paganismo — isto é, uma religiosidade fundada no mito, que não conhece o Logos — é apresentado como um exemplo saudável de multi-religiosidade, em que se manifestaria o Espírito Santo, mais ou menos paralelo à biodiversidade no plano ambiental. O animismo é apresentado como uma dimensão espiritual válida e elevada, que capta o significado de tudo e com ele se identifica, usando uma linguagem narrativa esotérica à qual se deveria conformar a linguagem da Igreja. A ritualidade indígena é considerada “essencial para a saúde integral”, pois cria “harmonia e equilíbrio entre os seres humanos e o cosmos”. É, portanto, vista como uma experiência válida do sagrado (à parte o que contém de superstição, magia, feitiçaria, xamanismo), que é preciso ter em mente como ponto de partida para a inculturação da liturgia católica. A obra da Criação é chamada gnosticamente de “Mãe Terra”, em cujo útero todos vivemos em conexão “com as várias forças espirituais”, por ela nutridos numa espécie de igualdade integral que vincula os seres vivos, e da qual o homem não se eleva por nenhuma forma de eleição divina.

A Amazônia estaria “cheia de vida e sabedoria”; suas culturas inspiram “novos caminhos, desafios e esperanças”; seus povos viveriam admiravelmente “a harmonia das relações entre a água, a terra e a natureza, a vida comunitária e a cultura, Deus e as várias forças espirituais”; a Amazônia é um lugar “de importância para a fé ou a experiência de Deus na história … um lugar epifânico … uma reserva de vida e sabedoria para o planeta, uma vida e uma sabedoria que falam de Deus”; dela emana “um ensinamento vital para uma compreensão completa de nossos relacionamentos com os outros, com a natureza e com Deus”; na Amazônia “A vida é um caminho comunitário em que as tarefas e responsabilidades são divididas e compartilhadas de acordo com o bem comum”.

Uma Amazônia dessa espécie terá necessidade do anúncio da libertação de Cristo? No máximo, a utilizaria para a causa do paraíso ameaçado pelas indústrias extrativistas, ou para uma ação reivindicatória social; Cristo é necessário para libertar a Amazônia, no sentido de restaurar a Amazônia pura, originária e primitiva, que tem dentro de si todos os critérios de um “bem viver” e do qual a Igreja tem muito que aprender. É este “conhecimento” (Gnose) que nos salvará, em vez da doutrina, da vida e do culto da Igreja de Cristo? Parece que sim: o Instrumentum diz que devemos “desaprender, aprender e reaprender”, num projeto claramente gnóstico.

Dois gnosticismos convergem no documento. O primeiro é a ideia de que a salvação deriva de uma práxis, de um cristianismo revisto no interior de uma situação histórica (de exploração): era o caminho da teologia da libertação. O segundo é representado pelo primitivismo ambientalista da vida, inserido no “todo” da Mãe Terra, do qual seriam depositários os povos amazônicos que, hoje, são vítimas de exploração. Dois gnosticismos num só. Dois gnosticismos pouco amazônicos, que têm muito de exportação ocidental, concebidos nas cátedras da nova teologia católica europeia.

http://lanuovabq.it/it/sinodo-amazzonia-vescovi-rigettate-quel-documento