Se a autoridade política faz o bem, está legitimada; se não o faz, não é legítima, não passando de um cargo público entre os outros. Assim, a política tem um dever para com o bem.

O bem, no entanto, não se sustenta por si só, pois a moral exige um caráter absoluto que não pode dar-se por si mesma. O bem moral tem necessidade de um fundamento religioso em Deus. É por isso que a política tem deveres diretos em relação à moral (é chamada a fazer o bem), mas também tem deveres indiretos em relação à religião (é chamada a render culto público a Deus).

Caso contrário, lentamente desapareceriam até os seus deveres para com o bem. Quando a política se recusa a reconhecer os próprios deveres em relação à religião e a Deus, acontece com freqüência de esquecer-se de que também tem deveres para com o bem moral em si mesmo. Se a política perder de vista seus deveres para com a Sagrada Família, acabará esquecendo-se também os da família comum. Ao perder de vista a vida eterna, acaba por esquecer-se até de defender a vida humana.

Se a política bastasse a si mesma e pudesse fundamentar-se por conta própria, não precisaria de um relacionamento com a religião. No máximo, teria com ela relações contingentes e acidentais, ligadas a particulares períodos históricos ou necessidades extrínsecas, como, por exemplo, em tempos de crise e dificuldades — seja porque a religião age como uma espécie de cimento civil entre os cidadãos (a religião civil), ou porque ajuda a curar feridas sociais e as formas mais agudas de desconforto (religião como ambulância). Mas não seria uma relação essencial, de tal modo que, sem a religião, a política não pudesse ser verdadeira política.

A Igreja ensina, ao contrário, que a política precisa da religião, assim como da moral, para ser política no verdadeiro sentido da palavra. Sem religião, de fato, ela perde a sua legitimidade profunda, debilita-se e torna-se subserviente a interesses partidários, esquecendo-se gradualmente da própria vida moral, até finalmente perder de todo a força e limitar-se a ser mera administração (interesseira) das coisas, ao invés de guiar os homens para o bem comum.

https://www.vanthuanobservatory.org/ita/potere-politico-e-potere-spirituale-2/