psiuTêm toda razão Gary Allen e Larry Abraham desde o título do livro None care call it conspiracy que em fevereiro de 1972 esgotou a primeira edição de 350.000, em março a segunda de 1.250.000 e em abril a terceira de 4.000.000.

Sim, “ninguém ousa chama-la de conspiração”. Chamar o quê? A história, ou melhor, a linha ou as linhas-de-história que, sobre o fundo da paisagem confusa dos acontecimentos humanos, traçam figuras que irresistivelmente revelam uma intenção, um programa e por conseguinte um agente ou um grupo de agentes. Uma das características principais desses agentes é o segredo com que se associam, e à sombra do qual manobram os fios dos acontecimentos; como corolário imediato e paradoxal desse segredo observa-se no mundo moderno furioso empenho de desviar a atenção pública dessa Conspiração e de ridicularizar por todos os meios de comunicação e divulgação a ideia de tal proposição. Para esse jogo se prestam os milhões de ingênuos que povoam as cidades, que passam horas diante das TVs, mas ainda mais efetivamente se presta a especial forma de estupidez de que vivem os “intelectuais” do mundo liberal.

Citemos um trecho do primeiro capítulo do livro, onde logo apreendemos a ideia fundamental do autor: “Quem disser que os acontecimentos capitais do mundo se inscrevem na trama de um planejamento é ridicularizado, escarnecido, por sua crença na teoria conspirativa da história”. “Evidentemente mais ninguém nos tempos presentes acredita nessa teoria conspirativa da história, exceção feita daqueles que se deram ao trabalho de estudar o assunto”.

Aqui interrompo a citação do livro americano para acrescentar uma ideia: na verdade só se dá ao trabalho de reestudar um assunto tão solidamente e tão continuamente afirmado e reafirmado pela máquina de fabricar opinião pública quem ainda possui forças de defesa e imunização contra tal peste. Por experiência própria sei o que me custou o trabalho de consertar os circuitos de meu desconfiômetro, e os trabalhos subsequentes de rever toda a trama de empulhamento de que até recentemente fora vítima mesmo sem chegar à metástase da imbecilidade incurável dos que aplaudiram Allende, e dos que veem no “progressismo” que devasta a Igreja um real e benéfico desabrochar do Evangelho. Há aqui um penoso paradoxo. De um lado parece-nos que, para sentar-se com disposição de estudar e desembaraçar a trama de empulhamentos de nosso bravo século, é preciso de antemão suspeitar de que tudo o que mais se propala merece reservas, quase dizemos que é preciso possuir certo faro; de outro lado parece-nos que o amontoado de empulhamentos chegou a tal ponto que mais misterioso e inexplicável é o fato brutal de serem tantos os enganados. Sem querer fazer desta pobre humanidade, já tão caluniada, um rebanho de bilhões de onagros, não podemos negar a brutalidade das vitórias que os mecanismos de fabricação de opinião pública vêm obtendo neste século. Parece todavia que já começamos a sair desse inferno e que – como nos diz Dante ou Virgílio, na Divina Comédia – já começamos a ver as estrelas. O livro de Gary Allen diz que na carneirada do mundo “ninguém ousa dar a isto que aí está o nome de conspiração”, mas o sucesso do livro, se é verdadeiro, nos prova que já são muitos os que desejam ouvir tão enérgica denúncia.

Continuemos a citação: “Há duas teorias em confronto, sobre a história. Ou acontecem as coisas por acaso, sem serem planejadas e causadas por alguém; ou acontecem porque são planejadas e porque alguém ou alguns fazem tudo para que aconteçam. Na realidade, a teoria da história acidental (ou produzida pelo mero empuxo das causas materiais), oficialmente ensinada nas sorbones é a que mereceria ser ridicularizada. Como se explica então que cada administração cometa os mesmos enganos da anterior? Por que se repetem os erros? Como se explica que nosso Departamento de Estado escorregue de uma mancada da política de ajuda do comunismo para outra mancada? Se você acredita e afirma que tudo isto é um resultado acidental de um misterioso e inexplicável fluxo da história, você será visto como um “intelectual” que tem noção da complexidade do mundo em que vive; se porém você acredita e afirma que 32.496 consecutivas coincidências nos últimos quarenta anos contrariam de algum modo as leis estatísticas, você será apenas um pateta”.

O que Gary AlIen diz dos acontecimentos políticos norte-americanos, e das 32.496 coincidências que se repetem com fastidiosa insistência, por muito mais forte razão podemos dizer, não da história da Igreja, mas da linha-de-história que neste século produziu o resultado monstruoso que temos diante dos olhos. Eu gostaria de complementar e de matizar a filosofia conspirativa da história, esboçada por Gary AlIen, mas antes desse trabalho quero desde já afirmar que a teoria oposta, que põe a tônica da demolição da Igreja na carneirada que produz em torno da Casa de Deus uma apostasia carnavalesca e infinitamente estúpida, parece-me decididamente inaceitável. Se em alguma linha-de-história se aplica a “conspiracy theory of history” é no que está acontecendo no mundo católico, e nos restos da civilização cristã.

Aqui o empuxo da humana burrice é colossal, mas esse mesmo fenômeno evidencia a presença secreta de agentes realmente norteadores de tamanha massificação. Na verdade a história da grande e infantil humanidade sempre foi e sempre será, para o bem e para o mal, obra de uns poucos. A famosa frase de Churchil “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” aplica-se aos discípulos de Cristo e aos defensores de Londres. Não poderíamos talvez hoje dizer que nunca tantos foram tão enganados e feridos por tão poucos?

As 32.496 convergências do progressismo induzem-me fortemente a ousar dizer que há, em torno da Igreja, uma conspiração e não apenas uma acidental epidemia de burrice.

(Publicado em O Globo, 5/12/1972).