O romancista inglês Graham Greene, sempre catalogado entre os maiores escritores católicos do século XX, não teve uma vida de fé tão tranqüila como se pensa: basta ler suas duas autobiografias, para o perceber. Não se sabe pediu ou, pelo menos, aceitou a extrema-unção, no final da vida.

No ensaio “Graham Greene & o estigmatizado”, publicado no prestigioso “The New York Review of Books”, o jornalista americano Kenneth L. Woodward faz algumas revelações interessantes sobre a relação do escritor inglês com o Padre Pio de Pietrelcina, a partir de uma carta que recebeu do próprio Greene.

Nela, o escritor deixava transparecer que seu interesse por Padre Pio não vinha só dos seus misteriosos estigmas (que o obrigava a usar curativos semelhantes a faixas de algodão para estancar o sangramento das mãos), embora Greene se admirasse daquele sangue que vazava, estancava e voltava a correr. Espantava-o mais, porém, a capacidade do frade capuchinho de “ler corações”, sabendo antecipadamente dos pecados daqueles que o procuravam, fosse no confessionário ou fora dele.

Na carta ao jornalista Woodward, Greene fala de suas experiências com a Missa de Padre Pio, em San Govanni Rotondo, no sul da Itália, provavelmente no final dos anos cinquenta. Greene, então já separado de sua esposa, foi a San Giovanni Rotondo com a sua amante da época, Yvonne Cloetta, e esperava ser recebido por Padre Pio, que era amigo de um grande amigo seu, o marquês Patrizzi.

O encontro estava marcado para a noite, no mosteiro. Na hora H, porém, Greene arranjou uma desculpa para não ir. Explicou, depois, que ele e sua amante (também católica) não queriam que suas vidas mudassem. Padre Pio, certamente, que nunca leu um romance de Graham Greene, na certa “leria” no coração do escritor e de sua amante a situação pecaminosa em que viviam, e exigiria que deixassem aquela vida.

No entanto, na manhã seguinte, Greene conta que foram à famosa Missa de Padre Pio. “Na época, não estava autorizado a celebrar a missa no altar-mor, mas apenas em um pequeno altar lateral, e ele teve que dizer sua missa às 5:30 da manhã. Havia apenas algumas mulheres do lado de fora dos portões do mosteiro esperando que abrissem e, durante a missa, estávamos a cerca de um metro e oitenta de distância dele. As mulheres foram imediatamente ao confessionário quando  a missa acabou, onde ele ficou até a hora do almoço. Durante toda a missa, ele tentou esconder os estigmas, puxando as mangas até o meio das mãos, mas é claro que elas não conseguiam esconde-los. Provavelmente não podia usar luvas. Eu tinha sido avisado que a Missa dele era muito longa, por isso fiquei surpreso ao verificar que estava na média em termos de duração…. Fiquei ainda mais surpreso quando saímos da igreja e descobri que eram sete horas, sem ter ideia como esse longo período de tempo tinha passado.” (Carta a Kenneth L. Woodward)

Nessa mesma carta, o escritor também mostrava admiração pelo papa Pio XII, a quem conheceria mais tarde, nos anos 50. Dos dois Pios, porém, o autor inglês preferia claramente o frade capuchinho, apesar do que tinha ouvido, em Roma, a respeito do futuro santo, sobre o qual um monsenhor do Vaticano lhe havia dito que não passava de “uma velha e piedosa fraude”. Greene deixa claro que não compartilhava daquela opinião.

Apesar de, naquele período final de sua vida, aos oitenta anos, Greene se dizer um “católico ateu ou agnóstico”, o certo é que ainda carregava uma fotografia de Padre Pio em sua carteira.

Graham Greene & the Stigmata