O GRANDE SÉCULO XIII. Nos século XII, mas sobretudo no XIII — em que nasceu Dante —, deu-se a grande floração espiritual que fundou a civilização tal como hoje a conhecemos. É o período da simplicidade evangélica de São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão, da Cavalaria Andante em defesa dos mais fracos, da criação das Universidades, da grande inteligência filosófica de Santo Tomás de Aquino, da alta poesia da Divina comédia, das monumentais catedrais góticas, da pintura de Giotto, dos livros com iluminuras. Nesses dois séculos, deu-se um amplo desenvolvimento urbano, com o surgimento das cidades modernas como as conhecemos hoje, boa parte das quais ainda existentes na Europa atual.

CIDADE DE DEUS E CIDADE DOS HOMENS. Para compreender uma obra literária, cuja estrutura narrativa e conceitual está toda fundada nos três reinos sobrenaturais — inferno, purgatório e paraíso —, não se pode perder de vista a visão de mundo cristã que predominou na Idade Média. A obra Cidade de Deus, de Santo Agostinho, lançou as bases da filosofia cristã da história e influenciou todo o pensamento medieval. Santo Agostinho concebia a história humana a partir de dois amores opostos, que remontam ao mundo angélico. Esses dois amores fundaram duas cidades distintas: o amor a Deus e desprezo de si mesmo criou a Cidade de Deus; e o amor de si, com desprezo de Deus, lançou as bases da “cidade dos homens”. A Cidade de Deus é peregrina: desceu do céu, caminhará pela Terra e depois voltará ao ponto de partida — o Paraíso —, enquanto a “cidade dos homens” provém de baixo, lutará com a outra Cidade enquanto houver História, e um dia retornará aos abismos: o inferno. Aqui estão os dois horizontes que norteiam a Divina comédia: paraíso e inferno. A Cidade de Deus, que se confunde com a própria Igreja, regula-se pelos mandamentos mosaicos e as virtudes cristãs, enquanto a “Cidade dos homens” cria os próprios valores, geralmente invertendo os princípios normativos fundados na revelação divina. Foi essa filosofia da história que orientou a cultura e a civilização medieval, vivendo-a ao ponto de arriscar a própria vida em defesa do Reino de Deus, como nas Cruzadas.

A DIVINA COMÉDIA COMO ASCESE. Como a transfiguração de Cristo passa pela cruz, também a transfiguração moral, como a concebe Dante, subentende um duplo auto-sacrifício: eliminação dos vícios e contenção das paixões. Sua viagem pelos três reinos sobrenaturais, além do sentido literal (é de fato uma narrativa fantástica que conta histórias passadas por lá, com personagens humanos que lá estão), é uma viagem ascética: a busca de elevação e aperfeiçoamento espiritual, a conquista das virtudes mais elevadas. Ascese, que provém do grego “askesis” e significa  trabalho, exercício, pressupõe um itinerário. Dante percorre a pé os três reinos, num percurso sempre ascendente (embora a primeira parte, no inferno, seja descendente), que consiste inicialmente na plena consciência do pecado (inferno), no arrependimento (purgatório) e finalmente na absolvição (paraíso).

A MORAL CRISTÃ NA ESTRUTURA NARRATIVA DA DIVINA COMÉDIA. Os cantos do Inferno e do Purgatório, na Divina comédia, se estruturam de acordo com os vícios capitais. O inferno é estruturado como um cone de ponta-cabeça, com nove círculos, em que os primeiros e mais largos círculos (onde estão os pecadores por fraqueza) vão se estreitando à medida em que se desce (onde estão os pecadores por malícia). Um cone invertido, em cujo vértice está a cidade de Lúcifer. É como se o ambiente sofresse um “aperto circular”, uma constrição física espacial que remete inevitavelmente à disposição dos pecados pela sua gravidade.

