Padre Tertullian Langa

Padre romeno Tertulian Ioan Langa (1922-2013), da Igreja Greco-Católica, conta no relato a seguir as atrocidades que sofreu em prisões comunistas da Romênia.

Meu nome é Tertulian Langa e já são 82 anos da minha vida que não tenho mais. Destes, 16 foram relegados a prisões comunistas.

Aos 24 anos, em 1946, era um jovem assistente na faculdade de filosofia da Universidade de Bucareste. As tropas russas tinham ocupado quase um terço da Romênia e fui intimado, como membro do corpo docente, a registrar-me urgentemente no sindicato manipulado pelo Partido Comunista, imposto pelo poder dos veículos blindados soviéticos.

Desde aquela época estava plenamente consciente do posicionamento do ministério da Igreja Católica contra o comunismo, declarado intrinsecamente mau. Então não havia lugar na minha consciência para um compromisso. Desisti da minha carreira na universidade e me retirei para o campo como trabalhador agrícola; mas não foi suficiente, já que era conhecido, desde a faculdade, como católico militante e anticomunista. Rapidamente, um dossiê acusatório foi improvisado contra mim; e como as acusações se baseavam em fatos que o código penal da época ainda não incriminava (relações com os bispos, com a nunciatura, apostolado secular), meu dossiê foi assimilado ao dos grandes industriais. Após os interrogatórios acompanhados de tratamentos atrozes, o promotor declarou com perfeita lógica comunista: “Nenhuma evidência de sua culpa é encontrada no dossiê do acusado; mas também pedimos a sentença máxima: 15 anos de trabalho forçado. Porque, se ele não fosse culpado, ele não estaria aqui”. Objetei:”Mas não é possível que me condenem sem nenhuma prova!” E ele: “Não é possível? Veja como é possível: 20 anos de trabalho forçado por protestar contra a justiça do povo”. E esta foi a sentença.

Isso ocorria quando a Igreja Greco-Católica da Romênia ainda não havia sido proibida. Foi dado como certo que minha prisão e tortura conseguiriam transformar-me em instrumento em favor da futura acusação de bispos e padres da Igreja Católica Grega e da nunciatura.

Dos interrogatórios e do meu confinamento nos campos de extermínio comunistas mencionarei apenas alguns momentos.

Fui preso em Blaj, no escritório do bispo Ioan Suciu, então administrador apostólico da metrópole greco-católica na Romênia e futuro mártir.  Apresentei-me a ele, o chefe da nossa Igreja, para pedir orientação da Santa Providência, já que meu pai espiritual, Monsenhor Vladimir Ghika, outro futuro mártir, estava escondido na época. Foi-me oferecida por alguém a possibilidade de partir para o estrangeiro. Sendo um passo importante, não queria fazê-lo sem me submeter à vontade de Deus, e a resposta veio: minha prisão. Compreendi que passaria minha vida nas prisões criadas pelo regime comunista, mas estava sereno: segui o caminho da Santa Providência.

A BARRA DE FERRO. Lembro-me da quinta-feira santa do ano de 1948. Durante duas semanas, todos os dias, bateram-me com um ferro na sola dos pés, através das botas: um raio atingiu minha espinha e explodiu em meu cérebro, sem que me fizessem nenhuma pergunta.  Preparavam-me com ferro para me amaciar para o interrogatório. Pés e mãos amarrados e dependurado de cabeça para baixo, meus carcereiros me tamparam a boca com uma meia que já tinha passado pelas botas e bocas de outros beneficiários do humanismo socialista. A meia tornou-se o instrumento antirruído graças ao qual se impedia o som de ir além do local do interrogatório. Era praticamente impossível emitir um único gemido. Além disso, eu me havia autobloqueado psicologicamente: não conseguia mais gritar ou me mexer. Meus torturadores interpretaram essa atitude como fanatismo da minha parte. E continuavam a aumentar mais e mais a intensidade, alternando-se em me torturar. Noite após noite, dia após dia. Eles não me perguntaram nada, porque não era a resposta que lhes interessava, mas a aniquilação da pessoa, um fato que demorava a se realizar. E como se prolongava o esforço para aniquilar a minha vontade, para entrevar o meu pensamento, a tortura se prolongava indefinidamente. As botas mutiladas caíram dos meus pés, peça por peça.

