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Há pouco tempo, escrevi longo ensaio sobre “O destino da Universidade” (incluído em Cinco anos de Espana), o que me permite não tratar aqui dos problemas gerais da Universidade de nosso tempo — particularmente nos países hispânicos — e concentrar minha atenção numa questão muito precisa, tocada apenas de soslaio naquele trabalho, mas que me parece essencial e, em certo sentido, o ponto de partida de qualquer tentativa séria para que a Universidade seja algo digno desse nome, de sua gloriosa tradição de sete séculos, de uma função que, sob formas diferentes, soube cumprir em muitas épocas.

A Universidade havia sido normalmente respeitada desde o século XIII. Pontífices e reis disputavam-se a honra de fundá-las e protegê-las; nelas costumavam conter-se os interesses e as ambições. Até suas cerimônias rituais reforçavam seu prestígio e apresentavam uma imagem venerável dessas instituições, imagem não empanada pela alegria, folgança, irreverência e mesmo as brincadeiras que pareciam próprias dos estudantes. No século XIX, as universidades receberam um reforço de prestígio: o do Estado como tal. Se pouco faltava, é preciso acrescentar a qualidade quase mítica de que então gozava a Ciência — com letra maiúscula, é claro. A Universidade europeia dos anos 1800 era tratada com um respeito que roçava a beatice e começou a perder por dentro um pouco de sua respeitabilidade, a ser menos criativa, menos aberta, mais hierática. Mas a vigência da instituição universitária, a consciência de sua importância, o valor de seus ensinos, seus graus, seus docentes, tudo isso permaneceu intacto até bem dentro de nosso século.

Poder-se-ia pensar que nós, os espanhóis, fomos os primeiros a perder o respeito, mas não é verdade: foram os alemães, os mesmos que haviam levado ao extremo o culto da Universidade e a pompa do Herr Professor. Desde 1933, o nacional-socialismo triunfante fez o que quis com a esplêndida Universidade alemã, e esta não reagiu ou foi ao encontro do Poder abusivo, revelando assim que no fundo não era tão esplêndida quanto havia parecido, quanto havia sido efetivamente durante muito tempo.

Hitler, e o que é mais grave, os “intelectuais” do seu partido, muitos dos quais professores universitários, empreenderam a operação de manipular a Universidade, de convertê-la num instrumento de domínio e servidão, de difusão de “teorias” grotescas, envoltas no prestígio difuso da “ciência”. A eliminação dos professores judeus (quer dizer, com algum antepassado judeu), ou casados com judias, ou liberais ativos, ou cristãos ativos, ou simplesmente universitários inteiros, foi o primeiro passo. Daí, o desmantelamento intelectual da Universidade alemã, com o qual se enriqueceram tanto as de outros países, sobretudo os Estados Unidos. O segundo passo foi a imposição na Universidade restante das doutrinas do Terceiro Reich e, com ela, a liquidação de sua justificativa e de tudo o que lhe restava de prestígio.

Todo o resto veio em cadeia. Em 1933, a Universidade alemã era a mais prestigiosa e eficaz do mundo. O advento do totalitarismo pleno se deu nessa data. O primeiro, o soviético, era anterior de uma geração, mas a Rússia era um país excêntrico, marginal, até então muito isolado, cuja influência era estritamente política ou ideológica, mas não universitária. O segundo totalitarismo, o fascismo italiano, na verdade não chegava a sê-lo: era um ensaio, freado por muitas inibições e respeitos; pode-se considerá-lo, se quisermos, um totalitarismo parcial, um pouco envergonhado de si mesmo. Mas a partir do triunfo de Hitler, todos tiraram a máscara: a pressão sobre a Áustria e a Itália foi enorme; nos adversários, engendrou respostas não inteiramente dissonantes, como o espírito daquilo que foi chamado de “Frente Popular” ou, de modo mais geral, “antifascismo” (reação mimética e negativa, que leva a reproduzir, como num espelho, os mesmos gestos, dos quais a iniciativa estava com Hitler).

A primeira consequência real dessa situação foi — agora sim — a Espanha. Desde o começo, a guerra civil impôs em ambas as zonas o espírito — ou a falta de espírito — do totalitarismo. Na Universidade de Madri — extraordinária até então — revelou-se nos poucos meses em que funcionou. Don Julián Besteiro não quis aceitar o reitorado, mas somente o decanato de Filosofia e Letras, com a condição — aceita pelo ministro — de que não houvesse expurgo nem de professores, nem de estudantes, nem de pessoal administrativo. Posto que tal promessa não foi’ cumprida, Besteiro deixou o decanato. José Gaos, que era reitor, teve de aceitar que fosse destituído, entre outros, seu mestre mais próximo e querido, que fora decano até a guerra, Don Manuel Garcia, Morente. “Foi inevitável”, disse-me contristado. Pensei, e disse-lhe, que não era inevitável ser reitor.

