Todos os dias lavo a louça e rezo o terço. Sim, é possível fazer bem as duas coisas ao mesmo tempo.

Alguns dizem — os tolos! — que lavar a louça e rezar o terço são coisas de mulher. Ah, se eles soubessem como é bom… Lavando a louça, eu limpo os pratos. Rezando o terço, eu limpo a alma. É coisa de homem, é coisa de mulher, é coisa de gente.

Aprendi a lavar louça há 30 anos, em 1988, quando estudei Filosofia em São Paulo e morei sozinho pela primeira vez. Como eu não sabia fazer mais nada, meus colegas de república destinaram-me essa tarefa. Logo, tomei gosto pela atividade. Nunca mais me afastei da pia. Porém, naquela época eu não rezava.

Cada terço é composto de 5 mistérios, uma Profissão de Fé, 6 Pais-Nossos, 53 Ave-Marias e 6 Glórias. Às vezes, a quantidade de louça que eu tenho para lavar permite que a cada oração corresponda um objeto. É como se os pratos, copos, talheres e panelas substituíssem as contas do Rosário.

Lavando o prato em que meu filho comeu, agradeço a Deus pela alegria de ser pai de um menino tão bom e inteligente.

Lavando o copo em que a Rosângela bebeu água, agradeço a Deus pela alegria por ter casado com a mulher certa.

Lavando a xícara em que tomamos café hoje pela manhã, agradeço a Deus pela união e o amor de nossa pequena família, que todos os dias se inspira na pequena e gloriosa Família de Nazaré.

Lavando uma colher, eu penso em Vó Maria, nas inúmeras vezes que ela cuidou de mim desde muito pequeno, quando eu ainda não sabia falar e ela levava as colheradas à minha boca.

Lavando um garfo, eu penso em Aracy, em seu carinho de mãe que, mesmo dando aulas de histórias na periferia de São Paulo, encontrava tempo para preparar as maiores delícias para o filho e a filha.

Lavando uma faca, eu me lembro da habilidade do meu pai em descascar laranjas. Às vezes, antes de descascar as frutas para nós, ele fazia um pequeno número de malabarismo com elas.

Lavando uma panela, eu penso no Vô Briguet, que gostava de espiar o conteúdo das panelas que estavam no fogão, depois abrir a geladeira só para ver se estava faltando alguma coisa.

E nesse tempo todo eu também estou rezando. Quando digo em pensamento “Ave Maria”, estou reproduzindo a saudação do Anjo Gabriel à jovem de Nazaré. S. Tomás de Aquino diz que os anjos não costumam saudar os humanos, mas naquele caso foi necessário abrir uma exceção, por que a jovem judia era a “cheia de graça” e o próprio Deus estava com ela.

Rezar o terço também é lembrar 53 vezes da nossa condição mortal. Ao final de cada conta, repetimos o pequeno Kaddish: “Rogai por nós pecadores ∕ Agora e na hora de nossa morte”. Mas logo em seguida vem uma nova oração, e a vida misteriosamente recomeça, enquanto a água a tudo purifica com seu murmúrio batismal. Eis-me na pia, eis-me na piedade.

Rezar o terço, lavar a louça. Descobrir, nas pequeníssimas coisas rotineiras, o grande mistério da vida eterna.

https://www.folhadelondrina.com.br/blogs/paulo-briguet/o-homem-que-lava-louca-1002723.html