Ceia em Emaús, de Caravaggio

O QUE FIZERAM CONOSCO? Um filósofo ateu — Jean-Paul Sartre — dizia que o importante é o que fazemos com aquilo que fizeram de nós. Em princípio, não parece haver nada de errado com essa noção, contudo é lamentável que o filósofo francês só enxergasse, “naquilo que fizeram de nós”, ações do tipo meramente natural e social, exercida por coisas visíveis e mensuráveis, como se não houvesse coisas invisíveis e incomensuráveis atuando em nossa personalidade; como se só existisse o que fosse medido pela régua limitada da ciência experimental; enfim, como se Deus e o demônio não contassem.

O QUE ESTAMOS FAZENDO DE NÓS? A riqueza inestimável do cristianismo foi revelar que, por trás das aparências de uma vida meramente natural e social, existe uma realidade mais profunda e espiritual. Na perspectiva cristã, não há nenhuma incompatibilidade entre o mundo material e o espiritual, pois ambos são criações divinas, e tudo o que Deus faz, o faz bem feito. Não podemos esquecer que a própria ciência moderna, como a conhecemos hoje, desenvolvida para melhorar nosso domínio sobre a realidade material, foi basicamente obra do cristianismo, a partir do século XII e XIII, nos séculos finais da Idade Média.

A MATÉRIA-PRIMA DA PESSOA HUMANA. A matéria-prima de nossa personalidade, da qual começamos a tomar consciência na puberdade, traz as marcas de nossa herança genética, da sociedade em que vivemos, das tentações demoníacas e da Providência divina. Esquecer essa múltipla presença é falsear a compreensão da realidade humana. O que Deus espera que “façamos” com aquilo que “fizeram” de nós? Colaboraremos com Ele em nossa auto-construção ou seguiremos outro caminho? Dessa resposta depende a nossa eternidade.

O ENGANO DO MATERIALISMO. Outros caminhos não faltam. Nos últimos cinqüenta anos, por influência de filósofos como o já mencionado Sartre, começou a crescer no mundo uma visão atéia e materialista da vida, que se expandiu pelos meios de comunicação, por boa parte da produção cultural e do sistema educacional do Ocidente (Europa e Américas). Quantas vezes, nesse arco de tempo de meio século, um fedelho não virou as costas a Deus, lá por volta dos doze ou treze anos, passando a desenvolver sua personalidade a partir das premissas ingênuas e falsas do ateísmo? Quando o fedelho já era um velho — depois de viver de forma incompleta, como se tudo, nesta vida, fosse material e terminasse com a morte —, percebia que construíra seu edifício existencial sobre a areia movediça daquelas negações pueris da adolescência, sem ter parado um só instante para pensar na insensatez que era delegar a um engenheiro adolescente a planta-baixa da própria vida.

O EQUIVOCADO DESPREZO DA MATÉRIA. Para muita gente, o mundo material é uma coisa desprezível, verdadeira prisão do espírito, quase uma doença. Pensam assim os espíritas, os budistas, os muçulmanos, os maçons, os comunistas — com suas visões de mundo impregnadas daquilo que os historiadores religiosos chamam de “gnosticismo”, caracterizado por uma postura rebelde em relação ao Criador, negando-O ou censurando-O. Para o cristianismo não é assim: a matéria “está” doente, afetada pelo pecado, mas não é uma “doença”. O universo criado não é um caótico monte de fezes expelido por um deus impotente (que os gnósticos chamam de demiurgo), porém uma obra de arte maravilhosa, disposta com “medida, número e peso” pelo Criador, como dizem as Sagradas Escrituras no Livro de Sabedoria (11, 20).

A INTEGRAÇÃO PERFEITA EM CRISTO. A festa da Páscoa, que ainda comemoramos nesta semana, é principalmente isto: época de comemorar-se a regeneração da matéria pela força do Espírito, a reconstrução do corpo destruído de Cristo pelo milagre da ressurreição, a vitória da Vida sobre a morte. E a promessa, enfim, de que nossos corpos frágeis, destruídos pela morte, também ressuscitarão no Juízo Final. Basta ter fé e viver de acordo com ela.