Naquela noite da Quinta-feira Santa, em uma igreja próxima, celebrava-se o ofício litúrgico, como que acompanhado por um pranto de sinos assustados. Estremeci. Jesus terá ouvido meu grito sufocado, quando, não sei como, gritei daquele inferno: “Jesus! Jesus!”. Emitido através da meia, meu grito não foi compreendido pelos torturadores. Tratando-se do primeiro som que ouviram de mim, sentiram-se contentes, certos de me haverem dobrado. Eles me arrastaram com o cobertor até a cela, onde desmaiei. Quando acordei, o inquisidor estava em pé na minha frente, segurando uma pilha de papéis: “Você é teimoso, bandido, mas não vai sair daqui até por para fora tudo o que está escondendo. Aqui há 500 folhas. Escreve tudo o que você viveu: tudo sobre sua mãe, seu pai, irmãs, irmãos, cunhados, parentes, companheiros, conhecidos, bispos, padres, religiosos, políticos, professores, vizinhos e bandidos como você. Não pare até que acabe o papel”. Mas não escrevi nada. Não talvez por algum fanatismo, mas porque não tinha forças: até a minha mente parecia esgotada.

A LOBA. Depois de quatro dias, o mesmo indivíduo: “Você terminou de escrever?” Vendo que as folhas não haviam sido tocadas, disse: “Se é assim que estão as coisas, tire a roupa! Quero te ver como Adão no paraíso”. Passaram assim outros dias, vividos com a pele nua no chão: conforto típico do socialismo humano. Outro indivíduo se apresentou depois de um tempo na porta: “Vamos ver, o que há no papel, então? Nada? Continua teimoso! Veja que temos outros métodos também”. Depois saiu.  Voltou acompanhado por um enorme cão lobo, com as presas ameaçadoras à vista. “Você a vê? É Diana, a cadela heroína, a quem teus bandidos balearam nas montanhas. Ela vai te ensinar o que fazer. Comece a correr!” E eu: “Como correr? Em uma sala de apenas três metros?”. Na sala havia também uma lâmpada de 300 watts, muito para uma sala de apenas três metros por dois, fixada não no topo, mas na parede, no nível do rosto. “Corra!” A loba, rosnando, estava pronta para atacar.  Corri por seis, sete horas, mas percebi isso apenas no amanhecer, vendo a luz entrar na cela e sentindo a movimentação no prédio. De vez em quando o tal fazia a loba sair para as suas necessidades. A mim não era permitido. Quando comecei a perder o equilíbrio e indicava que ia parar, a loba, vigilante, como a um comando, enfiava as presas no meu ombro, na nuca e no braço.

Corri sob seus olhos e suas presas por 39 horas sem interrupção. No final, caí e a loba pulou em cima de mim. Mordeu no pescoço, mas não me sufocou. Na minha testa e nos meus olhos senti escorrer algo quente e ardente; percebi que a fera estava urinando no meu rosto. E foi pelas palavras dos meus carrascos que fiquei sabendo que tinha corrido por 39 horas. “Podemos mandar este aí para a maratona do Rio! Que resistência, a besta fascista!” Mas vendo que nem mesmo a maratona conseguira me convencer a fazer uma declaração sobre os bispos e a nunciatura, ou sobre algum companheiro procurado, eles acharam útil passar para outro método de convencimento: o saco de areia.

O SACO DE AREIA. No dia seguinte, em um escritório, amarraram minhas mãos e pés a uma cadeira, na frente de uma mesa com uma bolsa. Atrás de mim havia um torturador empalado e silencioso. Em uma escrivaninha, no canto, um indivíduo careca com uma barbicha de bode, que queria se assemelhar a Lenin. Mudo também ele, fez um sinal, movendo a cabeça. Meu carrasco entendeu o comando. Pegou a bolsa e me bateu na cabeça com ritmo, acompanhando cada golpe com a palavra: “Fale!” Dezenas de vezes, centenas de vezes, eu não sei, talvez milhares: “Fale!” Mas ninguém me perguntava nada. Apenas uma voz cavernosa, monótona, me enfiava no cérebro a ideia imperativa de dizer, de responder a todas as questões submetidas à minha consciência pelo órgão inquisidor. Não foi difícil para mim decifrar a ideia satânica de querer subjugar a minha vontade. Depois de cerca de vinte golpes, comecei a aplicar o princípio moral “age contra”, faz o oposto, dizendo-me a cada golpe: “não falo!” Dezenas de vezes, centenas de vezes. Com a autossugestão, havia implantado em mim o estereótipo “não falo!”, com o risco de me tornar escravo desse único modo de me expressar. Na verdade, foi assim: a partir de então, automaticamente, a cada pergunta que me era dirigida, não importa qual fosse o assunto, respondia: “não falo!” Levei um ano inteiro de esforço mental para me libertar desse sinistro reflexo automático.

