Periodicamente, o assunto “romance católico” vem à tona. Qual é o status do romance católico? O romance católico existe, verdadeiramente? Uma vida de leitura ávida me assegura que sim, e que pode ser definido da seguinte forma: um romance cujo tema se baseia em algum dogma, ensinamento moral ou princípio sacramental da Igreja, e no qual o mistério do catolicismo é apresentado afirmativamente.

Descobri o romance católico ainda no colégio, e embora não tivesse condições de defini-lo na época, depois de ler Brighton Rock, de Graham Greene, fui fisgado para sempre. Nos anos seguintes, devorei romances de Greene, François Mauriac, Georges Bernanos e Evelyn Waugh. Eu os emprestei aos meus amigos, todos formados em faculdades católicas – que nunca tinham lido nenhum daqueles romances, nem tinham ouvido falar deles ou de seus autores.

Infelizmente, até hoje esses romances católicos clássicos permanecem, em boa parte, como uma espécie de riqueza escondida. Tente-se persuadir professores de literatura, em colégios ou faculdades católicas, a oferecer um curso sobre eles! Minha impressão é a de que eles achariam o assunto muito paroquial. Na verdade, o sentido e o mistério dramatizados nos romances católicos é o oposto do paroquial: as histórias lidam com as verdades mais profundas do ser humano.

A importância do romance católico tradicional, e também o fato do seu desaparecimento, foi sublinhada por Richard Gilman em seu provocativo livro de memórias de 1987, Faith, sex, mystery (sem tradução para o português). Gilman relata como sua conversão do judaísmo secularista ao catolicismo foi muito auxiliada pelos romances de Greene, Mauriac, Bernanos e Waugh. Ele escreveu que, então, “queria ouvir falar sobre Deus”, e que ele o encontrou “escondido em todos esses mundos fictícios, mais ou menos como um fator responsável pelos enredos, muitas vezes como antagonista, e sua presença estava ali — Sua presença… Ele era alguém, um personagem não totalmente diferente dos demais.”

Quando, mais tarde, Gilman se afastou do catolicismo, ele observou com precisão que ninguém mais escrevia aquele tipo de romance católico que o tinha aproximado da Igreja. No entanto, alguma coisa andou aparecendo desde aquela época, um novo tipo de romance católico, cujos exemplos mais marcantes são os trabalhos de Alice McDermott.

Na minha opinião, os sete romances de McDermott dramatizam a idéia colocada no poema de Gerard Manley Hopkins: “Kingfishers Catch Fire”: “…a figura de Cristo a mil papéis é submissa, /Formoso nos membros, formoso em olhos não seus, / Ele apresenta-se ao Pai através da face humana” (Gerard Manley Hopkins. Poemas. São Paulo, Cia.das Letras, 1989, trad. de Aíla de O. Gomes, p. 117). Alice McDermott parece especialmente atenta a essas palavras. São impressionantes o seu poder de observação e sua capacidade de expressar o que observa.

Correndo o risco de simplificar demais, vejo a aventura religiosa, naqueles romances clássicos católicos mais antigos, como o drama de um Deus transcendente, o Cão de caça do Céu, entrando dramaticamente na vida do pecador indeciso parado diante dos portões do Inferno. É o drama da intervenção espiritual, cujo clímax é o resgate de um pecador obstinado: Scobie cometendo suicídio em O Coração da Matéria (de Graham Greene); o padre beberrão, em O Poder e a Glória (idem), incapaz de pedir perdão por seu pecado de fornicação; o relacionamento adúltero de Sarah Miles e Maurice Bendrix em Fim de caso (idem); Mme la Comtesse, no Diário de um pároco de aldeia (Bernanos), que se fecha à graça de Deus depois da morte de seu filho; ou Lord Marchmain, cuja última ação é abençoar a si mesmo em seu leito de morte, em Brideshead Revisited (Evelyn Waugh).

Ao contrário, as obras-primas de McDermott, como Charming Billy ou After This, não envolvem nenhuma presença dramática de Deus, porque Deus está presente da primeira à última página. Nos mundos ficcionais de McDermott, cada realidade é uma palavra de Deus, uma palavra dita a cada um de nós. Aqui, Deus nunca poderia ser descrito como um estranho ou intruso — não é “Cão de caça do Céu”, de Francis Thompson, que ilumina o seu trabalho, mas Hopkins, cuja visão de um “mundo carregado da grandeza de Deus” ela compartilha. McDermott vê a criação como um sacramental e, dentro desse mundo sacramental, a graça funcionaria de maneira muito sutil.

Com medo de revelar pontos importantes do enredo, hesito em falar alguma coisa sobre o último romance de McDermott, The Ninth Hour (“A hora nona”, sem tradução no Brasil), que é um dos melhores que ela já escreveu. Deixemos, porém, que uma cena inicial fale pelo todo. Nela, uma irmã enfermeira está terminando suas visitas de rotina, quando surge uma emergência inesperada que requer sua presença. Ao mesmo tempo, sua bexiga está quase estourando e ela precisa desesperadamente ir ao banheiro. É, simultaneamente, um chamado de Deus e um chamado da natureza: o sagrado e o profano! A comicidade delicada e indulgente da cena nos lembra que não há dois mundos, o mundo natural e o mundo sobrenatural. No mundo de McDermott, todos estão envolvidos em uma cósmica aventura de amor. Tudo é graça: rezar um rosário ou lavar um vaso sanitário; as águas purificadoras do batismo e a limpeza de uma mancha em tecido fino. Cristo está em toda parte, desempenhando seu papel em mil lugares; ele é o horizonte contra o qual todo o drama acontece. Uma pessoa pode ser um horizonte? A escrita de McDermott revela sua crença de que o Cristo Ressuscitado pode.

(Padre Robert Lauder leciona filosofia na Saint John University, em Queens, Nova York. Suas palestras sobre romance católico estão disponíveis no YouTube.)