1
O rato apareceu
Num ângulo da sala.
Um homem e uma mulher
Apareceram também,
Trocaram palavras comigo,
Fizeram diversos gestos
E depois foram-se embora.

? Que sabe esse rato de mim.
E esse homem e essa mulher
Sabem pouco mais que o rato.

2
Passam meses e anos perto de nós,
Rodeiam-nos, sentam-se com a gente à mesa.
Comentam a guerra, os telegramas,
Discutem planos políticos e econômicos,
Promovem arbitrariamente a felicidade coletiva.
Conhecem nosso paletó, camisa e gravata,
Nosso sorriso e o gesto de mover o copo.
Têm medo de nos tocar, não conhecem nossas lágrimas.
? Que sabem do nosso coração, do nosso desespero, da nossa
[comunicabilidade.
? Que sabem do centro da nossa pessoa, de que são participantes.
…Subúrbios longínquos, esses homens.

3
Entretanto cada um deve beber no coração do outro.
Todos somos amassados, triturados:
O outro deve nos ajudar a reconstituir nossas partes.
O homem que não viu seu amigo chorar
Ainda não chegou ao centro da experiência do amor.
Para o amigo não existe nenhum sofrimento abstrato.
Todo o sofrimento é pressentido, trocado, comunicado.
? Quem sabe conviver o outro, quem sabe transferir o coração.
Viver com o outro é agonizar, morrer e ressuscitar com.
Ninguém mais sabe tocar na chaga aberta:
Entretanto todos têm uma chaga aberta.

4
Desconhecido que atravessas a rua,
? Que tens de comum comigo.
A mesma solidão e a mesma roupa.

Procuras consolo, mas não podes parar.
És o servo da máquina e do tempo.
Mal sabes teu nome, nem o que desejas neste mundo.

Procuras a comunidade de uma pessoa,
Mas não a encontras na massa-leviatã.
Procuras alguém que seja obscuro e mínimo,
Que possa de novo te re-apresentar a ti mesmo.

5
A mulher que escolhemos, a única e não outra
Dentre tantas que habitam a terra triste,
Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia,
Eis o mundo que nos é de novo apresentado
Por intermédio de uma só pessoa.
Esta é a que rompe as grades do nosso coração,
Esta é a que possuímos mais pela ternura que pelo sexo.
E nada será restaurado no seu genuíno sentido
Se a mulher não retornar ao seu princípio:
É a máquina instalada dentro dela que deveremos vencer.
Quando esta mulher se tornar de novo submissa e doce,
Os homens pela mão da antiga mediadora
Abrirão outra vez um ao outro os corações que sangram.

(Murilo Mendes. Poesia liberdade. Rio, Agir, 1947, p. 109-112)