VINTE E OITO CENTIMETROS. Como sujeito sem valor e interesse nos interrogatórios, fui transferido para a prisão subterrânea da zona pantanosa de Jilava, oito metros abaixo do solo, que havia sido construída para defender a capital, mas estava completamente inutilizável devido à forte infiltração de água. Nada e ninguém aguentava viver ali, exceto o homem, o maior tesouro do materialismo histórico. Nas celas de Jilava, os pobres homens faziam a experiência das sardinhas: porém não no óleo, mas no próprio suco, feito de suor, urina e águas de infiltração, que fluíam ininterruptamente das paredes. O espaço foi explorado da maneira mais científica: dois metros de comprimento e vinte e oito centímetros de largura para cada pessoa deitada no chão, de lado. Alguns, os mais velhos, estavam deitados em tábuas de madeira, sem lençóis ou cobertores. Em contato com a madeira estavam o osso umeral e a parte externa do joelho e tornozelo. Ficávamos na ponta dos ossos para ocupar um espaço mínimo. A mão só podia descansar no quadril ou no ombro do vizinho.  Não poderíamos aguentar mais de meia hora; então todos, a um comando – já que não era possível separadamente e um após o outro – virávamos para o outro lado. A pilha de corpos abarrotados, assim organizados, tinha dois níveis, como em um beliche. Mas abaixo destes havia um terceiro nível, onde os detentos se deitavam diretamente no concreto. No cimento, os vapores de condensação da respiração dos setenta homens, junto com as águas de infiltração e a urina que vazava das latrinas, formavam uma mistura viscosa na qual os desafortunados nadavam. No centro da cela-tumba de Jilava havia um recipiente de metal, de setenta a oitenta litros, para a urina e as fezes de setenta homens. Não tinha tampa e o cheiro e o líquido transbordavam abundantemente. Para alcançá-lo, você tinha que passar pelo “filtro”, isto é, por um controle rigoroso aplicado à pele nua, um controle no qual todo o organismo e cada um de seus orifícios eram submetidos a exame.

O “FILTRO”. Com um bastão de madeira nos esfregavam a boca, sob a língua e as gengivas, para o caso de os bandidos terem escondido alguma coisa ali. A mesma varinha penetrava nossas narinas, orelhas, ânus, sob os testículos, permanecendo sempre a mesma, estritamente a mesma para todos, como um sinal de igualitarismo. As janelas de Jilava não eram feitas para dar luz, mas para impedi-la, já que todas estavam cuidadosamente fechadas por tábuas de madeira pregadas. A falta de ar era tal que para respirar que nos revezávamos, três de cada vez, de barriga para baixo, com a boca ao lado da fresta da porta, posição em que contávamos 60 respirações, para que outros camaradas pudessem se recuperar de desmaios e da falta de oxigênio.

Assim, contribuíamos, à nossa maneira, para a edificação do sistema mais humano do mundo. Sabiam destas coisas Churchill e Roosevelt, quando, com uma canetada, na mesa da vergonha de Teerã, estabeleceram que nós, romenos, deveríamos acabar nas garras do Moloch oriental vermelho e funcionássemos como um cordão de isolamento para o conforto deles? E a Santa Sé podia, talvez, imaginar o que se passava?

NUS NO GELO. De Jilava, depois de longos anos de profanações humanas, fomos transferidos, correntes nos pés, para o cárcere de isolamento máximo, chamado Zarka, pavilhão do terror da prisão de Aiud. A recepção se deu de acordo com o mesmo sinistro ritual diabólico de profanação do homem, criado pelo amor de Deus. A mesma raspagem, as mesmas botas tremendas que nos chutavam nas costelas, na barriga e nos rins. Apesar disso, percebemos uma diferença: não estávamos mais sujeitos ao regime de conserva na urina, sudorese, condensação e falta de oxigênio, mas fomos submetidos a um intenso tratamento de oxigenação com a pele nua e no gelo, bandidos por bandidos (isto é, ministros, generais, professores universitários, cientistas, poetas) inclusive eu, que não passava de um “não falo!” gigante, uma decidida e humilde confiança na Graça que me tinha feito superar a provação.

Todos nós tínhamos que desaparecer, como inimigos do povo. Caso contrário, como poderia o tão proclamado “Novo Homem Soviético” aparecer? A cela em que fora introduzido não tinha nada: nem cama, nem cobertor, nem lençol, nem travesseiro, nem mesa, nem cadeira, nem esteira e nem mesmo janelas. Apenas barras de aço e eu, como todo mundo, sozinho na cela: me impressionava comigo mesmo, vestido apenas com pele e coberto com o frio.

