jayme ovalle

Apesar de mais conhecido como autor de canções de base folclórica (e que, segundo Manuel Bandeira, teria sua imortalidade garantida como autor do “Azulão”), a obra poética do católico Jaime Ovalle, assim como a influência que ele exerceu sobre o Movimento Modernismo, são ainda desconhecidas não só do grande público como da crítica acadêmica dita especializada.

Nascido em Belém do Pará em 1894 e morto no Rio de janeiro em 1955, Jaime Ovalle foi, no Movimento Modernista, um artista à margem do barulho e da confusão. No entanto, como bem disse Manuel Bandeira, “agia contaminando os seus amigos militantes de sua personalidade federativamente brasileira”.

Ao contrário de outros poetas seus contemporâneos, como Mário de Andrade, Carlos Drummonde de Andrade e Augusto Meyer, para só citar alguns, em que se podia descobrir sem muito esforço a presença de elementos da região do autor, Ovalle foi mais do que um paraense nostalgicamente perdido no Rio de Janeiro. Ainda segundo Manuel Bandeira, responsável em grande parte por sua sobrevivênvia na memória brasileira, Ovalle “nunca foi de Estado nenhum: era brasileiro e sentia em si todos os Estados”.

Ainda segundo o poeta de Libertinagem, Ovalle teria excercido influência significativa sobre os poetas da sua geração, os mesmos que depois fariam a famosa (mais famosa do que importante) Semana de 22: “Fala-se de influência disto e daquilo, deste e daquele poeta francês, italiano ou alemão sobre os poetas da geração de 22. A influência de Ovalle foi muito maior: nunca de exterioridades formais, mas de Alma. Ele sabia dizer com absoluta segurança onde estava o momento mais alto da poesia numa música, num poema, numa pintura”

O próprio Bandeira confessaria que seu livro Libertinagem, escrito entre 1924 à 1930, e o que mais impregnado está da técnica e da estética do modernismo, não teria sido escrito como tal se não fosse o seu convívio com Ovalle e outros amigos do momento: “Muita coisa que ali parece modernismo, não era senão o espírito do grupo alegre de meus companheiros diários naquele tempo: Jaime Ovalle, Dante Milano, Osvaldo Costa, Geraldo Barbosa do Amaral. Se não tivesse convivido com eles, decerto não teria escrito, apesar de todo o modernismo, versos com os de ‘Mangue’,  ‘Na Boca’, ‘Macumba de Pai Zusé’, etc…”

O Ovalle poeta conviveu bem com o Ovalle músico, representante respeitado daquela fase renovadora da música brasileira que se situa entre as primeiras décadas do século XX. Foi amigo e coetâneo de Villa-Lobos, Luciano Gallet, Lorenzo Fernandes, além de membro da Academia de Música Brasileira.

Como compositor, Ovalle deixou pelo menos dois “clássicos” da canção brasileira de sempre, “Azulão e “Modinha”, ambas com textos de Manuel Bandeira. Embora não tenha livros publicados, Ovalle deixou um livro inédito de poemas,  The Foolish Bird (O pássaro tolo), escrito originalmente em inglês e cujos originais estão desaparecidos. Bandeira, que conheceu os poemas do amigo, dizia que sua principal fonte de inspiração poética era a Bíblia.