Na zona “nacional”, onde as universidades funcionaram em certa medida, as depurações foram implacáveis. Porém, o mais grave ocorreu no final da guerra, o reatamento da “normalidade” universitária em toda a Espanha. Em 1939, consumou-se a mais absoluta falta de respeito pela Universidade: destituições, depurações que deixavam em condição de precariedade os sobreviventes; nomeações políticas, supressão de toda a liberdade de cátedra, eliminação de tudo o que havia sido criador no  pensamento espanhol desde o começo do século. Prefiro não exemplificar, mas conste que se poderia encher páginas com exemplos.

Tudo isso — com mínimas exceções individuais — foi aceito, tolerado ou exaltado pelos próprios universitários. Isso quer dizer que a Universidade deixou de respeitar-se a si mesma. As tentativas de recuperação foram sumamente tímidas e com notórias exceções que caíram por terra ao primeiro sopro de vento hostil, em 1956, data na qual se iniciara, precisamente, outra forma de falta de respeito: a tentativa de utilizar politicamente a Universidade com fins de oposição, sem salvaguardar os direitos estritos da comunidade universitária.

Falei quase exclusivamente da Espanha, primeiro porque é o caso que conheço melhor, e em segundo lugar porque o reconhecimento palmar de nossos males é o único que pode autorizar as referências a outros países. Mas será preciso insistir na politização da Universidade hispânica quase sem restrições, e de quase toda a Universidade europeia, em várias etapas? A primeira coincide com o fim da Guerra Mundial, em 1945, especialmente na França e na Itália; a segunda, mais importante, por volta de 1960, culminando em 1968, data em que se inicia uma politização esporádica e mais tênue da Universidade dos Estados Unidos. Nesse país, foi temperada por vários fatores: o número altíssimo de universidades e colleges; sua dispersão num país enorme; o caráter privado de um número muito grande de instituições; a ausência de partidos dedicados a fomentar e a administrar a politização; o grau de liberdade e a normalidade de seu exercício em todos os campos.

Para citar um exemplo hispânico, recorde-se o infinito respeito com que foi tratada a Universidade de Porto Rico durante os muitos anos de reitorado de Jaime Benítez, e o prestígio que alcançou (tão desproporcional ao tamanho do país) e compare-se com sua evolução posterior.

Mas não é somente a politização que reduz o respeito à Universidade. É também a excessiva profissionalização, o utilitarismo — em forma extrema, sua transformação em centro de expedição de títulos e diplomas. Quando a Universidade é valorizada unicamente por seus ensinamentos imediatamente utilizáveis para fins econômicos, quando os estudantes não se interessam por cursos “desnecessários” ou difíceis, a Universidade deixa de ser o que é.

Porque a Universidade nutre-se de vocações intelectuais, e o sintoma mais claro de tais vocações é a fruição, a curiosidade, o prazer no tratamento dos problemas, a satisfação na convivência  de professores e discípulos.

Cada vez que vejo mais de perto professores universitários, pondo de lado sua competência científica, que pode ser considerável, surpreende-me a frequência com que pertencem a um tipo humano que em nada se parece com o que se costumava entender por “intelectual”. São mais semelhantes aos chamados “executivos”, ou a técnicos ou administradores. Têm pressa — o que não significa forçosamente que façam muito; não parecem interessar-se por nada que não tenha relação muito direta com seus trabalhos; não se lançam avidamente em busca de alguma ideia atraente; não dão impressão de prazer — ainda que seja um prazer tenso e doloroso  — ao escrever (e provavelmente ao ensinar).

Será possível, nessas condições, contagiar os estudantes com o entusiasmo das disciplinas intelectuais? Será fácil despertar neles sua vocação? O exercício do pensamento — essa operação humana que consiste em perguntar-se pelas coisas e procurar entendê-las — poderá florescer com tais pressupostos, em instituições estreitamente utilitárias, sem luxo vital — em suma, prosaicas?

Discute-se interminavelmente sobre a reorganização das universidades. Fala-se em dinheiro, principalmente, em recursos necessários, na intervenção em sua gestão de tais ou quais escalões, dos quais espera-se uma dose maior de poder; favorecem-se ou condenam-se as universidades privadas — e às vezes são assim chamadas as que não o são. Não vejo serem formuladas perguntas que tenham alguma analogia com as que acabei de formular para mim mesmo.

A crise da Universidade é mais um elemento daquilo a que ocasionalmente chamam de dessacralização da realidade. Se tal expressão parece excessiva, evitemo-la; por isso falei simplesmente em respeito, palavra tão forte na pena, por exemplo, de Kant. O dia em que a Universidade voltar a inspirar-se no entusiasmo e no respeito — ou, se preferem, no entusiasmo respeitoso — voltarei a acreditar nela e a encarar com esperança o futuro dos povos ocidentais (e com um pouco menos de temor dos demais povos).

(Em O Estado de São Paulo, “Suplemento Cultura”, 21/02/1982)