Era o fim de novembro. O frio tornava-se cada vez mais penetrante, como um incômodo companheiro de cela. Depois de cerca de três dias, através da porta violentamente batida, foram atiradas calças deterioradas, uma camisa de mangas curtas, cuecas, um uniforme listrado e um par de botas gastas, sem laços, sem meias. Nada para colocar na cabeça. E, além disso, uma espécie de latrina, um mísero recipiente com cerca de quatro litros.  Vesti-me como um foguete. Congelados, no quarto dia nos contaram. Em vez do nome, me deram um número: K-1700, o ano em que a Igreja da Transilvânia se reuniu com Roma. No cartório, eu já estava morto. Sobrevivia apenas como um número estatístico. Então o caldo chegou, servido com uma concha de 125 gramas: um fluido aguado produzido pela fervura de farinha de milho. Uma sopa de feijão foi distribuída como almoço, em que pode contar aproximadamente oito, nove grãos, com várias cascas vazias, sem conteúdo. Para o jantar, nos trouxeram chá com uma crosta de pão queimado. Depois de uma semana, os grãos foram substituídos por um creme de farelo, no qual contei catorze pedacinhos. Ocasionalmente, feijões se alternavam com creme de farelo. Vivíamos com menos do que se dá a uma galinha.

ANDAR OU MORRER. Para sobreviver ao frio, éramos obrigados a nos mover continuamente, a fazer ginástica. Quando tombávamos exaustos pela fadiga e pela fome, caíamos no sono; um sono brevíssimo, já que o frio era cortante. De um tal sono uma voz me acordou um dia, vinda do outro lado do muro: “Aqui Professor Tomescu. Quem é você?”. Era um ex-ministro da Saúde que, depois de ouvido o meu nome, continuou: “Ouvi falar de você. Escute-me com atenção: fomos trazidos para ser exterminados. Nunca colaboraremos com eles. Mas quem não anda morre e, portanto, se torna um colaborador. Transmita aos outros: quem parar, morre. Caminhe sem parar!” O pavilhão, imerso no silêncio lúgubre da morte, ressoava sob nossas botas sem laços. Éramos animados pela misteriosa vontade de um povo de permanecer na história e pela vocação da Igreja de permanecer viva. Parávamos de caminhar apenas por volta das 12h30, durante meia hora, quando o sol parava no canto da sala. Lá, encolhido com o sol no rosto, roubava um grão de sono e um raio de esperança. Quando o sol também me abandonava, sentia, contudo, que não era abandonado pela Graça.  Sabia que tinha de sobreviver. Caminhava, dizendo a mim mesmo como em um refrão, soletrando: “Não quero morrer! Não quero morrer!” E não estou morto! A cada passo, cadenciava na mente uma prece, compunha litanias, recitava versos de salmos.

Continuamos a caminhar assim, para não tropeçar na morte, dezessete semanas. Aqueles que não tinham mais força ou vontade de se mover, morriam. Dos 80 homens que entraram no Zarka, apenas 30 sobreviveram. As barras de ferro, pouco a pouco, se revestiam de geada, formadas pelo hálito de vida da nossa respiração, um manto brilhante na passagem rumo ao céu.

MAS TUDO É GRAÇA. Acreditei fortemente, várias vezes, que alcançaria as margens da noite. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer. Tendo chegado, anos depois, no que imaginei ser a liberdade, constatei que na verdade era apenas um novo modo de ser da noite, que o gelo entre a Igreja Greco-Católica e a hierarquia da Igreja irmã Ortodoxa não se deixava dissolver ainda; que nossas igrejas continuavam a ser confiscadas, e o rebanho diminuía mais e mais, morto pelas promessas. Mas mesmo Cristo Senhor venceu apenas quando pôde pronunciar com o último suspiro: “Consummatum est”, tudo está consumado.

Não escrevi muito sobre estas minhas dramáticas experiências. Quem pode acreditar no que parece incrível? Quem pode acreditar que as leis físicas podem ser superadas pela vontade? E se tivesse que contar os milagres que experimentei? Não seriam considerados fantasmagorias? Suportaria essa descrença com mais dificuldade do que outros anos de prisão. Mas nem mesmo em Jesus acreditaram todos aqueles que o viram: “Desde então muitos dos seus discípulos voltaram e não foram mais com ele” (João 6,66).

Nada acontece por acaso na vida. Cada momento que o Senhor nos concede é repleto da Graça – impaciência benévola de Deus – e da nossa disposição de corresponder-lhe ou recusá-lo. Cabe a cada um de nós não reduzir tudo a uma simples história dura, feroz e inacreditável, e entender, em vez disso, que a Graça aceita não detém o homem, mas o leva além de suas expectativas e forças. Espero sinceramente que este testemunho abra uma janela do Céu. Porque o Céu acima de nós é maior que a terra sob nossos pés. (Tradução de Fausto Zamboni)