A CULPA É SEMPRE DO OUTRO. No segundo círculo do inferno, onde estavam os luxuriosos, as almas eram arremessadas de um lado a outro, com violência, pela ventania e a tempestade: alegoria do poder do sexo sobre a vontade das pessoas. Ali, Dante encontraria Paolo e Francesca, dois cunhados que se transformaram em amantes e, quando descobertos, assassinados pelo marido traído (Giovanni, irmão de Paulo). O episódio seria muito explorado pela arte romântica, que via em Francesca uma vítima dos casamentos arranjados. A pedido de Dante, Francisca conta o início do relacionamento, quando liam um romance sobre os Cavaleiros da Távola Redonda. No romance, o cavaleiro Lancelote se apaixona por Genebra, esposa do Rei Artur. Aconselhada pelo amigo Galeoto, Genebra se oferece a Lancelote, e foi nesse momento da leitura que ela e o cunhado Paulo trocam o primeiro beijo. O trágico foi que, em vez de reconhecer a própria culpa, culpou o romance que então liam. Veio disto sua condenação moral: não assumir pessoalmente a falta cometida.

UM TÍTULO DISPLICENTE? É estranho, a princípio, que o autor tenha chamado de “comédia” uma obra que trata do destino eterno das pessoas, da salvação e perdição das almas. Trata-se de um poema longo que, embora narrativo, não pode ser classificado como epopéia; não se encaixa, aliás, em nenhum gênero literário conhecido, embora todos participem, de alguma maneira, de sua elaboração: há muito de lírico em seus milhares de tercetos, muito de dramático nas expiações do purgatório e de trágico no sofrimento dos danados. Tinha dois sentidos, na época de Dante, a palavra comédia. Primeiramente, como se compreendia entre os gregos e romanos antigos, significava uma composição teatral, em prosa ou verso, na qual se representava a vida cotidiana, expondo ao ridículo os vícios e defeitos humanos, com final quase sempre bem sucedido. Podia significar também, no contexto medieval, todo texto em língua vulgar, julgada desdenhosamente indigna de tratar temas mais nobres (só o latim podia fazê-lo), restringindo-se portanto a assuntos mais triviais. Segundo Scartazzini, em seu célebre Dicionário dantesco, Dante aproveitou-se dos dois sentidos: nomeou sua obra de “comédia” por ser escrita em língua vulgar e pelo final feliz.

DANTE NO CINEMA. As imagens fantásticas, criadas por Dante para representar os três reinos sobrenaturais, jamais poderiam ser imitadas convincentemente pelo cinema até pouco tempo atrás. O filme mudo de 1911, O inferno, uma cara produção italiana que fez muito sucesso, limitava-se ao primeiro cântico (nem sempre com total fidelidade à obra escrita) e com os poucos recursos técnicos da época. Agora, os recursos da computação gráfica, que recriaram com efeitos admiráveis os personagens e ambientes fantásticos de O senhor dos anéis, teriam tudo para fazer uma Divina comédia mais fiel à imaginação do poeta florentino. Como, porém, Hollywood botaria os homossexuais no sétimo círculo do inferno ou Maomé no oitavo círculo, com a cabeça rachada ao meio até o queixo, como pena por haver criado uma religião que dividia a humanidade?

BENEFÍCIOS DA CRISE EXISTENCIAL. O político Dante foi exilado e nunca mais voltaria à sua cidade. No meio do caminho de sua vida, longe da família e dos amigos, viu-se numa “selva selvaggia”, perambulando de uma cidade a outra, socorrido aqui e ali por amigos e admiradores de sua obra. O drama do seu desterro, porém, provocou nele uma mudança radical de vida: em vez da administração pública, passou então a cuidar das coisas do espírito. A Roma antiga não esperou tanto tempo (cinco ou seis séculos) para ver escrita a sua maior epopéia, a Eneida, de Virgílio; e os gregos, ao contrário, tiveram logo no início de sua civilização a Ilíada e a Odisséia, poemas épicos que ajudaram a construir espiritualmente o mundo grego. O cristianismo precisou esperar por treze séculos — e por um homem em crise existencial, superiormente dotado em termos literários e espirituais — para criar o seu poema definitivo, como nunca houve antes e provavelmente nunca mais se repetirá.