Conta-se que Lúcifer, o poderoso-chefão dos demônios, teria dito a Deus certa vez: “O que me surpreende, em Ti, é que os homens só sabem pecar e, no entanto, Tu os perdoas incessantemente, enquanto eu pequei só uma vez e Tu nunca me perdoaste!” Então Deus lhe respondeu: “Mas quantas vezes tu me pediste perdão?”

A anedota é perfeita para ilustrar a mais terrível de todas as doenças espirituais, a soberba, essa perturbação da alma que faz do homem uma imitação canhestra e caricatural de Deus. Entre seus filhotes mais conhecidos, estão a gula, o sexo obsessivo, a raiva, a vaidade, a inveja. O soberbo nunca aceita os próprios limites. Não perdoa, nem pede perdão. Foi pela soberba que a grande orquestra sinfônica do universo pela primeira vez desafinou. Por ela, os anjos maus caíram; por ela, caíram os nossos primeiros pais. “Quanto maior o coqueiro, maior o tombo do coco”, diz a sábia voz dos tempos.

E a soberba fez história… Santo Agostinho concebia a História da humanidade a partir daquela “pré-história” angélica, em que os dois anjos, o rebelde Lúcifer e o servidor Miguel, conjugaram de forma radicalmente oposta o mesmo verbo amar, movidos pelo arrogante amor de si mesmo e o amor humilde ao Criador.

Esses dois amores fundaram duas cidades distintas: o amor a Deus e desprezo de si mesmo criou a Cidade de Deus; e o amor de si, com desprezo de Deus, lançou as bases da Cidade dos Homens.

A Cidade de Deus é peregrina: desceu do céu, caminhará pela Terra e depois voltará ao ponto de partida — o Paraíso —, enquanto a Cidade dos Homens provém de baixo, lutará com a outra Cidade enquanto houver História, e um dia retornará aos abismos.

A Cidade de Deus, que se confunde com a própria Igreja, regula-se pelos mandamentos e virtudes cristãs, enquanto a Cidade dos Homens cria os próprios valores, geralmente invertendo os princípios normativos fundados na revelação divina.

Enfim, a Igreja cuida da Cidade de Deus; Hollywood, a rede Globo e o sistema público de educação cuidam da Cidade dos Homens…