augusto del noce

Para o grande pensador católico italiano Augusto Del Noce, cujo trigésimo aniversário de morte ocorre este ano, a fé cristã exige uma racionalidade metafísica. Não é suficiente que a fé se relacione com a razão, mas também que a razão não se separe da fé, sob pena de perverter-se e cair no ateísmo. O erro do catolicismo progressista é precisamente o pensar que a razão política pode existir sem a fé.

Neste ano de 2019 comemora-se o 30º aniversário da morte do filósofo católico Augusto Del Noce (1910-1989). Um simpósio nacional de dois dias foi realizado em Trieste, na semana passada, enquanto se publicam livros tentando avaliar o legado de seu pensamento. Herança que nem mesmo seus herdeiros, muitos dos quais ocupando hoje posições de prestígio, honraram até o fim.

Levando-se em conta a dimensão e a qualidade de seu pensamento, pode-se pensar que dedicar um pequeno artigo a ele, como estou fazendo, seja uma leviandade. No entanto, na vastidão e profundidade de sua filosofia, há um ponto extremamente qualificante que pode ser identificado. Consiste em uma frase que aparece em O problema do ateísmo e em outras obras. Ei-la: “A fé supõe uma metafísica nela inclusa, e não é preciso sair da fé para explicitá-la”. Especifica-se, aqui, a relação entre a razão (incluindo-se a razão política) e a fé cristã, que é de um tipo muito particular, verdadeiramente único. Ao esclarecer essa especificidade, Del Noce está muito próximo do pensamento de Ratzinger-Bento XVI.

A fé católica tem necessidade de racionalidade metafísica, isto é, requer o uso da razão natural e de sua estrutura lógica, para ser entendida e aprofundada teologicamente. Mas a razão — e este é o dado mais importante daquela sentença — não chega a ser ela mesma se abandona a relação com a fé. Se isso acontece, observa Del Noce, a filosofia se transforma em “positivismo”, o que significa deixar de ser filosofia. Assim, Del Noce chega a uma definição perfeita de “filosofia cristã”, corroborando substancialmente a tese de Étienne Gilson em torno desse velho problema.

Para haver filosofia cristã, não basta que a fé se relacione com a razão, mas é necessário que a razão não se separe da fé, porque só assim a razão pode ser verdadeiramente razão. A fé exige que a razão seja ela mesma, sem transformar-se a si mesma numa fé; mas, ao mesmo tempo, afirma que a razão jamais será capaz de ser ela mesma, se cortar as relações com a fé religiosa.

Em Del Noce, esse discurso acaba por se tornar político. O pecado original consiste na negação desse princípio que acabamos de ver, e de fato Del Noce acusa o pensamento moderno de não mais considerar o status naturae lapsae (estado de natureza decaída) do homem, de considerar o mal não como um pecado, mas como estímulo dialético para o progresso, e neste ponto a razão humana não precisa mais da fé e pode celebrar o seu próprio ateísmo. A eliminação do pecado original tem um grande significado político (negativo): a razão política torna-se autossuficiente e o ateísmo político vem a ser a conclusão lógica da modernidade.

Nesse processo, segundo Del Noce, o marxismo desempenha um papel particular e decisivo, na medida em que se configura como o amadurecimento da modernidade, superável apenas por Nietzsche, ou seja, pelo niilismo cego e vitalista. Mas, no marxismo, há uma mudança por sua vez fundamental no sentido dessa maturidade, representada por Gramsci e por aquele marxismo que renuncia à revolução antes de tudo.

O marxismo pré-gramsciano secularizou a salvação cristã na revolução e, portanto, não a eliminou completamente. Somente quando o conceito de “revolução” é eliminado — ou “suicida-se”, como dirá Del Del Noce em seu famoso livro de 1978 —, o marxismo se revela plenamente como o amadurecimento último da modernidade. É o momento em que ele passa a coincidir com o niilismo burguês, com a sociedade radical, opulenta, irreligiosa, com o materialismo elegante, sofisticado e substancialmente neopagão das elites. Na Itália, as vertentes gobettiana e gramsciana convergem para demonstrar historicamente este resultado, que o Partido da Ação encarnará por um curto período de tempo, deixando-o depois como herança a outros partidos, até os dias atuais.

O catolicismo progressista é uma forma de colaboração com esse esquema ideológico. Ele acrediota que a aceitação da democracia pelo Partido Comunista Italiano representa a rejeição de suas pretensões  hegelianas, marxistas e ateístas, sem no entanto perceber que, em vez disso, o que ocorre é a própria radicalização pós-moderna. O “velho” Partido Comunista era paradoxalmente menos perigoso e negativo do que os partidos que vieram depois dessas transformações ideológicas, que acabaram se tornando mais libertários que os liberais. O erro básico do catolicismo progressista —escreve Del Noce — é pretender separar a política da religião, o que equivale a dizer que a razão pode ser ela mesma, mesmo ao eliminar as relações com a fé. É uma conclusão que contrasta com a hipótese a partir da qual começamos. Aqui está toda a crítica de Del Noce ao Jacques Maritain do Humanismo Integral e de O  Homem e o Estado, ao mesmo tempo em que se dá por satisfeito com o autor de O camponês de Garonne, escrito por um Maritain revisionista de si mesmo, embora não o suficiente para ressuscitar o Maritain de Antimoderno.

Dizíamos que muitos de seus alunos, agora em posições de prestígio, não se mantiveram fiéis a esse legado, incluindo alguns movimentos eclesiais em que Del Noce depositava a esperança de que a razão política não se desligasse da fé. Por isso, acredito que para recuperar o autêntico Del Noce devemos retomar a sentença inicial da qual parti, e que hoje muitos de seus alunos renegariam.

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