Foi um risco haver trabalhado como jornalista na BBC News por 30 anos — no meu caso, na redação do BBC World Service —, onde nunca se podia assistir ou ouvir um boletim de notícias, sem pensar numa manchete melhor para a matéria, ou como a matéria poderia ter sido mais bem contada.

Mas foi, realmente, um feito notável para a BBC 1’s News at Ten [principal noticiário noturno do canal], na noite de 15 de abril, passar o programa inteiro sem uma única menção a qualquer dessas palavras: cristão, cristianismo, católico, adoração, adoradores, sagrado, Missa, Semana Santa. Era como se não tivesse ocorrido a ninguém, na emissora, que o horrível incêndio, que devorara a Catedral de Notre Dame por várias horas, era algo mais profundo ou significativo — pelo menos para os bilhões de cristãos em todo o mundo (particularmente católicos) — do que a trágica destruição de uma atração turística particularmente bem visitada.

Lucy Williamson, em Paris, fez uma referência aos parisienses rezando pela Catedral. Também houve muito interesse, mais tarde, no relato de Kevin Connolly sobre o significado histórico de Notre Dame — referências a ter testemunhado a coroação de Napoleão e a celebração da libertação de Paris em 1944 — e assim por diante.

Mas quando se falou de seus espaços sagrados, santificados pelas orações dos fiéis católicos durante centenas de anos? Onde as cenas das grandes missas que lá se celebraram? Onde os clipes de coros que levantaram suas vozes em hinos de louvor? Onde as fotos da multidão reunida do lado de fora, enquanto o fogo ardia, cantando hinos e rezando para que a Catedral fosse salva? Por que, em suma, o principal programa de notícias da BBC, depois de ter tempo de preparar adequadamente a cobertura, deixou de reconhecer a importância da Notre Dame como a expressão mais profunda da civilização cristã na França, sobre a qual todo um continente foi fundado?

A deterioração da BBC, no que diz respeito ao modo como relata fatos relacionados à fé cristã, surgiu há muitos anos. A coisa é séria, ao ponto de até mesmo massacre e perseguição de cristãos em todo o mundo, da Nigéria à China, serem lamentavelmente mal noticiados. Os canais locais são muito mais agressivos do que o serviço internacional da BBC, mas mesmo este último não pode ser totalmente desculpado.

Como isso aconteceu? Em boa parte provém da ignorância. Como católica, fiquei espantada, na Casa de Bush [edifício público em Londres que já foi sede do serviço internacional da BBC], com o fato dos colegas da sala de imprensa, criados e educados no Reino Unido, com um conhecimento da cena geopolítica global superior à minha, poderiam ser tão ignorantes sobre o cristianismo.

Lembro-me de uma Sexta-Feira Santa na redação, em que descobri que, da meia dúzia de jornalistas brilhantes e bem-educados da BBC com quem eu trabalhava naquele dia, apenas um sabia do evento que se comemorava. Mesmo agora, enquanto escrevo, o experiente jornalista da BBC, Hugh Schofield, está dizendo no programa World at One que a calamidade de Notre Dame aconteceu na semana da Páscoa. Não, Hugh. Nós não estamos na semana da Páscoa. Estamos na Semana Santa. Ainda devemos passar pela Última Ceia, a traição de Cristo e Sua crucificação antes de, finalmente, na próxima semana, chegar à alegria da Ressurreição e à celebração da Páscoa.

Contudo, há mais do que ignorância nisso tudo. A verdade é que eles não querem saber. Tomou conta da BBC uma visão de mundo que, há muito tempo, aceita sem questionar a posição liberal “esclarecida” sobre assuntos como aborto e eutanásia. Mesmo no Serviço Internacional — última trincheira de neutralidade — as normais e escrupulosas verificações sobre se estávamos ou não adulterando a matéria, foram deixadas de lado quando as questões tratadas tinham a ver conosco, pessoalmente. O aborto é um direito; um fato. Esqueçam-se aquelas partes do mundo, para as quais nós transmitimos, onde isso não é visto assim.

O desdobramento do vil escândalo de abuso sexual, na Igreja Católica, serviu apenas para confirmar o já bem estabelecido preconceito da BBC contra o catolicismo. O abuso sexual tornou-se a única questão católica considerada digna de ser tratada.

Quando o papa Bento XVI visitou Londres em 2010, saiu da reunião editorial matutina, na Casa Bush, uma ordem aos jornalistas para que as observações do Papa sobre abuso infantil, feitas durante sua viagem, permanecessem no topo da matéria “por um número razoável de horas”, apesar do que pudesse acontecer posteriormente, e não obstante o que ele pudesse dizer sobre outros assuntos, depois de sua chegada. Era um surpreendente distanciamento da nossa prática editorial normal, que buscava avaliar uma matéria jornalística em sua dinâmica e por seus próprios méritos.

Um pouco depois da ordem dada, naquele dia, perguntaram-me se me importaria de trocar minha tarefa de redator principal do dia e escrever sobre a África, continente do qual não sabia nada. Eu fui substituída por alguém que nada sabia do papa. Tal coisa nunca tinha acontecido comigo antes e nunca mais se repetiu. Foi-me dito depois, em segunda-mão, que achavam ser melhor que alguém que não fosse católico escrevesse a matéria sobre o papa.

O incêndio de Notre Dame, ocorrido no início da Semana Santa, é especialmente comovedor para os cristãos, pois a visão das chamas devorando a Catedral parece-lhes um símbolo da destruição de tudo aquilo em que acreditam. Quando a árdua reconstrução começar, uma enorme quantidade de explicações devará ser dada sobre a finalidade da Catedral, e o fato de que está lá para servir. Muita gente estará envolvida nessa tarefa. Talvez, após a dor e o sofrimento desta tristíssima semana, os parisienses comecem a testemunhar um recomeço, num nível mais profundo do que poderíamos até agora imaginar. Nossa Senhora da França, rogai por nós!

https://www.thearticle.com/ignorance-and-anti-catholic-bias-at-the-bbc-a-former-employee-writes